UM POR UM
Deonísio da Silva responde

Assoberbado de trabalhos -- os leitores que escreveram ao Observatório saberão que não se trata de variação de soberba -- não posso, entretanto, deixar de dar-lhes a atenção que fazem por merecer. Preciso, porém, ser breve. Mas não muito. É necessário reiterar que escrevo sem falsa modéstia e sem falsa vaidade porque as duas seriam falsas de qualquer modo. Estou na "faixa otária" dos 50 e sempre me dediquei às letras. Tenho 25 livros publicados, alguns em outros países, e não tenho vaidade: qualquer pagodeiro com um único cedê ganhou mais do que eu com a obra toda em direitos autorais. Doutor em Letras pela USP? Sim, sou, mas por gosto. Como investimento financeiro, o retorno tem sido semelhante aos livros com que encho as prateleiras de minha casa: deficitário. Às pessoas, então.

1) Fernanda Ramos. Concordo com você quando escreve: "não acho que meu conhecimento deva ser medido pela capacidade de ‘decorar’ certos nomes e datas que me acrescentam muito menos do que um conceito amplo sobre determinado assunto". Evidentemente que não podemos generalizar – foi por causa de generais que generalizaram o Brasil durante 20 anos que o ensino chegou, aliás, aonde está. Não podendo atender às pressões da classe média que solicitara aos quartéis o Golpe ou Revolução de 1964, foram abertos cursos superiores a torto e a direito. E o direito passou a ser o torto autorizado. Foram rebaixados os padrões de ensino em muitos lugares, ainda que, paradoxalmente, tenha melhorado em alguns nichos. Nossa pós-graduação é a melhor da América Latina. E o que me levou a escrever o artigo foram justamente sugestões de qualificados alunos da UFSCar, onde ensino, que vieram me contar o que estava acontecendo. O curso de Física de nossa universidade tem um programa – Física às 13h – que leva professores de outras áreas para conferências sobre outros assuntos. Este que lhe responde foi falar sobre temas como Literatura Brasileira, Etimologia. Na Unesp, campus de Araraquara, a Química faz todos os anos uma semana em que não se fala de Química. Os convidados são de outras áreas. O que nos desconcerta no Show do Milhão é justamente esta falta de lastro cultural que leva o bom aluno, quando muito, a conhecer cada vez mais sobre menos coisas de seu próprio curso. Para mim, por exemplo, Química e Física são ramos de ciências ocultas, entre as quais incluo a feitiçaria, o despacho nas encruzilhadas. Mas são ocultas para mim, por deficiência de formação. Parodiando Camões, "erros meus, dos professores, bedel fascista/ em minha perdição se conjuraram". Quanto ao cursinho que v. faz para passar no vestibular, já fiz minha proposta pública ao ministro Paulo Renato, da Educação, ex-reitor da Unicamp, em encarte especial da revista Vogue, cujo diretor de redação é o escritor Ignácio de Loyola Brandão: o vestibular deve ser feito à saída da universidade, não à entrada. Entrariam todos os que quisessem estudar. Sairiam formados apenas aqueles que demonstrassem haver aprendido. O diploma universitário não é garantia geral de competência. Depende de onde o aluno o obteve, de que modos etc. Em resumo, prezada Fernanda, embora eu seja "catarinauta" e não mineiro, nós dois temos razão. Quem generalizou não fui eu, nem você.

2) André Gasparian. Concordo com suas ponderações, sobretudo quando comenta o juízo que se faz no Brasil sobre quem sabe escrever, que em resumo é quem tem o que dizer e sabe como fazê-lo. Publiquei um texto em Zero Hora, na época em que era dirigido por Augusto Nunes, intitulado "O jardineiro no canteiro das palavras". Este texto é utilizado em várias universidades e escolas como referência de ensino da língua portuguesa. Inspirei-me em crônicas de Luís Fernando Veríssimo e Rubem Braga. Podemos escrever bem, desconhecendo aquela gramática que usualmente ensinam no primeiro e segundo graus, na mesma medida em que se podemos escolher as flores que mais nos agradam, sem conhecer Botânica. Os escritores fazem jardinagem. Para dirigir seu carro, você não precisa ser especialista em mecânica, mas deve saber como funcionam os freios, o volante, o acelerador etc. Quanto à sua frase "tudo o que faz sucesso e se destaca tem logo seus defeitos", você concorda com Tom Jobim: "No Brasil, fazer sucesso é perigosíssimo". Ele também escreveu que "o Brasil não é para principiantes". Comprovamos nós: na internet, em sítios ou saites que alguns denominam elitistas, estão ocorrendo debates amplamente democratizados, de que é exemplo este que estamos travando.

3) Alex Richard von Haydin. Concordo em parte. Meus alunos que relataram os tropeços dos universitários são pessoas em cujos juízos confio: eles não mentiriam para mim. E disseram que há, sim, estudantes de universidades públicas entre os que tropeçaram em questões simplórias. A conferir. Quanto à "promiscuidade das universidades particulares", também concordo, mas com a ressalva de que é preciso registrar as exceções. A menos que reformulemos os conceitos do que seja público, privado, comunitário. As PUCs, por exemplo, são centros de excelência. E não são públicas. Aliás, também no ensino médio, há boas escolas que nasceram e continuam à sombra de ordens religiosas e ministram ensino de qualidade.

4) Herbert Levi. Inteiramente de acordo com você. Pagando tributo aos exemplos emblemáticos que me dá, sugiro que observe o português de célebres figuras políticas que pleiteiam cargos elevados no Parlamento ou no Executivo. Flexionam advérbios, dizem estar sempre "fazendo colocações" (o galináceo faria melhor do que eles e com melhores resultados), não raciocinam sobre hipóteses, consideram tudo "a nível de" e quejandos.

5) Jussara Maria Barbalho Bahia. Obrigado por seu endosso e delicadeza de gesto. Os parabéns devem ser repartidos com a equipe do Observatório da Imprensa, a começar por Alberto Dines, que foi quem me convidou a escrever aqui, e com Luiz Egypto, que trabalha com eficiência e presteza para que tais artigos circulem admiravelmente na Galáxia Gutenberg que se tornou a internet. Repito sua frase, por concordar com a proposta: "começar pelo bom hábito da leitura". Ninguém ensina ou aprende ciências exatas, no Brasil, a não ser em português. Talvez os fracassos em muitas disciplinas se deva ao incipiente português de professores e alunos, não a propaladas ignorâncias dos estudantes apenas. Revolta-me todos os anos a publicação de "pérolas do vestibular". Pois duvido de que pais e professores daqueles vestibulandos obtivessem melhor desempenho do que eles. Os que riem deles, às vezes, sem o saber, estão rindo de si mesmos. [D. da S.]



OBRIGADO, OBRIGADO
Não vejo Malhação

É a primeira vez que acesso o Observatório da Imprensa, e li algumas matérias, poucas ainda, mas não é preciso provar o pote inteiro para saber se o caviar é bom, não é mesmo (levando em conta que minha condição social só me permite um patezinho, daqueles bem vagabundos)?

Adorei algumas críticas contra esta imprensa que não faz nada mais do que massificar o pensamento dos jovens. E pensar que o futuro da nação pertence a menos de 10% de jovens competentes e 90% de seguidores de Malhação.

Adorei as matérias, e quem sabe, eu possa contribuir com vocês, já que também tenho um lado crítico (simples, mas crítico).

Jefferson Floyd, 18 anos, Santo André, SP



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