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Edição de Marinilda Carvalho

Amigos, o destaque desta edição é um protesto. Há uma carta importante aqui no Caderno do Leitor e várias entre as mensagens enviadas ao programa Observatório na TV.

Trata-se literalmente de um protesto anarquista: os integrantes do simpático grupo que combate a opressão do Estado e do Capital sobre o indivíduo – "hay gobierno, soy contra" costuma ser seu slogan – afirmam que foram comparados aos terroristas no programa OI na TV pelo professor Muniz Sodré, sob a aprovação de Alberto Dines. Na verdade, não houve a comparação, a menção aos anarquistas foi feita pelo jornalista Wilson Figueiredo, que não empregou qualquer conotação condenatória, e Dines nada aprovou ou reprovou.

Parece que alguém que viu o programa distraiu-se na hora H e passou adiante uma informação equivocada. Acontece. Mas o resultado foi uma verdadeira anarquia! :-) Abaixo, as respostas de Dines e Muniz esclarecendo tudo.

Calma, pessoal! Viva Kropotkin, vive le drapeau noir!

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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PROTESTO
Anarquista decepcionado

Caro Dines, nós nos conhecemos pessoalmente há alguns anos, quando eu exercia a presidência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo; acompanho, porém, tua carreira há muito mais tempo, desde a época do JB, e tenho sempre, quando convidado para dar aulas e conferências, recomendado aos colegas ou futuros jornalistas o Observatório da Imprensa. Por tudo isso, foi maior minha decepção ao assistir ao programa dedicado à discussão da cobertura da mídia aos atentados contra as torres do World Trade Center e ao Pentágono.

Essa mensagem ficaria longa demais se fossemos registrar todos os equívocos cometidos naquele programa, por isso vou me ater a um único aspecto: a apresentação por um de seus convidados, Muniz Sodré, com sua aprovação, de uma visão preconceituosa e inaceitável dos anarquistas como "terroristas". Foi esse tipo de pré-julgamento que levou à condenação à morte, sem provas, de Sacco e Vanzetti – afinal, eles eram anarquistas e, portanto, terroristas, de acordo com a visão de Muniz Sodré, avalizada pelo Observatório da Imprensa. É o mesmo tipo de "lógica" seguida pelo governo americano ao condenar Osama Bin Laden pelos atentados no dia 11 de setembro: ele é culpado e não é preciso apresentar provas.

Que outras pérolas esperar a seguir do Observatório da Imprensa? Eis alguns exemplos: comunistas comem criancinhas; negros são indolentes; judeus são usurários...

Lamentavelmente, o Observatório da Imprensa se colocou no mesmo nível do Sr. Sílvio Berlusconi, para quem "nós devemos estar conscientes da superioridade da nossa civilização... " Quem pensar diferente é "terrorista". Como anarquista, deixo registrado meu protesto.

Antonio Carlos Fon


Alberto Dines responde

O programa Observatório da Imprensa é uma experiência inédita. Não é meu, mas também não é da TVE. E como o Observatório não é uma entidade, mas uma vontade de discutir o desempenho da mídia, o programa é apenas uma continuação desta vontade por outros meios. Não é um "espaço" público porque a TV transcorre no tempo. O espaço que o JB me oferece, esse sim, uso-o para expressar as minhas reflexões e os meus juízos. Mas na TV – pública ou privada – é preciso desenvolver o conceito de "mediação" em contraposição ao de "ancoragem", tão em voga, sobretudo no Brasil.

Se o programa tem um mérito é o de "deixar falar" e "fazer pensar" – permitir que o convidado diga o que pensa, além dos 30 segundos convencionais da TV comercial. O programa não é meu, não "aprovo" previamente o que ali se diz, não corto a palavra de convidados. É contra os meus princípios morais, profissionais e de respeito humano. Sou antes de tudo civilizado. Tento amarrar o material expresso por diferentes cabeças dentro da única ótica que nos reúne ali – discutir o desempenho da mídia. De vez em quando não se consegue fugir ao mérito da questão, e a discussão sobre a mídia fica por alguns momentos num nível paralelo. Para ser retomada logo em seguida com naturalidade.

Graças a isso o programa aí está, funcionando há quase 4 anos e assistido por pessoas de gabarito como o missivista. Não se pode discutir os ataques terroristas sem discutir o terrorismo em si. Sobretudo porque o terrorismo precisa de divulgação, é um meio de comunicação.

O professor Muniz Sodré é um jornalista experimentado e um estudioso da comunicação. Um dos mais competentes e sérios, como se pode avaliar pelos artigos que escreve nas edições do Observatório online e suas participações no programa. Homem de esquerda, não deixou que a irreflexão ideológica dominasse uma reflexão moral. O jornalista Wilson Figueiredo foi quem, muito oportunamente, lembrou a questão do anarquismo e de como foi combatido dentro da própria esquerda até desaparecer. E o fez com o respaldo de sua vasta cultura política e uma experiência jornalística de mais de meio século.

Todos estavam ali para fazer pensar, ninguém estava ali para passar palavras de ordem ou simplesmente entregar-se ao patrulhamento ideológico. Por trás deste horrível neologismo designado como "pensata", o que se vê hoje é a "gritata". Nesta não embarco. Sobretudo quando estou num "tempo" que não me pertence: sou apenas o encarregado de administrá-lo. [A. D.]

P.S. Sem muita sutileza, o jornalista Fon pretendeu colocar-me ao lado de Berlusconi. Ele próprio é que se aproximou do neofascismo ao cobrar uma manifestação sobre um pronunciamento que ocorreu dois dias depois do programa.

 

Muniz Sodré responde

Em princípio, achei estranha a afirmação do missivista, ao me atribuir a identificação absoluta entre terrorismo e anarquismo. Não fui eu quem trouxe à baila a questão do anarquismo. Não acho, jamais achei, que sejam necessariamente a mesma coisa, nem comungo das posições persecutórias, retaliatórias e sobretudo bombásticas que se seguiram aos atentados em Nova York. Parece-me ter sido eu o único, aliás, a registrar o ridículo das bravatas do governo brasileiro, sintetizadas na proclamação do ministro das Relações Exteriores: "Vamos à guerra!" O que eu disse, sim, é que a tática do atentado está historicamente inscrita na estratégia pública de determinados grupos anarquistas.

De fato, a semântica do terror (isto é, o ataque inesperado e indiscriminado a frações da população civil ou a governantes isolados), afora o exemplo clássico do Terror revolucionário francês, está genealogicamente próxima do atentado anarquista contra o czar Alexandre II, em meados do século 19. No programa do Observatório, ative-me ao exemplo literário de "O agente secreto", de Conrad. Mas decididamente não identifico terrorismo e anarquismo (muitas das posições anarquistas sempre me pareceram saudáveis), tanto que jamais chamaria de anarquistas os militantes de um grupo como o extinto Baader Meinhof, da Alemanha. E é só. [M. S.]

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Mais protestos anarquistas nas mensagens de telespectadores da rubrica Observatório na TV, nesta edição.



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