4/6

Envie para um amigo  Procure no arquivo

POLÍTICA DE COTAS
Chance, não esmola

Sobre o texto "O buraco é mais embaixo", do professor Antonio Fernando Beraldo: muito útil a pesquisa sobre os números atuais da educação no país; ela serviu para que ele tecesse um comentário muito bem-embasado sobre a tão discutida política de cotas no ensino superior. A idéia de mudar o critério de "cor de pele" para "nível de renda" é realmente mais sensata. Há vários anos que iniciativas como o Cursinho da Poli, por exemplo, utilizam a renda familiar como critério para escolha de seus alunos bolsistas. Alunos cuja renda familiar está aquém de certos limites são beneficiados com bolsas de estudo que cobrem quase 100% da mensalidade. Tempos atrás, o cursinho atendia apenas a alunos carentes.

Mas além de todas as questões levantadas pelo professor Antônio, também gostaria de deixar aqui as razões pelas quais me oponho à proposta:

1) O que será do negro que, diplomado, for correr atrás de seu tão desejado emprego (não que faculdade seja curso profissionalizante, mas não deixa de ser uma hipótese bem plausível)? Não há dúvidas de que o empregador vai partir do princípio de que o negro só entrou na faculdade por causa das cotas. Isso o depreciará invariavelmente frente a um candidato branco. Ou será que já está se pensando num sistema de cotas de emprego?

2) O que será do branco pobre? Sim, porque nossas favelas também têm seus loirinhos de olhos azuis, daqueles que o cabelo fica até meio esverdeado de tanta sujeira.

3) Os cursos mais procurados nas faculdades públicas já não comportam todos os alunos que tiram boas notas no vestibular. Diferenças de meio ponto na nota da segunda fase da Fuvest, por exemplo, desclassificam ótimos alunos. Ao se criarem cotas para negros, desprezam-se esses "quase calouros" e mais alguns ótimos alunos para que se matriculem pessoas com menor conhecimento e que certamente terão mais dificuldades em cursar a faculdade. É trocar o certo pelo quase errado.

Agora, pra ninguém dizer que eu só sei criticar: chega de paliativos, gente! Vamos começar a resolver os problemas do país, em vez de remendá-los. Ensino não é campeonato de futebol, ou se começa bem desde o início ou não se chega à final. É preciso, sim, dar mais chances à população de baixa renda, mas sem iludi-la. O ensino público precisa ter qualidade desde a pré-escola, pois a faculdade não vai repor as deficiências de 11 anos (como já disse o professor). Ah, já ia me esquecendo: não é por ter de trabalhar que o aluno de universidade pública não vai conseguir cursar "decentemente" sua faculdade. Trabalho desde os nove anos, cursei o segundo grau em escola pública e me formei na Escola Paulista de Medicina, há cinco anos, sem parar de trabalhar. Digo isso pra lembrar a todos que o pobre não precisa de esmola (como os R$ 15 de auxílio-alimentação), só precisa de chances.

Carlos Massayuki Kikuti

 

Não precisou

Brilhante, como o professor Beraldo. Aliás, ele não quis chamar a atenção para este ponto mas o professor Beraldo é negro, altamente qualificado, chefe do Departamento de Estatística da UFJF, e não precisou de cota para chegar onde chegou.

Paulo Meirelles Pontes


Antonio F. Beraldo responde

O nosso amigo Paulo Meirelles Pontes se enganou: o chefe do Departamento de Estatística da UFJF é meu xará, José Antonio Beraldo, é negro e professor há uns 15 anos. Por seus próprios méritos, que não são poucos, pelo contrário. (A.F.B.)


O buraco é branco

Tudo verdade. A tragédia talvez seja até pior. Mas quem cavou o buraco é branco. Entrando negros na tal escola de elite, se de cada 100 brancos houver um negro para discordar quem sabe o pensamento brasileiro mude de cor e com ele as políticas públicas que podem consertar esse buraco?

Ana Lagôa, jornalista

Leia também

O buraco é mais embaixo – Antonio Fernando Beraldo

 

A PENA E O CINZEL
Críticos sem função

Receba meus cumprimentos pelo excelente artigo que acabo de ler sobre Graciliano Ramos. Por coincidência, também considero São Bernardo seu livro mais importante, e que ainda por cima mereceu filme com interpretação soberba. Espero continuar lendo suas análises, sempre pertinentes, num momento em que a crítica praticamente foi banida do jornalismo (sou jornalista e, em 1998, obtive o Prêmio de Literatura Luis da Câmara Cascudo, atribuído pela Prefeitura Municipal do Natal, justamente no ano do centenário de nascimento do patrono, o que honra acima de qualquer outra coisa). Eu acabara de receber o e-mail de um escritor local, criticando os críticos, que para ele não têm função nenhuma! E assim vamos nos arrastando pela vida afora... Saudações do leitor encantado,

Franklin Jorge

Leia também

Graciliano Ramos, jornalista – Deonísio da Silva

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe