02/09/2003 3/12

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MÍDIA E BOMBAS
Reyes, segundo o repórter

Começo minha resposta concordando com você – poderia ter sido mais explícito com relação aos outros órgãos de imprensa. (S)em tempo: os primeiros a entrevistar Raúl Reyes foram um correspondente da France Presse e um repórter do jornal equatoriano El Comércio, seguidos pelo meu companheiro de viagem, Roberto, e por mim. Mesmo que essa informação mais exata não conste da reportagem, fiz de tudo para não dar um tom de excepcionalidade e/ou heroísmo. O texto principal deixa claro que o convite à Folha, longe de ser algo sobrenatural, foi feito dentro de uma ofensiva diplomática das Farc, que, além da imprensa estrangeira, inclui a ONU, a Igreja Católica e governos. Isso está explicado logo no título e nos três primeiros parágrafos do texto principal, cuja chamada é "Isoladas, Farc lançam ofensiva diplomática".

A preocupação com o "anti-heroísmo" foi tanta que nem sequer afirmei que Reyes é o "nº 2" das Farc, como você e outros órgãos da imprensa o chamam, pois dá ao leitor a impressão de que ele é uma espécie de vice-presidente. Na verdade, Reyes faz parte de um alto comando formado por sete membros, todos hierarquicamente iguais e subordinados ao Manuel Tirofijo Marulanda.

Ao afirmar que estive "em área do território controlado pelas Farc", não quis fazer charme nem mistério, como você afirma. A aceitação do convite incluía não dar nenhuma pista sobre o nosso itinerário. Como havia concordado com os termos, segui-os à risca. Mas, de novo, deveria ter deixado essa condição mais explícita ao leitor, embora essa contrapartida me pareça razoavelmente óbvia no texto.

O que fui, afinal, fazer lá? Ao contrário do que Reyes disse, as Farc não são uma questão colombiana, mas de toda a América do Sul, principalmente dos vizinhos. O encontro com Reyes foi uma ótima oportunidade para a Folha mostrar a seus leitores a posição das Farc sobre assuntos que tantos nos interessam, como Fernandinho Beira-Mar, fronteiras, ligações políticas e diplomáticas no Brasil, Plano Colômbia, caso Betancourt, entre outros.

O "clima" da reportagem, necessário numa pauta desse tipo, deixou – ou pretendeu deixar – claro que se tratou de uma viagem razoavelmente previsível e bastante tranqüila, embora com suas peculiaridades. É isso. Abraços,

Fabiano Maisonnave

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Sozinhos na selva. Ou quase – Luiz Weis

 

Mais e menos terrorista

Excelente matéria. É um traço antropológico (seria atrevimento classificá-lo dessa forma?) bastante peculiar dos brasileiros essa "defesa" da memória dos mortos, principalmente quando se trata de mortos poderosos. Isso me incomoda profundamente. Acredito no preceito cristão de que os erros devem ser perdoados, mas não acho que se deva confundir perdão com esquecimento, desconsideração de fatos e atitudes dos falecidos. Sobretudo quando tais atitudes têm repercussões consideráveis na sociedade.

Em virtude dessas mesmas considerações, lamento muitíssimo a morte de Sérgio Vieira de Mello. Não por ser ele brasileiro ou por ter sido morto em ataque terrorista. Lamento pelo que tal perda representa para uma humanidade já tão desprovida de homens públicos coerentes, empenhados na construção do bem comum, no fortalecimento e na expansão da verdadeira democracia e no zelo pela garantia dos direitos humanos. Lamento sobretudo por ter sido ele vítima de um ataque que deveria ter atingindo mais diretamente os poderosos inescrupulosos, desumanos, imperialistas e mesquinhos; pois era contra estes o verdadeiro ataque.

Não se trata de defesa do terrorismo. Trata-se justo do contrário. Será que há como mensurar qual tipo de ação é mais terrorista? As organizadas por grupos étnicos fundamentados em preceitos religiosos questionáveis que estão em disputa pela posse de territórios desde priscas eras? As empregadas pelas grandes potências econômicas mundiais na intenção de manter seus impérios, encobertas pelo discurso da "defesa da democracia mundial" e do "combate a ações desumanas" de governos centralistas/ditatoriais? Eis a questão... Quem se arrisca a respondê-la?

Amanda Vilela Torres, Recife

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Não foi preciso inventar um grande homem – Luiz Weis

 

Realidade mascarada

O controle da mídia no Iraque não ajudará os americanos a pacificar a região, apenas aumentará o ódio da população. É evidente que qualquer iraquiano que tinha admiração pelo antigo regime ou razões para apoiar Saddam Hussein não vai acreditar numa só palavra veiculada por jornais, rádios e redes de TV controlados pelos americanos. Mesmo aqueles que eram oprimidos antes da ocupação não deixarão de ver os americanos como invasores. O choque entre duas culturas tão diferentes e com valores tão opostos como a americana e a iraquiana inviabiliza qualquer projeto de paz. O Iraque só será pacificado quando os americanos forem expulsos ou quando o US Army conseguir eliminar toda a oposição, deportando ou eliminando fisicamente a população iraquiana.

Mesmo que diminuam, os atentados contra tropas e instalações americanas não vão cessar. As sabotagens vão continuar e podem aumentar caso os iraquianos percebam que a realidade pós-ocupação é pior do que aquela que existia durante os anos Saddam Hussein.

A mídia pode mascarar a realidade, mas não é capaz de construí-la. Cedo ou tarde americanos e iraquianos terão um encontro com a mais dura verdade. Saddam Hussein era a trava da porta do inferno. Agora que foi removida, demônios desconhecidos e potencialmente mais perigosos terão que ser combatidos. E talvez não possam ser vencidos.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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