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SEDE ZERO
Prioridade é a água

Tratando-se da região da secas, um "Sede Zero" deveria preceder o Fome Zero. Concluí isto de minha experiência como pesquisador, e ao ler na FSP a matéria "Cidade-piloto não vê fome como prioridade", A8, Brasil, de 1º/2/2003. Segundo a matéria, a necessidade de água é um problema maior numa cidade, onde segundo um dos moradores, "ninguém morre de fome". Na mesma página diz um morador que "(...) É mentira que a gente morre de fome aqui. A gente não tem é verdura, mas comida no prato tem todo dia."

Fica clara a necessidade de água, já que água significa verdura, que poderia ser plantada com assistência técnica do Estado, levando em consideração a necessidade de complementação nutricional. Água é leite. O leite poderia vir da cabra, animal que se adapta bem àquela região, daí poderiam fazer queijos e, creio, até iogurte, criando um fome zero que estimula também o trabalho e a auto-estima da população local.

Numa época em que trabalhei no Instituto de Pesquisas do Estado de São Paulo (IPT) participei de um estudo interno envolvendo um possível projeto envolvendo a tecnologia de osmose inversa, para dessalinização e produção de água potável.

Um mapa das águas subterrâneas, que seria o insumo dos processos de dessalinização, no Rio Grande do Norte, mostrava significativos depósitos de água, contendo desde praticamente nenhum cloreto de sódio, até água com salinidades próximas à água do mar. Ou seja, o projeto era socialmente efetivo e financeiramente sustentável , contribuindo primeiro para um Sede Zero, um Fome Zero, e para significativa redução de males advindo do consumo de água contaminada.

Outras técnicas bem mais simples podem minorar o problema, como a coleta criteriosa das águas da chuva, por exemplo de uma telhado de um coreto, em regiões onde as chuvas são escassas, mas intensas e de curta duração.

Antes de mais nada é preciso ouvir o povo que se quer ajudar. Poderão se surpreender ao aprender que o sertanejo, sendo antes de tudo um forte, não quer esmola. Quer antes de tudo água e dignidade.

Edison Bittencourt, professor titular da Unicamp



FM EDUCATIVA MS
Com o PT, rumo ao burlesco

Há alguns anos quando ainda era um partido aspirante ao poder, com um histórico ponteado por muitas lutas pela democratização do país, o PT enchia os olhos de esperança e vigor para um engajamento nessa empreitada pela cidadania. A incorporação de diversos ícones da cultura e da educação do país aos seus quadros de militantes e simpatizantes, e a reciprocidade promovida pela sigla às reivindicações dessas duas classes tão marginalizadas no Brasil davam a proporção do compromisso do partido com a valorização da educação e a preocupação com a cultura nacional, sem, no entanto, beirar a xenofobia em relação às outras manifestações genuínas da cultura advinda do resto do mundo. Ou seja, o PT, através de seus núcleos de estudos, grupos de trabalho e discussões programáticas com pessoas realmente possuidoras de suporte intelectual para tanto, surgiu na história do país como um alento muito bem-vindo.

Essa linha de raciocínio se estendeu por lógica ao seu entendimento a respeito das comunicações. Foi uma agremiação partidária envolvida nas batalhas travadas pela democratização das mídias, combatente fervoroso da entrada de capital estrangeiro nas empresas nacionais e ativo porta-voz da indignação contra o pernicioso sistema fonográfico brasileiro. Basta um regresso no tempo para se chegar ao atual ministro da Cultura, empunhando a bandeira da moralização das gravadoras, Ecad e emissoras de rádio, várias, muitas delas sobreviventes à base de subvenções informais para se veicular a "produção musical" das majors. Ou seja, o jabá, o bom e velho caititu, coisas que fazem parte de um grande esquema.

Eis que o PT chega ao governo do país, mas antes, há quatro anos, conquistava o poder no Mato Grosso do Sul. Havia duas emissoras educativas, uma TV e uma de rádio. De repente, a visão mudou. Recentemente, a rádio FM Educativa de Campo Grande foi incorporada a um sistema de transmissão via satélite, o Popsat, cujo dono é uma figura mandatária do PT estadual. Trata-se do exemplo do mau uso de uma tecnologia tão fundamental. Sob os pretextos furados de arrecadar dinheiro, "popularizar" a programação e "conquistar novos ouvintes", a única alternativa viável de escutar uma rádio de qualidade, com entretenimento musical aceitável sem ser elitizado, mas coerente com as novas aparições de talentos da arte musical que são esquecidos pelos grandes selos, com um jornalismo dinâmico, plural, perseguidor da isenção, privilegiando a informação em primeira mão e tendo como foco o ouvinte, com um espaço para a prestação de serviços e aberta às ponderações da audiência cativa que conquistou há oito anos, foi descaradamente agregada a um esquemão burlesco que mescla mau gosto, jornalismo sem ética e respeito, com claras bases sensacionalistas (com direito a palavrões, ofensas e acusações sem ouvir o outro lado) e tudo o que está se tentando repudiar nas rádios.

Pela primeira vez, o interior do estado de MS vai prestigiar o trabalho da emissora. No entanto, a velha 104 chega às cidades menores completamente desfigurada de seu propósito educativo-cultural, o que, aliás, é previsto em lei: os artigos 1º, 2º, 3º, 6º e 8º da portaria interministerial nº651, de 15 de abril de 1999. O governador Zeca do PT decretou no dia 13 de janeiro de 2003 a morte de um dos maiores focos de resistência da cultura brasileira, das culturas mundiais, da exaltação aos valores sul-mato-grossenses, que era a rádio FM Educativa, a primeira emissora com esse caráter a entrar em atividade no estado, um marco da comunicação social de MS. Boa parte da população está órfã dessa saudável maneira de se pensar e ouvir o rádio, e está sendo obrigada a conviver com Kelly Key e MC Serginho ao em vez de Chico Buarque, Djavan, Cássia Eller e Lenine. Está sendo obrigada a conviver com discussões sobre o Big Brother, sobre corneação (isso mesmo!) e com piadinhas de sacanagem de péssima procedência em vez dos grandes temas nacionais e regionais.

Essa é a nova cara da FM Educativa. Assim é o texto da chamada que está indo ao ar de 20 em 20 minutos. Fica registrada uma sugestão: que tal mudar o nome da emissora? Seria um pequeno facho de coerência dos novos diretores, pois no país em que Gilberto Gil é ministro da Cultura, uma emissora educativa num governo do PT ser entregue ao velho sistema comercial da forma em que foi vendida ou doada, a educação parece distante da sua pauta de prioridades. Tão distante quanto a própria essência do partido que tanto defendia a difusão das verdadeiras culturas. Que o espírito nobre de Edgar Roquette-Pinto ainda se faça presente nas cabeças atribuladas dos governantes. Nossa cultura agradeceria.

Adriano Cardozo, comerciante em Campo Grande, MS

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