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DESAFIO AOS LINGÜISTAS
Bobajais e bobajórios

Tenho comentários diversos a fazer sobe o texto de Caia Fitti:

a) Quase assinaria a primeira parte do artigo de Caia Fitti, tanto o trecho anedótico quanto o desabafo sobre as dificuldades que há para os brasileiros aprenderem mais na escola. Digo "quase" porque não ficou claro se ela acha que seria importante, por exemplo, saber classificar "mesmo" nas diversas categorias, ou se o importante mesmo (!) seria saber empregar adequadamente a palavra.

b) Sobre o que os lingüistas fazem ou não fazem, já não concordo tanto. Primeiro porque não acho que produzam tanto ou só bobajal (gostei do neologismo, embora eu prefira "bobajório"). Acho que eles fazem bastantes trabalhos muito bons. Às vezes, até intelectuais pedem-lhes que eles "traduzam" suas pesquisas, ao invés de estudá-las... (imagine-se pedir isso aos físicos!!!).

c) Sobre os lingüistas só poderem receberem seus títulos se descreverem, explicarem e resolverem os problemas de descrição insuficiente do português e os problemas de analfabetismo funcional: acho uma boa provocação, um grande desafio. Mas a função dos lingüistas é mais propor saídas do que ensinar a escrever – embora isso não se exclua (assim como a dos agrônomos da Embrapa, por exemplo, é descobrir sementes, variedades, mudas, condições de produtividade maior, e não plantar).

d) Aliás, no campo das descrições do português e no das soluções propostas pelos lingüistas e educadores para acabar com o analfabetismo, eu diria que o país está bem. Melhor no segundo item que no primeiro, é verdade (mas não estamos menos bem que os botânicos em relação à flora...). Falta talvez uma lei que mande aplicar o que se sabe – mais grana e vontade política. Seria talvez a melhor maneira de combater os estrangeirismos...

e) Lendo esse texto de Caia, pensei ter descoberto de onde veio a idéia de multar por uso de estrangeirismos no projeto de Aldo Rebelo, que ela assessora. Agora, ela propõe não pagar o salário dos lingüistas que não acabarem com o analfabetismo...

f) Finalmente, duas observações sobre bobajais: 1) acho que ela podia ter mostrado pelo menos uma; 2) raras vezes se pôde ler tantos em poucas páginas quanto na justificativa do projeto de Aldo Rebelo e no parecer que a Câmara votou...

Sírio Possenti

Baterias com alvo errado

1. O analfabetismo funcional se tornou evidente com o famoso teste Pisa 2000 (V. Inep) e abrange cerca de 98,6% dos jovens brasileiros de 15 anos – segundo cálculo de professor da PUC-Rio – "O pesquisador Creso Franco, da PUC-Rio, separou os 7% mais ricos entre os estudantes do Brasil e México, e os 25% dos países ricos onde a elite é mais ampla (EUA, França etc.), e constatou que os alunos da elite brasileira têm desempenho inferior ao dos demais países. Ficamos novamente em último lugar. Dentre os 7%, a bem da verdade, 20% conseguiram se equiparar com os alunos de países desenvolvidos, o que indica que sabem ler e interpretar textos e gráficos complexos."

2. No entanto, ler – depois do primeiro ano primário, em que o aluno aprende como funciona a escrita – não é uma atividade associada a nenhuma língua em particular. Quem aprende a ler em inglês e se muda para o Brasil, por ex., transfere as habilidades adquiridas durante a alfabetização para a nova língua e assim por diante.

Depois da alfabetização, stricto sensu, ler e entender (ou seja, deixar de ser analfabeto funcional) depende de atividades didáticas e não-didáticas, principalmente de treinamento em vários tipos de leitura, com todo tipo de vocabulário. Essa tarefa de treinar e desenvolver as habilidades de leitor dos alunos é tarefa dos professores de Português que, é bom que se diga, não têm e muito menos desejam uma boa formação lingüística. Preferem usar o paradigma greco-latino de língua, e seguir gramáticas prescritivas do tipo Cunha e Cintra ou Bechara, que de lingüistas não têm nada. Além disso, os currículos, inclusive os de línguas, são feitos por pedagogos ou educadores, que também não sabem, nem querem saber lingüística.

3. A lingüística e a lingüística aplicada, inclusive a brasileira, têm produzido inúmeros estudos sobre escrita e leitura. Será que algum desses estudos interessa a professores de Português das universidades, ou a educadores? Não parece, pois continuam batendo na mesma tecla de "ensinar gramática" – leia-se nomenclatura – e a não se preocuparem com fazer os alunos aprenderem o prazer de ler.

4. Quanto à lingüística, fique tranqüila, estamos estudando as línguas em perigo de extinção, que são mais de 200 no Brasil, e também as estáveis, como o português, que não correm qualquer risco de extinção, ao contrário do que teme seu autor pessimista. No entanto, minha senhora, suas baterias se voltaram para as pessoas erradas, lingüistas não ensinam Português, ensinam Lingüística.

Lucia Quental, PhD em Lingüística UFRJ

Caia Fittipaldi responde

Amigos do Observatório, o problema do professor Sirio Possenti não é o analfabetismo funcional. Ele pergunta é se eu acho melhor ensinar aos alunos a decorar a categoria gramatical da palavra "mesmo" ou se eu acho melhor ensinar aos alunos a "expressar-se".

Por mim, quanto a isso, sinceramente, tanto faz, porque eu já sei que, se o aluno for "analfabeto funcional" e o aprendizado depender de leitura (qualquer leitura) será perda de tempo tentar ensinar-lhe seja lá o que for, seja a categoria gramatical das palavras seja o Teorema da Incompletude, de Goëdel, em alemão ou traduzido.

Eu e o grupo de brasileiros não-academizados – cidadãos brasileiros pobres e absolutamente normais – com os quais estudo e trabalho e penso no Brasil, autobatizados Lingüistas Brasileiros para a Democracia, ficamos obcecados com o negócio do analfabetismo funcional, quando descobrimos (há eeeeeeras) que a enorme maioria dos brasileiros jovens, considerados oficialmente alfabetizados para efeito estatístico, não são capazes de entender o que lêem.

E que ninguém pense que eles só não entendem "textos e equações complexas", como aferem alguns testes que andam na moda por aí: ele não entendem sequer manchetes de jornal e manuais de instruções simples, de tarefas bem pouco complexas (a internet oferece centenas de páginas sobre esse assunto e a nossa experiência doméstica oferece o resto, de casos locais de analfabetismo funcional e de leitores disfuncionais).

Facilmente concluímos, como brasileiros bons leitores (estudados na universidade brasileira de antes de 1964 e de imediatamente após, porque, depois, a universidade brasileira sumiu), que aí está um problema nacional dos mais desesperadamente graves.

Foi juntar dois e dois e ver que, se já se formaram tantas levas de jovens brasileiros, desde 1964, que são tristemente incompetentes para aprender pela leitura, isso não poderia ter acontecido sem a ativa militância do Estado brasileiro pós-64 e de seu braço mais obrigatoriamente educador e formador – a universidade brasileira pós-64.

Pouca diferença faz, nessa conta, se o professor Sirio Possenti crê (por fé) que "está ótimo" o que ele ensina, ou se alguma PhD seja de onde for pense que a culpa não é de ninguém que ela conheça do prédio público onde ela trabalha. E que eu, se estiver achando ruim, que vá me queixar ao bispo da Língua Portuguesa, ou ao bispo da Pedagogia ou até, se eu quiser, ao Bispo-Ministro da Educação.

O caso é que nenhum dos dois mestres "oficiais" fez o mais simples, e que eu pedi como cidadã brasileira que colabora para custear-lhes os salários e as pesquisas e, portanto, tem suficiente direito de querer "ver serviço".

Pra piorar o quadro nacional – mas, infelizmente, pra comprovar exatamente o que eu escrevi – o professor mestrado em sociolingüista espinafra o Projeto Aldo Rebelo e a super-PhD-aí me manda dados que eu encontrei na internet, com o laptop que eu comprei com o meu dinheiro...

O sociolingüista já deveria ser capaz de avaliar corretamente o Projeto Aldo Rebelo (em vez de espinafrá-lo e dar o caso por resolvido) e, no caso de achar que ele seja uma total porcaria, deveria oferecer-se para consertá-lo.

A PhD-aí tem obrigação de produzir dados melhores ou avaliações mais conseqüentes do que as que qualquer dona-de-casa brasileira faz, sozinha, entre o jantar dos filhos e o cafezinho do marido, ou com um grupo de amigos, tomando cerveja e lendo jornais "em roda". Quer dizer: tá mesmo brabíssimo! (O que eu e os Lingüistas Brasileiros para a Democracia estamos carecas de saber).

O Projeto Aldo Rebelo está (ainda) longe de ser perfeito, mas temos de defendê-lo até o último enter dos nossos laptops e PCs porque ele é a melhor idéia que a sociedade brasileira produziu, em 500 anos de história colonial, para tentar começar a discutir a importantíssima questão das políticas para idiomas locais, em planeta globalizado pelas finanças internacionais. Os brasileiros pobres, como sempre, tentando arrancar-se, sozinhos, do atoleiro!

Juntem, portanto, os dois mestres chapa-branca que responderam ao meu desafio, 1 + 2: a falta de qualquer política nacional para os idiomas no Brasil + o analfabetismo funcional (que até os PhDs "de lingüística" já sabem que existe) e respondam, agora, às quatro perguntinhas abaixo, que aí vão, como presente democrático.

Só essas quatro perguntinhas são – só elas! – o roteiro para um magnífico programa de pesquisa democrática do qual podem sair uns 500 doutoramentos importantes para o Brasil. Para começar a trabalhar, portanto, é só a universidade brasileira inteirinha tratar de respondê-las.

Quando os projetos começarem a chover por aqui, o Brasil discute as idéias que aparecerem; se prestarem, a gente escreve uma lei (o Aldo Rebelo ajuda, que ele tem gente pra fazer isso e anda louco, o coitado, atrás de idéia que preste, pra dar jeito no Brasil); aí o Congresso discute e vota – que um Congresso democraticamente eleito é representante de todos os brasileiros; se a lei for aprovada, o Estado faz aplicar a lei; aí a sociedade fiscaliza.

Como qualquer um vê, se a universidade fizer a sua parte, que é produzir saberes de boa qualidade e democráticos e democratizantes... tudo funciona melhor. (Isso, também, qualquer brasileiro analfabeto já sabe ou então, quem ainda não souber, rapidamente poderá aprender sob governo democrático. Menos, claro, os analfabetos funcionais, para os quais tudo sempre será ou difícil ou impossível.)

Lá vão, pois as perguntinhas que, como vocês verão, é uma perguntona e alguns dos principais complicadores:

1) Como é que se governa para construir um país democrático, sem discurso nacional (ou local), na área globalizada do mundo global?

2) E pra piorar... com uma imprensa que não construiu ainda nem o primeiro parágrafo de um discurso democratizante?

3) E, pra piorar o resto... sem língua local socialmente prestigiada (o único instrumento capaz de construir falantes-leitores capazes de criticar o local e o global)?

4) E... PQP! ... com leitores disfuncionais?!

Desnecessário repetir que pouco me interessam os títulos acadêmicos. Dou por pressuposto que, se título acadêmico salvasse país arrasado, o Brasil não estaria, ao final do segundo mandato, ainda mais arrasado do que já estava, ao final do primeiro mandato do mais superdoutor que o planeta jamais viu... e sociólogo da USP.

Agora, pessoais, se virem! Abraços. (C.F.)

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