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Edição de Marinilda Carvalho

Um leitor reclama: "Será que os crimes no Brasil param quando o assunto enfocado pela mídia é outro, por exemplo, Carnaval, Copa do Mundo, Páscoa, Olimpíadas, Natal e Réveillon?"

Pelo jeito, sim. Mas até que está melhorando. Lentamente, a maciça cobertura da invasão do Iraque encara a sina de todas as notícias na era moderna: a mídia vem desconcentrando o interesse. Os cadernos especiais estão afinando, a Globo News já voltou à programação normal, a RTP dedica cada vez menos espaço ao conflito, a BBC retoma a cobertura de outros assuntos nos telejornais, e até a CNN, que permanece "em combate" 24 horas por dia, dedica mais tempo aos temas da economia.

O que não muda mesmo é a "patriotice aguda" de âncoras e repórteres americanos – que infelizmente influenciam muito a TV brasileira. É duro ouvir uma profissional experiente como Christiane Amampour, por exemplo, falar na CNN sobre a "poderosa máquina da propaganda iraquiana". Nem o telespectador que nutre a aversão mais profunda por Saddam Hussein deixa de se perguntar: se a máquina de Bagdá é poderosa, o que dizer da de Washington?

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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MÍDIA & GUERRA
Trágico para todos

Sobre o artigo intitulado "Tambores da guerra vs. cultura da paz", de autoria do jornalista Alberto Dines, as atrocidades cometidas pelo atual líder iraquiano são comprováveis e verdadeiras, não podemos negar. Que nem todos os americanos são ávidos pela "luta" e pela "violência", também podemos comprovar (vivo nos EUA há quatro anos e concordo com esta afirmação, assim como posso afirmar que o contrário também é expressão da verdade – muito mais confusa e profunda do que parece). Sem querer reduzir a argumentação crítica do articulista a estes dois parágrafos, afirmo o seguinte:

1) Como vivo neste pais, tenho acesso direto a emissoras de TV como a Fox e a CNN, entre outras. Assim sendo, posso afirmar que, se há complacência da imprensa brasileira com os atos cometidos por Saddam Hussein, há também muita complacência com os atos cometidos pelos EUA e por sua política externa unilateral e beligerante. As duas redes de televisão acima citadas são os exemplos mais notáveis desta complacência, e a lavagem cerebral está "comendo solta" – ou sempre comeu?.A única diferença é que Saddam é o lobo em pêlo, e os líderes americanos (isto já não é de hoje...) são uma alcatéia fantasiada de branco.

2) Se a imprensa brasileira não esta muito interessada em apontar as atrocidades do atual presidente iraquiano em sua "aparentemente" interminável gestão, isto se deve ao fato de que a grande maioria da população mundial que tem acesso a qualquer tipo de imprensa (e repito: a grande maioria) sabe que este individuo e perigosíssimo e precisa ser detido. Muitas vezes, o obvio precisa ser relembrado. Mas, neste caso, o obvio é tão óbvio que até a sua caricatura tornou-se expressão da verdade.

Quero apenas acrescentar um outro fator que o articulista talvez tenha esquecido: a imprensa brasileira, com todos os defeitos que ela possa ter, e tem, está analisando os acontecimentos atuais em função da posição estadunidense diante da posição pacifista da esmagadora maioria do Conselho de Segurança da ONU; mesmo com todas as pressões sofridas pelos países mais vulneráveis a elas, os EUA não conseguiram o que queriam. A atitude atroz, violenta e condenável, neste caso, partiu não do Iraque de Saddam, mas dos EUA de Bush II. Temos então o que os "donos do mundo" tanto queriam: uma guerra para satisfazer seus desejos imperialistas. A imprensa mundial deve condenar este tipo de atitude assim como condenou as atitudes de Saddam Hussein!

Quanto ao desfecho trágico? Este virá, não apenas para os pacifistas.

Ricardo Radich

 

Mocinho e bandido

Mais uma vez, Alberto Dines dá um show de perspicácia nessa sua análise sobre belicismo vs. pacifismo. Difícil é conseguir que as pessoas reflitam sobre esses aspectos abrangentes e complexos. Nesse mundo de academias e supermercados, cérebros bem (in)formados são raridades. Parece sempre mais fácil brincar de mocinho e bandido. E quantas vezes ainda veremos esses filmes? O homem é o homem do homem. Mas, neste Observatório, persistem sinais vivos de anti-entropia.

Glaucia Vieira Machado

 

Fuga ao clichê

Muito obrigado por um artigo que fugiu do lugar comum e dos clichês fáceis dos últimos tempos.

Rodrigo Carvalho

 

Melhor ir à missa

Atenção, pacifistas! Para evitar o risco de não parecerem pacifistas talvez o melhor seja vocês irem a uma missa...

Jaime Hof

 

Pacifista não é trouxa

Gostaria de fazer alguns comentários a respeito do que Alberto Dines escreveu em "Tambores de guerra vs. Cultura da Paz". Concordo com as colocações a respeito da falência dos movimentos e manifestações pacificistas em não terem impedido a guerra; não saberia exatamente analisar os motivos. Considero também importantes as colocações a respeito da necessidade de não se adotar de forma alguma posturas de intolerância, de racismo, de anti-semitismo ou seja lá o que for. A despeito disso, ser pacificista não deve ser sinônimo de ser "trouxa", "besta", "ingênuo" ou entender o mundo de forma fantasiosa, pois o mundo real é muito mais cruel do que pinta a mídia.

O boicote econômico (além das barreiras tarifárias e protecionistas) tem sido uma arma utilizada sempre pelo grande capital e pelos países capitalistas centrais, com conseqüências gravíssimas, inclusive causando a morte de milhares (senão milhões) de pessoas, homens, mulheres e crianças de países africanos, asiáticos, do Oriente Médio e, em certa medida, na América Latina. A linguagem econômica quase sempre é a única linguagem capaz de mobilizar os dirigentes dessas nações, que respondem aos interesses dos grandes monopólios econômicos. Com isso não quero dizer que os povos somente fazem história movidos por motivos econômicos. Seus dirigentes sim, movem-se principalmente por tais motivos.

No entanto, não concordei com a avaliação de Alberto Dines em relação à cobertura da imprensa. Em minha opinião é muito complacente e generosa quando diz que "A grande imprensa inglesa, sobretudo a BBC, está fazendo uma cobertura competente e equilibrada"; ou "O caso do Brasil é exemplar: a imprensa brasileira comporta-se de forma correta apesar dos vícios habituais de caráter técnico (a fragmentação do noticiário, por exemplo)".

Sinceramente, se me sinto aviltada, desrespeitada e saqueada em meus (nossos) direitos em ter uma vida digna de cidadãos do mundo, sinto-me mais ainda saqueada em meu direito a uma informação decente – é verdade que não tenho lido muito todos os jornais – minha amostra consiste mais nas notícias televisivas (Bandeirantes, Globo, TVE, Cultura, SBT) e o que tenho visto nesses últimos meses, semanas e dias (aliás há alguns anos), com raras exceções (raríssimas), é nossos repórteres, âncoras ou seja lá o que for repetirem os textos da BBC, da CNN e outras, a repetir as cenas – algumas dramáticas e muito significativas, importantes para termos uma visão da realidade; outras patéticas, desprezíveis e completamente "novela mexicana", melosa e apelativa, como a imagem de um soldado americano chorando ao ouvir Bush falar.

Ora, quantas e quantas vezes os repórteres referiram-se ao "combate ao terrorismo" e outras coisas mais usando exatamente as mesmas palavras de Bush? Outro dia uma repórter falou que "soldados americanos haviam sido assassinados em combate no Iraque" – que negócio é esse? Se é americano é assassinado, se forem iraquianos são "agradecidamente" e "jubilosamente" (eles contam quantas centenas o são) "mortos" em combate. Como se a guerra do Iraque, contra toda a negociação da ONU, fosse "legítima"! Os americanos invadiram um país – seja ele comandado ou não por um ditador (esse ônus e responsabilidade deve ser cobrado a Saddam, e seu povo deverá receber auxílio e ajuda internacional para sair da miséria e da fome, e incentivo para sua autodeterminação, ao lado de todo o restante da questão nos países do Oriente Médio que deve ser resolvida com negociação, e não com guerra).

Então um país invade outro e isso é recebido pela imprensa com uma profusão de "mísseis inteligentes", shows de pirotecnia (que sabemos não serem somente show, pois trazem morte e destruição), que aparecem como se fossem o mais importante de ser mostrado? Por que quereria eu saber se os diabos dos mísseis são inteligentes? Inteligentes para quê? Diria minha mãe – de que adianta míssil inteligente com um presidente cego, surdo e burro? E o que a TV mostra é a parafernália da tecnologia; não vi uma discussão séria, exceto em alguns bastidores depois da meia-noite, sobre os motivos, sobre os discursos, sobre os disfarces, sobre os interesses dos vários países – pelo menos na cobertura dos telejornais parece que se assume que o público brasileiro é idiota e imbecil – infelizmente, muitos assistem dia após dia e acreditam em papai noel e coelhinho, pois dá no mesmo quando os âncoras repetem "guerra contra o terror"..."a democracia americana" (por que não informam sobre o clima de macartismo vigente nos EUA, sobre o tanto de pessoas e jornalistas perseguidos e demitidos?), a "defesa do povo americano", as "armas de destruição em massa"! O que é isso? Digam ao povo quem tem no mundo mais armas – nucleares, biológicas, químicas, e que inclusive já as usou contra Hiroxima e Nagasaki, no Vietnã, em outros países.

Por favor, senhores da imprensa, tenham mais respeito com nossa inteligência, com nossa dignidade; a guerra tem outros motivos que não estão sendo veiculados. A imprensa brasileira televisiva, no geral, só faz repetir a notícia como recebe dos seus chefes ingleses e americanos. Isso, sim, é para matar nossa paciência. O que é mais grave, e ninguém fala’, aqui sem qualquer tipo de intolerância ou racismo, o que Bush, Blair e Sharon estão fazendo (e não seus povos) têm um nome bem definido, em minha opinião e provavelmente na opinião de alguns juristas competentes e comprometidos com a justiça, é crime contra a humanidade – e os movimentos pacifistas, grupos, populações e autoridades deveriam é estar conclamando para que respondessem a um tribunal de júri internacional. E "essa imprensa", a que só repete e não informa (ou desinforma), que assuma que só vende o que se compra.

Leticia Nobre, Salvador

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