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CARLITO MAIA (1924-2002)
Copos de leite e suavidade

Não eram apenas flores que Carlito Maia enviava. Ele tinha a amabilidade de mandar entregar um envelope cheio de copias dos melhores textos, das melhores charges, das melhores estrofes e caricaturas. Digo melhores porque o bom senso, a atitude e o gosto de Carlito Maia fizeram parte da minha escola. Ele tinha sede em estar presente disseminando cultura, insights e informações. Pena ter falado com ele tão pouco, mas tive a honra, em 1994, de receber um arranjo de copos de leite e seu desejo de sucesso por um dos meus trabalhos. Serei eternamente grata por ser uma das muitas vitimas da sua suavidade. Muita luz, Carlito Maia. Meu Adeus.

Ivanna Fabiani

 

BIG BROTHER BRASIL
O papel social do jornalista

O que mais surpreende é o fato de jornalistas reconhecidos e respeitados (pelo menos até a exibição do primeiro BBB), já tendo atuado como correspondentes em outros países, se curvarem diante de interesses meramente financeiros das emissoras e aceitarem monitorar um espetáculo desses. Com isso, alimentam cada vez mais a curiosidade mórbida do ser humano, deseducando e banalizando todas as "canalhices". Que efeitos surtirão nas crianças e adolescentes? Será que é esse é o "papel social" dos jornalistas e dos meios de comunicação?

Jussara Malafaia Moraes

 

LEITURAS DE VEJA
Um dia ela venderá menos

Quero compartilhar com Fernando Autran a indignação exposta no Observatório, na edição de 26/6/02, a partir de leituras da Veja.

O alerta sobre como a revista manipula as informações vem sendo dado faz muito tempo. Se a publicação continua sendo a mais vendida é porque, parafraseando "o povo tem o governo que merece", muitos dos brasileiros que buscam se informar e, em tese, são formadores de opinião, não consideram tão grave o desvio de conduta da Veja, e, deliberadamente, compram a revista porque nela encontram o que desejam ler.

Os que querem informações imparciais e críticas não podem esperar encontrá-las na Veja, que lamentavelmente pauta suas reportagens por um viés direitista, conservador, ou, como se define em suas páginas, sempre conduzida pela incontestável onda da globalização (sinônimo de neoliberalismo), cuja face aparentemente monolítica e imutável se revela nas frases pinçadas por Fernando Autran: "o melhor presidente que já tivemos...", "José Serra ou o caos...", "FHC, um grande estadista...".

Interessante também é o modo como as mensagens subliminares, obedecendo a um esquema psicológico bastante eficaz, são produzidas. A edição em cuja capa se lê "O Brasil pode virar uma Argentina" traz por trás das letras da manchete principal um ponto de interrogação, o qual não se percebe imediatamente, sendo o leitor induzindo por tal estratégia a concluir que se trata de uma peremptória afirmação e, atraído pelo tom alarmista, a comprar a revista.

Eu ainda tenho esperança de que um dia a Veja deixe de ser a revista de informação semanal mais vendida do país. Talvez quando suas posições políticas circunstanciais, porque venais, tornarem-se mais explícitas (será possível?) meu desejo se torne realidade.

Clovis Luz da Silva

Leia também

Duplo sofrimento no dentista – Fernando Autran, no Caderno do Leitor (rolar a página)

 

DATENA REPÓRTER
A audiência, a responsabilidade e a ética

Na quinta-feira 20/6 fiquei indignada ao assistir, no programa Datena Repórter, a uma das maiores manifestações de falta de ética e inconsistência jornalística que já vi em mais de 15 anos atuando como profissional de área. Nessa data, foi exibida uma matéria sem qualquer fundamento lógico, tentando associar as ações ambientalistas e de proteção animal à responsabilidade pela continuidade da fome no país e pela existência de crianças na rua.

Num primeiro momento o que choca é a falta de critério na apuração e edição. O desespero por uma pauta infundada com alguma denúncia que pudesse elevar o nível de audiência parece fazer com que se coloque qualquer coisa no ar, sem o compromisso com a informação. E o pior: de forma que seria risível, se não houvesse por trás de tudo a banalização de três causas importantes: a luta contra o tráfico e a tortura de animais, a revitalização da flora e a preocupação com meio ambiente urbano através da luta contra ao abandono de sua fauna.

A princípio mostram-se imagens dos canis do Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) da Prefeitura de São Paulo, responsável pelo Programa de Saúde Animal (PSA), como se o incentivo à adoção de animais abandonados fosse um ato mercantilista para incrementar o comércio de rações e produtos para animais. A reportagem não coloca no ar qualquer declaração ou texto explicando o que é e quais os objetivos dos programas de adoção de animais abandonados feitos pela Prefeitura e por ONGs. O Programa de Saúde Animal, por exemplo, é a primeira iniciativa municipal do gênero no sentido de tentar diminuir a matança e o abandono de animais nas ruas. Fato esse, totalmente relacionado à questão da ecologia urbana, com a inibição da transmissão de doenças e da sujeira de cidade, o que tem ligação direta com a qualidade de vida do homem. Homem esse, responsável pelo abandono dos animais e pelo aumento do problema.

Num segundo momento, a TV exibe imagens da Associação Ecológica Santuário Rancho dos Gnomos, uma ONG que cuida de animais torturados em circos e oriundos do tráfico. Entidade essa que trabalha com apoio técnico do Ibama e da Polícia Ambiental, não recebe qualquer tipo de verba oficial, não tem fins lucrativos e sobrevive com extrema dificuldade. A reportagem mostra o Santuário como se fosse um zoológico particular, como uma excentricidade de um casal e em não como uma ONG e nem cita que esses animais, vítimas de tráfico ou retirados de circos pelo por sofrerem maus-tratos e mutilações, foram encaminhados para lá por órgãos oficiais como Ibama e Polícia Ambiental. A matéria enfoca apenas quantos quilos de carne comem os animais lá cuidados e relaciona o fato com as crianças que passam fome, sem ter a mínima noção que a carne e os vegetais destinados a esses animais é imprópria para o consumo humano. Enfim, não matariam fome de criança alguma.

Em seguida entrevistam e ridicularizam a gerente de marketing do Shopping Villa-Lobos, Consuelo Gradin, que mostra como funciona o programa de revitalização de áreas verdes na zona Oeste de São Paulo promovido por esse shopping. São jogadas na TV imagens editadas em que os envolvidos não têm espaço para explicar suas atividades e a importância das mesmas para a cidadania e o meio ambiente, enfim para a qualidade de vida do homem. Em seguida, o âncora teatral Marcelo Rezende ridiculariza essas iniciativas tentando relacioná-las indiretamente à falta de atenção com a fome no País e com as crianças de rua.

Além do tom apelativo, a reportagem mostra um nível surpreendente de parcialidade, desinformação, ignorância, irresponsabilidade e má fé por parte da equipe e da emissora. Mostra-se números gastos com o meio ambiente como se fossem desperdício. A parcialidade aparece porque a emissora sequer citou dinheiro desviado com a corrupção em várias instâncias, enriquecimento ilícito pessoal através de falsos programas sociais ligados à criança, entre tantas outras "maracutaias" que existem por aí, essas sim responsáveis pela alimentação da miséria em todo o mundo.

Desinformação, ignorância e falta de trabalho de reportagem gritantes ao fazer o tipo de associação que apareceu no vídeo. Uma pesquisa desenvolvida pelo professor Sabetai Calderoni, da Universidade de São Paulo (USP), publicada na revista Superinteressante, edição de março deste ano, revela que uma das grandes responsáveis pela fome no Brasil é a falta de capacidade e competência do homem durante o caminho que os alimentos percorrem desde o seu plantio até o estômago do consumidor. Segundo o trabalho do professor Calderoni, no Brasil, apenas 39% dos alimentos produzidos são aproveitados, o resto se perde no caminho por culpa do próprio homem, da seguinte forma: 20% no plantio e colheita; 8% no transporte e armazenamento; 15% na indústria;1% na venda no varejo e 17% na casa do consumidor. Se não houvesse essa perda, segundo a pesquisa, 19 milhões das 23 milhões de pessoas que passam fome no país poderiam ser alimentadas diariamente.

Será que o pessoal da Rede TV! não conseguiu ter acesso a informações publicadas tão recentemente numa revista desse porte? Além de tudo, a carne e os vegetais que alimentam os animais de entidades como o Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos são doadas, entre outros motivos, por serem impróprias para o consumo humano. Sobre o programa do Villa-Lobos questiona-se o investimento na flora demonstrando que a Rede TV! não tem a mínima noção da necessidade da mesma para a sobrevivência da espécie humana.

A irresponsabilidade da reportagem se mostra também por tentativas de associações indiretas absurdas como do incentivo à adoção de animais abandonados estar ligada ao fomento do crescimento do comércio de rações e produtos do gênero. Além de tudo, é possível dizer que houve má fé por parte da reportagem. Ao procurar a direção do Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos - entidade onde dou gratuitamente consultoria de comunicação – a equipe da Rede TV! disse que, motivada por uma matéria feita na semana anterior pela revista da Folha, queria mostrar a importância e a beleza do trabalho desenvolvido por aquela entidade em favor dos animais torturados em circo e tão violentados pela ação do tráfico, tendo se comportado de forma semelhante junto à administração do Shopping Villa-Lobos.

O Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos entrou com um pedido oficial de direito de resposta junto à emissora e uma ação judicial contra o uso indevido da imagem e também por injúria, calúnia e difamação. Os outros envolvidos também estão tomando providências. A incompetência foi tanta que a reportagem esqueceu de pedir a autorização escrita pelo direito de uso de imagem. Mas isso é pouco diante desse antijornalismo apresentado. É necessária uma vigilância maior da própria categoria para que esse tipo de matéria seja punido com rigor e que esse tipo de pauta seja coibido nas redações. Além de fornecer informações erradas para a população, promover um desserviço, o "achismo" sem pesquisa, "reportagens" como essa servem para afundar ainda mais a imagem da nossa categoria já tão em descrédito.

Karen Gimenez, jornalista especializada em jornalismo científico e consultora voluntária do Movimento de Proteção e Defesa Animal

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