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MÍDIA & GUERRA
Movimento vira "grupo"
Por aqui, nossa Folha de S.Paulo noticia, dentro do mesmo espírito que embala a mídia americana (estará ela recebendo o "ouro de Washington"?): "Grupo organiza manifestação em NY contra guerra no Iraque". Assim, numa tacada só, e mandando todos os seus maravilhosos "manuais de redação" pro lixo: a) o crescente movimento pacifista americano fica reduzido a um "grupo". Ainda que não fosse crescente, diga-se de passagem, a única posição digna de um jornal nacional seria dar força à paz e a seus defensores... b) A guerra contra o Iraque, ou as intenções belicistas do governo do Sr. Bush, vira "guerra no Iraque". Suaves imprecisões...
Eduardo Guagliardi
Cobertura made in USA
A Globo pensa que somos idiotas ou quer nos idiotizar? Esta é uma questão que, do alto dos meus 40 anos, ainda não consegui responder... Domingo, foi fantástico. Depois de vermos Lobão fazendo macaquices permitidas, foi a vez da "cobertura" do discurso de Lula em Davos. Durante a tarde já havia me dado ao trabalho de escutá-lo, integralmente, pela internet. Talvez os jornalistas da Globo não tenham feito o mesmo, pois conseguiram suprimir talvez o trecho mais eloqüente do burocrático discurso de nosso presidente, onde deixa claro o posicionamento do Brasil contrário à guerra. Será que a posição oficial de um país como o nosso não é digna de nota, nesta questão? Ou será que pela boca de um FHC este posicionamento teria merecido destaque? Acaso a guerra não nos diz respeito? E o que dizer também de terem suprimido, na revista dominical, o trecho em que Lula usa a expressão "montanha mágica de Davos", uma feliz imagem num discurso quase monótono?
No dia seguinte, o Jornal Nacional resgatou o segundo trecho mas, ainda (e sempre) leal à cega campanha da mídia made in USA, nenhum destaque para a paz. Portanto, ficamos assim: quem ouviu todo o discurso, ficou informado. Quem assistiu à Globo...
Eduardo Guagliardi
Lá, uma nova face
A sociedade americana sempre foi permissiva a conflitos, guerras e outros ataques terroristas de Estado. Indicativo lógico de sua condição de exportador de artefatos bélicos. E a mídia do país sempre teve papel fundamental na difusão desse nacionalismo comodista, que proporciona a cada americano assistir em sua casa um reality show sangrento, onde seus filhos morrem em campos de batalha, em meio a desmandos de quem comemora, sentado confortavelmente em sua cadeira giratória, com vista para o jardim da Casa Branca.
Sem esboçar nenhuma reação e com os olhos vidrados na TV, estes indivíduos eram (e são) transportados a um mundo de fantasia, repleto de heroísmo e orgulho de ser americano. Porém, tudo indica que a guerra contra os talibãs e tantas outras, provocadas pelos EUA, e a abertura da televisão (retirada das mãos dos militares) ao capital privado, provocaram uma mudança de postura e mentalidade da imprensa americana.
Hoje, nota-se que a necessidade de manter a imagem de um mundo fantasioso não se faz tão evidente. A população, ora tão crente na necessidade de conflito, começa a ver nas palavras do líder do país um rancor sem provas, que cheira a vingança pessoal familiar. Os protestos noticiados nos EUA são a prova de que o jornalismo, na terra dos ianques, está ganhando cara mais verídica, mesmo que discreta e perdida nas entrelinhas de velhas mentiras.
Maitê Mendonça
Trio com Bush e Blair
Não acredito que o OI ainda não tenha feito nenhuma análise a respeito do tratamento da revista Veja à guerra ao Iraque. A revista é tão tendenciosa que parece fazer um trio com Bush e Blair, andando de mãos dadas rumo à guerra. A reportagem mais hilária foi nesta semana, quando Veja disse não entender como o vilão, que deveria ser Saddam, na verdade é Bush. Na seção de cartas não é publicada uma carta sequer dos leitores sobre a guerra (duvido que mais ninguém além de mim tenha percebido a postura parcial da revista). É manipulação pura e simples.
Alexandre Soares Cavassin, Curitiba
Na TV, tédio high tech
Existe uma distância entre os significados literários do termo "guerra" e as abordagens estabelecidas pela televisão. Os canais de informação mantêm uma expectativa 24 horas em torno da invasão do Iraque. Segundo Eric Leser, do jornal francês Le Monde, "em muitos casos a dramatização é exagerada e desnecessária (...) Vale tudo para manter a atenção do telespectador, e impedi-lo de mudar de canal ou de fazer outra coisa".
Ocorre nos Estados Unidos uma guerra pela audiência entre CNN, Fox News e MSNBC na TV a cabo; nos canais abertos a disputa se dá entre as redes ABC, NBC e CBS. Uma vez formatadas "made in USA", as noticias são vendidas e reproduzidas no Brasil, onde o caráter de espetáculo é repassado sem questionamento.
No significado literário existem várias guerras em curso envolvendo a situação entre Estados Unidos e Iraque. Para qualificá-las, basta ver o verbete "guerra", no Aurelião:
"Guerra civil ou guerra intestina: a que se faz entre partidos ou grupos de um mesmo povo"
Saddam Hussein lidera a minoria sunita, sofre oposição de grupos xiitas radicais e dos curdos, povo que habita as áreas fronteiriças entre Iraque, Turquia e Irã.
"Guerra de nervos: Ato, atitude, notícia etc., com que se busca sobressaltar o adversário para com maior facilidade o dobrar e vencer"
Nas zonas de exclusão no sul (áreas que não podem ser sobrevoadas por caças e bombardeiros iraquianos, por determinação da ONU), as forças anglo-americanas lançaram em 31/1/2003 360 mil folhetos que convidam os iraquianos a ouvir transmissões da rádio das forças especiais dos EUA.
"Guerra econômica: Guerra em que se empregam ações econômicas para pressionar outrem""
O embargo econômico a partir de resolução da ONU, após a Guerra do Golfo, conduziu o Iraque à miséria. Crianças, mulheres e anciãos passam fome e a mortalidade infantil dobrou em 10 anos. O programa Petróleo por Alimentos, aplicado pela ONU desde 1996, é apenas um paliativo, pois só permite uma limitada exportação de petróleo a fim de subvencionar importações de alimentos e remédios.
"Guerra fria": Estado de tensão entre prováveis beligerantes, que buscam prejudicar-se mutuamente por meio de quaisquer atos que não impliquem diretamente em declaração de guerra"
Aviões de guerra americanos e britânicos voltaram a atacar em 31/1/2003, pela primeira vez em dois meses, a zona de exclusão aérea no norte do Iraque.
"Guerra santa – 1. A que se fazia contra os infiéis, a pretexto de conquistar lugares santos. 2. Por extensão, guerra por motivo ou pretexto religioso"
Para Saddam, os EUA configuram a presença do "Grande Satã" no golfo Pérsico.
"Guerra psicológica: Guerra que é levada a efeito mediante ações de natureza psicológica (propaganda, intimidação etc.)"
O vice-presidente iraquiano Taha Yassin Ramadan disse em 1/2/2003 que serão realizados atentados suicidas fora do Iraque se os Estados Unidos atacarem o país. "Os mártires, autores dos atentados suicidas, são nossas novas armas e não vão agir apenas no Iraque. Os povos árabes vão ajudar o povo iraquiano na luta por sua independência e liberdade. Será um incêndio em toda região."
Diante disso, constata-se a distância entre o significado literário e o estabelecido pela televisão. No primeiro caso, a guerra já existe; no segundo, desencadeia-se uma batalha pela audiência, cujo desenrolar cinematográfico agendado é tão previsível quanto o crescendo de uma trilha sonora que culmina num acorde tenebroso. Embora tecnicamente avançadas, as TVs a cabo, via satélite e seus respectivos sítios na internet paradoxalmente estabelecem heróis e vilões dentro da velha fórmula do seriado. Para quem conhece o fim da história, a grande novidade é um tédio high tech.
João Evangelista Bonturi Neto, São Bernardo do Campo, SP
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