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Edição de Marinilda Carvalho
Leitor do Observatório é assim: chegou o Carnaval? Não tem importância, façamos uma bela mistura de folia, esquindô e crítica da mídia, porque junto com o bloco saem às ruas os jornais, as revistas, as notícias da TV.
São quase 70 mensagens que tratam do papel da imprensa na cobertura das cotas para negros, dos preparativos para a guerra, do escândalo nos grampos na Bahia, da mídia esportiva.
Sobre o Carnaval propriamente dito, nenhuma carta. É, acho que nosso leitor não gosta mesmo de brincar.
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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.
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COTAS PARA NEGROS
Fora dos espaços nobres
Muito oportuno o texto e o debate proposto por Victor Gentilli. A nossa imprensa, de um modo geral, disfarça que problematiza polêmicas, mas, na verdade, hegemoniza opiniões. Não aprofunda debates e quando muito, dá voz ao outro lado por meio de entrevistas rápidas, editadas com tesoura de picotar, que torna seu discurso até incoerente, mas, com isso, alivia sua consciência manipuladora.
O caso das cotas é clássico. Há mais debates em torno disso, Mas ela parte do princípio de que encontrou um furo em um absurdo, um erro e escandaliza toda divulgação em torno. Não vi ainda (posso ter perdido a matéria) nenhum repórter entrevistar um reitor ou mesmo o ministro da Educação indagando se não seria sensato, já que a dívida social existe, discutir o pano-de-fundo disso, ou seja, se a exclusão se dá pelo preconceito com a herança étnica ou pela pobreza em si (e a população negra seria duplamente excluída)? Não. Os noticiários se resumem a escrachar, amparados pelo critério da universalidade do ensino.
Muito menos perguntam, novamente partindo do pressuposto de que há algo a ser corrigido, como a escola pretende abordar a temática das exclusões para, daí sim, semearmos a superação do que é constatado como causa delas.
Infelizmente, parece que a teoria da relatividade e o respeito à pluralidade de pensamento estão distantes demais dos espaços nobres de audiência, e talvez seja por isso que tenhamos de brigar contra o pensamento único e a superficialidade dos temas abordados em mídia.
Thea Tavares, jornalista
Ninguém abre mão
Realmente, a imprensa já tomou uma posição contra as cotas, sem discutir, sem aprofundar. Gostamos tanto de imitar os Estados Unidos em tudo o que não presta, mas ninguém se lembrou de que lá há cotas. O Sr. Victor Gentilli acertou quando pôs o dedo na ferida: nós não nos importamos, de fato, com a exclusão e a injustiça secular de nossa sociedade. Até aceitamos discursos bonitos, mas diante de qualquer tentativa real de mudança preferimos não abrir mão da situação estabelecida. Vamos pensar que o sistema de cotas pode não ser tão ruim. Vamos tentar criar uma sociedade mais justa!
Terezinha Maria Scher Pereira
Igualar para dividir
Uma vez entrevistei Roberto DaMatta para uma matéria sobre discriminação racial no Brasil, e ele afirmou que, enquanto no Estados Unidos "se divide para igualar", no Brasil "se iguala para dividir". Ele queria dizer que a política de cotas e a discriminação "positiva" (em que o negro se assume como negro para conseguir ter seus direitos respeitados ou para adquirir vantagens compensatórias) gerava a diminuição da desigualdade social. Por outro lado, a idéia do "somos um povo muito miscigenado" e "não temos preconceito racial" contribuiria para diluir a distribuição dos benefícios sociais e, em um movimento centrífugo típico do Brasil, concentraria ainda mais essas regalias nas mãos de quem sempre as teve: os brancos (ou mais ou menos brancos), descendentes de europeus.
Acho a observação de DaMatta genial, e sobre a política de cotas acho que, no mínimo, a imprensa deveria se preocupar mais em expor os dois lados da questão e dar mais profundidade ao debate. Por exemplo: o Provão tem mostrado que a universidade também não é suficiente para contribuir ao aprimoramento das capacidades intelectuais. Os últimos resultados demonstram que aqueles estudantes que freqüentaram escolas particulares e tiveram uma boa formação básica obtêm sempre as melhores notas na avaliação. Ou seja: as faculdades que têm conseguido melhores resultados são também aquelas que conseguem captar melhores alunos (que, na maioria, têm melhores condições sociais).
Portanto, será que não corremos o risco de ver apenas uma "transferência" de preconceito? Ou seja: com a entrada de uma maioria por cotas, os resultados do Provão baixarão (porque hoje as instituições em que a maioria dos alunos vêm de escolas públicas têm baixíssimas notas) e, sendo assim, podem até correr o risco de fechar. Nesse sentido, acho a política de cotas, a médio prazo, falha. Mas, infelizmente, a imprensa não tem dado chance para sequer debatermos as questões que envolvem as cotas. Concordo com o Observatório da Imprensa!
Marcia Caetano
Politicagem de FHC
Logo após a assinatura da MP 63, em 26/8/2002, instituindo as cotas para afro- descendentes nas universidades, qualquer jornalista ou comentarista teria condições de somar dois e dois para concluir, ou pelo menos desconfiar, da intenção eleitoreira do presidente. Entretanto, o que se ouviu foi uma obsequiosa e receosa cobertura. Parecia haver o temor de que revelar a intempestividade da MP fosse considerada uma posição racista. Hoje, a imprensa repercute a discussão que deveria ter ocorrido na época da emissão da MP, há cinco meses. Talvez alguns dados esclareçam o que deixou de ser observado pelos profissionais da notícia.
Em 1° de setembro de 2002, FHC foi muito bem recebido no encontro ECO Rio + 10, em Joanesburgo, na África do Sul, por Mandela, Kofi Annan e representantes das nações africanas. Depois, o próprio FHC revelou que recebeu convite de Annan, secretário-geral da ONU, para trabalhar em algum organismo da organização, após deixar o governo do Brasil. Tudo isso devido à assinatura da MP 63, às vésperas de sua viagem.
Assim fica mais fácil entender o verdadeiro objetivo de emitir a MP de carreirinha, em vez de apresentar para discussão proposta de lei nos fóruns adequados: as universidades e o Congresso Nacional. FHC deu uma de sociólogo-libertador da raça negra e deixou a aplicação das cotas ao seu sucessor. Alguém sabe dizer por que os descendentes indígenas não foram contemplados com uma cota? Essa apressada questão só poderia desembocar nos tribunais, já entulhados de processos contra termos legais mal-elaborados e decisões de governos prenhes de segundas intenções.
José Renato M. de Almeida
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