VEJA
E MST
Longe do jornalismo
Os editores da revista Veja perderam o contato com o jornalismo,
e vêm praticando atentados ao saber comum. Neste exemplo,
a revista mais uma vez faz campanha contra o MST. Ao relacionar
José Rainha a Antonio Conselheiro debocha dos movimentos
sociais, apresentando-os de forma pejorativa, como se fossem "delírios"
românticos. Mas Canudos não morreu por ter idéias
utópicas, inalcançáveis, ao contrário,
estava prosperando e muito, quando foi covardemente massacrado pelas
tropas do exercito. Euclides da Cunha não esconde a tristeza
ao descrever os últimos momentos de Canudos:
"Canudos não se rendeu. Exemplo único em
toda a história, resistiu até ao esgotamento completo.
Expugnado, palmo a palmo, na precisão integral do termo,
caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos
defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho,
dois homens e uma criança, na frente dos quais rugiam
raivosamente cinco mil soldados."
Canudos não sobreviveu porque pessoas, com a mesma mentalidade
dos editores da revista Veja, tinham o poder armado e a ambição
opressora pelo capital. Essa manipulação envergonha
os jornalistas que zelam pela sociedade, que querem, através
do seu trabalho, contribuir para o desenvolvimento do bem comum.
Enquanto estudantes de Jornalismo, aprendemos com a Veja
tudo aquilo que não pretendemos ser, aprendemos que a realidade
pode ser contada de forma tão distorcida quanto sarcástica,
e que isso não reflete os objetivos de isenção
e veracidade que buscamos. Acreditamos que um outro jornalismo é
possível, no qual prevaleça o desejo por uma sociedade
digna e consciente, que saiba questionar e, desta forma, melhorar.
Um jornalismo que não se enquadre ao sistema e que seja "radical",
no sentido de buscar a raiz da exclusão, tentando erradicá-la.
Lutamos pela democratização do saber, pela difusão
das idéias, pela liberdade de opinião. Sonhamos ajudar
neste processo da construção de um mundo mais justo.
Se somos utópicos? Poder ser... Mas nos inspiramos na inteligência
lúcida de Eduardo Galeano, que diz que a utopia serve mesmo
para nos fazer caminhar...
Manoela César,
estudante de Jornalismo da UFF
Leia também
Equívocos
na capa e no miolo – Deonísio da Silva
Cartas
e resposta de Deonísio da Silva – Caderno do Leitor
JB EM BRASÍLIA
Aliança escandalosa
O jornalista Luciano Martins Costa no Observatório da
Imprensa fez saudações à recuperação
do JB, destacando que esse periódico poderia servir
de exemplo para um novo modelo de negócio na imprensa brasileira.
O jornalista destaca também o desempenho do JB em
Brasília, onde teria passado a ser o segundo jornal em circulação
(provavelmente abaixo do Correio).
Ora, será que Luciano não sabe que o JB está
escandalosamente aliado ao moribundo governo de Joaquim Roriz no
DF? Esse modelo de negócios nada tem de novo, Deus nos livre!
Marcelo Miterhof
Leia também
Mais
do mesmo na gestão da mídia – Luciano Martins
Costa
INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO
Debate rotulado
O texto de Ivo Lucchesi traz à recordação
o problema da colocação entre o know how, ou "saber
como", e o "saber o quê". Com efeito, pode-se
perfeitamente saber fazer alguma coisa sem que, entretanto, se tenha
noção do sentido da própria atividade desempenhada.
Mas tal noção somente se pode obter mediante a reflexão,
atividade demorada, que não se coaduna com a velocidade requerida
pelos tempos modernos. E, por outro lado, a informação
traduz a matéria-prima das decisões que se hão
de tomar. Daí se explica o porquê de, durante o regime
militar, ter sido muito difundido o discurso segundo o qual o país
precisava de técnicos, e não de doutores.
E, por outro lado, o valor da informação passa a
ser considerado a partir da sua atratividade, da sua capacidade
de ser assimilada sem necessidade de maiores ruminações,
de acomodar, enfim, o receptor pela idéia de que o dado é
isto e ponto, nada mais há a dizer sobre ele, o resto é
a procura por chifres em cabeça de cavalo. Mas, ao se parar
a compreensão em um conceito superficial, por vezes, o que
se pode verificar é um caminho conducente à decisão
equivocada precisamente pela inadequação ao dado aparentemente
compreendido.
É muito fácil apodar de "esquerdismo" ou
"antiamericanismo" a postura crítica em relação
à invasão do Iraque ou à propaganda dos transgênicos,
assim como é fácil considerar "fascismo"
qualquer postura contrária à desagregação
da família. Com a rotulagem, o debate, desde logo, fica prejudicado,
ou reduzido a uma dimensão menor, periférica. Algo
que explica, modo certo, por que muitas vezes o debate político
no Brasil se trava em torno das características pessoais
dos políticos, em vez de se debaterem os projetos respectivos.
Ricardo Antônio
Lucas Camargo
O caminho da educação
Há algum tempo já se mencionou neste Observatório
a necessidade de se educar para a mídia – a fim de se prevenir
contra as distorções ou erros de leitura engendrados
por ela, também para se evitar ser educado exclusivamente
pelos meios de comunicação. Tal possibilidade pressuporia
certo aparelhamento crítico e, quem sabe, o surgimento de
uma disciplina (a ser inserida nos currículos escolares)
que fornecesse os subsídios necessários para a sua
efetivação.
De certa maneira, isso viria ao encontro das observações
críticas do Sr. Ivo Lucchesi em "A lógica invertida
da mídia" [ver remissão abaixo], bem como
em artigos anteriores sobre problemas culturais brasileiros, do
mesmo autor. Corrobora, portanto, a necessidade imprescindível
do discernimento crítico com embasamento teórico (nos
centros acadêmicos) e dos debates e reflexões na própria
mídia (em espaços como deste Observatório)
como exercício democrático por possibilitar aos leitores
tais discussões.
Quanto maior a crise de valores que afeta a sociedade, mais premente
a vigilância crítica sobre a mídia – não
como forma de se exercer um policiamento repressivo – mas sim pela
qualidade das informações e da prática jornalística.
Detectados os problemas e constatada a lógica do setor midiático
que, ao mesmo tempo que parece pretender ditar a pauta de assuntos
relevantes para o país, esvazia-se de conteúdo, enfrentando
inclusive grave crise financeira – resta a possibilidade de se investir
em novos caminhos, os quais não prescindem do investimento
em educação. Afinal, é preciso romper o círculo
vicioso em que se encontra a sociedade, balizada por uma mídia
moldada na práxis neoliberal, acostumada a ignorar as críticas
que lhe são endereçadas e que se torna cada vez mais
uniforme, tecnicista e impregnada de valores absolutos.
Educar-se por este tipo de mídia certamente representaria
sério risco não só para a democracia como para
o pensamento, para a formação do indivíduo
e para a liberdade. Entretanto não se deve cobrar exclusivamente
da mídia um papel pedagógico, eximindo a sociedade
civil e o Estado de suas responsabilidades. Deve-se exigir que cumpra
o seu papel informativo ou fiscalizador sem os deslizes tendenciosos
ou vicissitudes patrimonialistas.
A educação para a mídia (e para a vida) sim
exigiria fundamentos educacionais mais sólidos (menos descartáveis),
a prática da leitura (inclusive teórica) e certa perspicácia
crítica a fim de livrar-se das armadilhas da banalização
e superficialidade das informações. Um simples exame
das redações produzidas nos cursos pré-vestibulares
basta para se verificar os argumentos, ou melhor, a falta deles,
de critérios e de leitura crítica (mesmo das discussões
mais supérfluas da imprensa) de uma juventude quase pronta
para ingressar no universo acadêmico (e desacostumada a pensar).
O que esperar, então, das classes menos validas? Estariam
condenadas a permanecer à margem de qualquer discussão
ou presas da cultura televisiva?
O conhecimento com aval crítico exige sua construção
permanente, demandando trabalho e paciência para desmascarar
a lógica invertida da mídia de que fala Ivo Lucchesi,
e para que se vença a mediocridade e a superficialidade da
vassalagem neoliberalizante dos meios de comunicação.
O caminho – parece – continua sendo o da educação.
Afonso Caramano,
funcionário público
Leia também
A
lógica invertida da mídia – Ivo Lucchesi
O
Brasil e o desafio cultural – I. L.