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Tom de superioridade
Recebi o texto "Para ler, chorar e pensar" de amigos jornalistas e não consegui deixar de detectar um certo sentimento de superioridade na forma como a autora lida com a questão. É claro que é deprimente e cômico ao mesmo tempo ver o nível dos alunos, mas o dos professores também o é – tem cada trabalho escolar listado ali que merecia uma matéria à parte. À parte isso, senti um tom de "estamos aqui discutindo assuntos sérios e as pessoas nos procuram por esse tipo de bobagem".
Como está fora do alcance do OI melhorar diretamente o nível dos alunos e professores de Jornalismo em geral, talvez uma forma mais simples de impedir essa enxurrada de pedidos sem noção seria colocar um aviso sobre os tipos de informação e serviços que vocês oferecem aos leitores – a não ser que vocês queiram receber esses e-mails para poder fazer mais relatos condescendentes como esse.
Alexandra Ozorio de Almeida, São Paulo
Marinilda Carvalho responde
Cara Alexandra, desculpe a falha na comunicação. O tom que pretendi passar foi o de inferioridade – diante do trabalho extra que esses e-mails representam (todos recebem resposta). E não adianta pôr "um aviso" no sítio: essas pessoas não freqüentam o Observatório – ou saberiam que o "serviço" que prestamos é a edição semanal do OI. A prova disso é que os pedidos continuam chegando: "Sou aluno do 4º período de Jornalismo, e estou envolvido em um trabalho sobre os erros da imprensa. Gostaria que, se possível, vocês me fornecessem algumas dicas de livros, casos e leituras sobre o assunto"; "Gostaria de saber quantas estrelas tem na bandeira do Brasil e o nome da superior"; "Peço por gentileza o endereço da penitenciária feminina em que a Suzane Richthofen está hospedada, quero mandar uma carta de auxílio para ela, gostaria muito que vocês me mandassem esse endereço via e-mail..."; "É possível o ser humano expelir ovos/proglotes de Taenia saginata e Taenia solium pela boca? Como são estes ovos/proglotes (forma)?" (M.C.)
Provações de Jó
Bem, li um por um dos pedidos. Lá pela metade deu aquela vontade danada de mudar de tela, mas resisti obstinadamente. Antes de mais nada, pergunto: como é que vocês conseguem? Definitivamente, se houvesse e-mail nos tempos do Antigo Testamento, o todo-poderoso incluiria metade destas mensagens na lista de provações de Jó.
Graciliano Rocha
Pasmo geral
Adorei o texto a respeito das bobagens enviadas por estudantes de Jornalismo, em sua maioria, e, pasmo geral, creio, até por "responsáveis por um curso de Jornalismo" – "Doação de... telas?". Enfim, meus sinceros cumprimentos pelos vitoriosos 200 números do Observatório da Imprensa.
José Maria Leitão
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Para rir, chorar e pensar – Marinilda Carvalho
FALTA DE LEITURA
Ler, pensar e escrever
O professor Gabriel Perissé é autor do livro Ler, pensar e escrever, título este que tenho utilizado como mote para discutir essa questão, sempre, é claro, reconhecendo-lhe a autoria. Não sou especialista na área, apenas leitor contumaz, e digo repetidamente que as escolas, através de cada um de seus professores nas suas diferentes disciplinas, antes de mais nada, deveriam ter como preocupação central fazer com que o aluno aprenda a "ler, pensar e escrever".
Todo o processo deveria girar em torno desse lema. Cada disciplina deveria ser abordada sob essa ótica. Ou seja, através do exercício de leitura, reflexão e escrita, exercício de construção da autonomia cidadã, o aluno, antes de mais nada se instrumentaliza para apreender as especificidades de cada disciplina.
E digo mais. Não se preocupem os mestres em esgotar programas. Esgotar programas burocraticamente, sem que o aluno aprenda a "ler, pensar e escrever" de nada adianta. E nem deveria ser esse o escopo. Porque quem sabe "ler, pensar e escrever" tem condição de buscar aquilo de que precisa, a informação de que necessita e utilizá-la com proficiência. E, naturalmente, como ficou implícito na argumentação, ao exercitar o "ler, pensar e escrever" na aula de Geografia, por exemplo, o aluno estará lidando com o conteúdo da disciplina e absorvendo-o ativamente. Não passivamente, quando, de fato, nada absorve.
Assim, a leitura sobre os tópicos da matéria, o seminário sobre o tópico em pauta, a leitura em voz alta em grupos, o desenvolvimento de textos à respeito, o debate sobre os textos desenvolvidos, sem preocupação com esgotamento de programas, culminará com a formação de um leitor capaz de interpretar criticamente um texto, de expressar-se oralmente diante de seus pares, de escrever aprendendo a lidar com os aspectos constitutivos do texto escrito, sem prejuízo da assimilação de conteúdo, que, volto a repetir, desenvolve-se concomitantemente. Para evitar a inútil "decoreba" o processo de avaliação está implícito: o desenvolvimento dos alunos na competência de ler, pensar e escrever sobre a matéria em questão. Avaliação contínua sobre temas "frescos". Nada de "decoreba".
O que eu efetivamente trouxe das escolas por onde passei foi essa capacidade ou competência. A de ler, pensar e escrever criticamente, a partir da leitura, reflexão e escrita . Sem essa competência muito pouca coisa teria restado. Quase nada. Ou nada.
Luiz Paulo Santana, Belo Horizonte
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