MANIFESTO DOS ECONOMISTAS
Réplica do autor
Agradeço aos leitores Ricardo Antônio Lucas Camargo, advogado em Porto Alegre, e Luiz Paulo Santana, de Belo Horizonte, os comentários a meu artigo de critica aos autores do assim chamado "manifesto dos economistas". Não tive e não tenho a pretensão de oferecer soluções para os problemas econômicos do pais, dentre os quais se sobressai a vulnerabilidade financeira externa e a excessiva dívida pública (razão dos juros tão elevados), problemas certamente graves e complexos a ponto de terem comprometido toda a segunda administração FHC e de estarem atuando como freio ao pleno sucesso da administração Lula, em seus primeiros seis meses (obviamente feliz com os altos índices de aprovação popular, mas ainda incapaz, infelizmente, de entregar o que prometeu, isto é, crescimento e empregos).
Minha pretensão foi uma única, ou pelo menos, foi essencialmente a de demonstrar que os reclamos desses economistas insatisfeitos não encontram nenhuma razão de ser: nem o debate nem a agenda da reforma econômica no Brasil encontram-se interditados, tanto é assim que eles encontram ampla acolhida nas páginas de jornais e revistas nacionais, satisfeitos assim de provocarem polemica e aumentar, se possível, o índice de vendas ou pelo menos de leitura desses veículos. Alias, os últimos seis meses foram justamente dominados pela polêmica do "muda/não muda", como qualquer um que acompanha a imprensa diária poderá constatar.
O que não deixa de ter sua razão de ser: em sua carta ao povo brasileiro, de junho de 2002, assim como na carta com que declarou aceitar o acordo do Brasil com o FMI, em agosto seguinte, Lula afirmou, com todas as letras, que respeitaria plenamente os contratos vigentes, que se esforçaria por preservar a estabilidade financeira e a responsabilidade fiscal, mas que se empenharia em mudar a política econômica "desde o primeiro dia de governo". Nada mais natural, assim, que seja cobrado pelas mesmas pessoas que participaram da formulação de seu programa ou que lhe emprestaram seu apoio político, econômico ou intelectual nas lides eleitorais do ano passado.
Essas pessoas, parlamentares eleitos, militantes políticos, economistas, acadêmicos se julgam "donos", tanto quanto outros eleitores da coalizão vencedora, de pelo menos uma parte da vitória eleitoral, e se acham no direito, assim, de esperar o cumprimento dessa parte da promessa: a de mudança total no modelo econômico. Compreendo, portanto, que eles se sintam frustrados, quando essa mudança lhes é negada ao cabo de quase seis meses de governo.
Mas isso não tem nada a ver com o "protesto" dos economistas: eles reclamam, por um lado, de algo pior que a ausência de debate sobre os rumos da política econômica, de uma interdição desse debate, algo que nunca houve nem pode haver nas condições plenamente democráticas em que vive o Brasil atualmente. Eles incorrem não apenas num erro objetivo, mas numa injustiça (com o governo, com a imprensa e com o público) e numa grande mentira, inaceitável em pessoas adultas e medianamente inteligentes.
Por outro lado, eles pretendem fazer uma critica "econômica" à atual política econômica, quando a única coisa que fazem é traçar um amontoado de críticas políticas sem qualquer embasamento econômico. Quando digo sem qualquer embasamento, quero referir-me ao fato de que eles não dão nenhuma consistência empírica às suas acusações ou argumentos – isto é, não trazem nenhum número em apoio seja das críticas, seja de suas sugestões –, assim como não se dão ao trabalho de sustentar logicamente suas opiniões desencontradas com o mínimo de consistência teórica. Tudo é político nesse emaranhado de opiniões que certamente não honra a ciência econômica.
Em resumo, o que eles dizem é simples: juros altos matam a economia, geram recessão e desemprego, superávit primário em excesso provoca ainda mais depressão, câmbio alto prejudica exportações e a demanda agregada, e o bom mesmo seria reduzir os juros, diminuir o superávit (supostamente imposto pelo FMI), baixar o câmbio para facilitar a vida das empresas e aumentar os gastos públicos, de preferência nas áreas sociais geradoras de emprego. Bonito, não é?
Para eles, simplesmente não existe um problema fiscal no cerne de nossas tribulações econômicas, o Estado não é o despoupador líquido e o dilapidador de recursos que sabemos que é, e os níveis dos juros, do câmbio e do superávit orçamentário são meros detalhes que podem ser resolvidos com um pouco de "vontade política". Nunca se viu tamanha inconsciência e tamanho desrespeito à realidade dos números e dos agregados econômicos brasileiros atuais. Isso só se explica pelo fator que apontei em meu texto: economismo acadêmico, totalmente descomprometido (e alienado) em relação aos problemas enfrentados pelas autoridades econômicas no mundo real dos números cruéis das contas nacionais.
Por isso, creio que se poderia resumir o manifesto dos (des)economistas com uma paráfrase da célebre frase: nunca tantos escreveram tantas sandices em tão poucas páginas. Cordialmente,
Paulo R. de Almeida
Tréplica do leitor
O comentário de Paulo Roberto de Almeida, no que se refere a minha resposta – tive acesso antes da publicação, uma vez que gentilmente me fez chegar às mãos o texto –, traduz, praticamente, uma reiteração do que dissera em seu texto anterior. Quanto ao fato de o debate midiático estar dominado, no que tange à política econômica, pela discussão "muda/não muda", isto não é suficiente para infirmar a conclusão acerca da presença da interdição do debate, no sentido de se verificar que basta rotular os participantes para que a sorte da discussão, independentemente da bondade dos argumentos, seja definida.
De outra parte, ao se exigir que um "manifesto", ainda que elaborado por economistas ou por bacharéis em direito ou por engenheiros químicos, atenda aos rigores de um trabalho acadêmico, tem-se implícita, novamente, a premissa acerca da "metaideologicidade" da ciência, especialmente da ciência econômica, ou mesmo de que aos cientistas estaria interditado, sim, a adoção de posicionamento político, que pode, perfeitamente, ser exposto em manifesto cujo caráter é eminentemente opinativo, e não descritivo. Quanto à origem dos juros, o Estado como gastador para além da conta mas, entretanto, responsável pelo socorro à iniciativa privada nos casos de "quebra" (vide, entre outros, o Proer, referido expressamente e de modo extraordinariamente crítico pelo insuspeito Modesto Carvalhosa nos seus Comentários à lei das sociedades anônimas, São Paulo, Saraiva, 1997, v. 3), é evidente que se está num campo em que é necessária, sempre, uma ampla demonstração, especialmente quando se passaram quase 40 anos seguindo-se rigorosamente, qual um dogma religioso, a receita monetarista. Ou seria o monetarismo, em si mesmo – e aqui não estou partindo para a fácil estratégia de considerar que afirmada a falsidade de uma premissa, estaria a ser afirmada a veracidade, necessariamente, de outra – algo mais do que uma simples construção do "economismo acadêmico", mas a própria expressão da realidade econômica, o que tornaria não só falsas como perigosas quaisquer outras doutrinas econômicas? Posso ter incidido em equívoco quanto à minha percepção, mas a resposta à minha objeção me parece apontar neste sentido.
Ricardo Antônio Lucas Camargo
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Diplodura e humanologia
Sobre o artigo de Paulo Roberto de Almeida, de forma curta e grossa: ou ele é tolo de fato, ou cego ou espertamente de faz de tolo para destilar o seu veneno. Não vi um parágrafo aproveitável do seu extensíssimo artigo. Para quem viveu o cotidiano dos tempos a que ele se refere, em todos os parágrafos há visível falseamento dos fatos, manipulação de palavras ou de idéias que não resistem, no que afirmam, a qualquer mínima análise, isenta, da realidade nacional e dos resultados das políticas implementadas. Uma vergonha, um artigo desses, num sítio de críticas à imprensa que desinforma.
Só agora, ao final, "desceu-me a ficha" das razões e origens desse artigo e seus teores: o autor é "diplomata" e "sociólogo"... Está dito tudo... Pela diplomacia não decide nem conclui nada de maneira prática e eficaz, é só nhenhenhém. Pela sociologia não enxerga nada, como o outro... Precisamos inventar urgentemente a diplodura e a humanologia. Quem sabe, aí, daria mais certo.
Luiz Ribeiro Cordioli, engenheiro, São Carlos, SP