01/07/2003 5/9

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VEJA E MST
Longe do jornalismo

Os editores da revista Veja perderam o contato com o jornalismo, e vêm praticando atentados ao saber comum. Neste exemplo, a revista mais uma vez faz campanha contra o MST. Ao relacionar José Rainha a Antonio Conselheiro debocha dos movimentos sociais, apresentando-os de forma pejorativa, como se fossem "delírios" românticos. Mas Canudos não morreu por ter idéias utópicas, inalcançáveis, ao contrário, estava prosperando e muito, quando foi covardemente massacrado pelas tropas do exercito. Euclides da Cunha não esconde a tristeza ao descrever os últimos momentos de Canudos:

"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado, palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados."

Canudos não sobreviveu porque pessoas, com a mesma mentalidade dos editores da revista Veja, tinham o poder armado e a ambição opressora pelo capital. Essa manipulação envergonha os jornalistas que zelam pela sociedade, que querem, através do seu trabalho, contribuir para o desenvolvimento do bem comum.

Enquanto estudantes de Jornalismo, aprendemos com a Veja tudo aquilo que não pretendemos ser, aprendemos que a realidade pode ser contada de forma tão distorcida quanto sarcástica, e que isso não reflete os objetivos de isenção e veracidade que buscamos. Acreditamos que um outro jornalismo é possível, no qual prevaleça o desejo por uma sociedade digna e consciente, que saiba questionar e, desta forma, melhorar. Um jornalismo que não se enquadre ao sistema e que seja "radical", no sentido de buscar a raiz da exclusão, tentando erradicá-la. Lutamos pela democratização do saber, pela difusão das idéias, pela liberdade de opinião. Sonhamos ajudar neste processo da construção de um mundo mais justo.

Se somos utópicos? Poder ser... Mas nos inspiramos na inteligência lúcida de Eduardo Galeano, que diz que a utopia serve mesmo para nos fazer caminhar...

Manoela César, estudante de Jornalismo da UFF

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Equívocos na capa e no miolo – Deonísio da Silva

Cartas e resposta de Deonísio da Silva – Caderno do Leitor

 


JB
EM BRASÍLIA
Aliança escandalosa

O jornalista Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa fez saudações à recuperação do JB, destacando que esse periódico poderia servir de exemplo para um novo modelo de negócio na imprensa brasileira. O jornalista destaca também o desempenho do JB em Brasília, onde teria passado a ser o segundo jornal em circulação (provavelmente abaixo do Correio).

Ora, será que Luciano não sabe que o JB está escandalosamente aliado ao moribundo governo de Joaquim Roriz no DF? Esse modelo de negócios nada tem de novo, Deus nos livre!

Marcelo Miterhof

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Mais do mesmo na gestão da mídia – Luciano Martins Costa

 

INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO
Debate rotulado

O texto de Ivo Lucchesi traz à recordação o problema da colocação entre o know how, ou "saber como", e o "saber o quê". Com efeito, pode-se perfeitamente saber fazer alguma coisa sem que, entretanto, se tenha noção do sentido da própria atividade desempenhada. Mas tal noção somente se pode obter mediante a reflexão, atividade demorada, que não se coaduna com a velocidade requerida pelos tempos modernos. E, por outro lado, a informação traduz a matéria-prima das decisões que se hão de tomar. Daí se explica o porquê de, durante o regime militar, ter sido muito difundido o discurso segundo o qual o país precisava de técnicos, e não de doutores.

E, por outro lado, o valor da informação passa a ser considerado a partir da sua atratividade, da sua capacidade de ser assimilada sem necessidade de maiores ruminações, de acomodar, enfim, o receptor pela idéia de que o dado é isto e ponto, nada mais há a dizer sobre ele, o resto é a procura por chifres em cabeça de cavalo. Mas, ao se parar a compreensão em um conceito superficial, por vezes, o que se pode verificar é um caminho conducente à decisão equivocada precisamente pela inadequação ao dado aparentemente compreendido.

É muito fácil apodar de "esquerdismo" ou "antiamericanismo" a postura crítica em relação à invasão do Iraque ou à propaganda dos transgênicos, assim como é fácil considerar "fascismo" qualquer postura contrária à desagregação da família. Com a rotulagem, o debate, desde logo, fica prejudicado, ou reduzido a uma dimensão menor, periférica. Algo que explica, modo certo, por que muitas vezes o debate político no Brasil se trava em torno das características pessoais dos políticos, em vez de se debaterem os projetos respectivos.

Ricardo Antônio Lucas Camargo

 

O caminho da educação

Há algum tempo já se mencionou neste Observatório a necessidade de se educar para a mídia – a fim de se prevenir contra as distorções ou erros de leitura engendrados por ela, também para se evitar ser educado exclusivamente pelos meios de comunicação. Tal possibilidade pressuporia certo aparelhamento crítico e, quem sabe, o surgimento de uma disciplina (a ser inserida nos currículos escolares) que fornecesse os subsídios necessários para a sua efetivação.

De certa maneira, isso viria ao encontro das observações críticas do Sr. Ivo Lucchesi em "A lógica invertida da mídia" [ver remissão abaixo], bem como em artigos anteriores sobre problemas culturais brasileiros, do mesmo autor. Corrobora, portanto, a necessidade imprescindível do discernimento crítico com embasamento teórico (nos centros acadêmicos) e dos debates e reflexões na própria mídia (em espaços como deste Observatório) como exercício democrático por possibilitar aos leitores tais discussões.

Quanto maior a crise de valores que afeta a sociedade, mais premente a vigilância crítica sobre a mídia – não como forma de se exercer um policiamento repressivo – mas sim pela qualidade das informações e da prática jornalística. Detectados os problemas e constatada a lógica do setor midiático que, ao mesmo tempo que parece pretender ditar a pauta de assuntos relevantes para o país, esvazia-se de conteúdo, enfrentando inclusive grave crise financeira – resta a possibilidade de se investir em novos caminhos, os quais não prescindem do investimento em educação. Afinal, é preciso romper o círculo vicioso em que se encontra a sociedade, balizada por uma mídia moldada na práxis neoliberal, acostumada a ignorar as críticas que lhe são endereçadas e que se torna cada vez mais uniforme, tecnicista e impregnada de valores absolutos.

Educar-se por este tipo de mídia certamente representaria sério risco não só para a democracia como para o pensamento, para a formação do indivíduo e para a liberdade. Entretanto não se deve cobrar exclusivamente da mídia um papel pedagógico, eximindo a sociedade civil e o Estado de suas responsabilidades. Deve-se exigir que cumpra o seu papel informativo ou fiscalizador sem os deslizes tendenciosos ou vicissitudes patrimonialistas.

A educação para a mídia (e para a vida) sim exigiria fundamentos educacionais mais sólidos (menos descartáveis), a prática da leitura (inclusive teórica) e certa perspicácia crítica a fim de livrar-se das armadilhas da banalização e superficialidade das informações. Um simples exame das redações produzidas nos cursos pré-vestibulares basta para se verificar os argumentos, ou melhor, a falta deles, de critérios e de leitura crítica (mesmo das discussões mais supérfluas da imprensa) de uma juventude quase pronta para ingressar no universo acadêmico (e desacostumada a pensar). O que esperar, então, das classes menos validas? Estariam condenadas a permanecer à margem de qualquer discussão ou presas da cultura televisiva?

O conhecimento com aval crítico exige sua construção permanente, demandando trabalho e paciência para desmascarar a lógica invertida da mídia de que fala Ivo Lucchesi, e para que se vença a mediocridade e a superficialidade da vassalagem neoliberalizante dos meios de comunicação. O caminho – parece – continua sendo o da educação.

Afonso Caramano, funcionário público

Leia também

A lógica invertida da mídia – Ivo Lucchesi

O Brasil e o desafio cultural – I. L.

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