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COTAS PARA NEGROS
Na sala de aula

A UERGS destina 50% das vagas a alunos hipossuficientes. A política compensatória é correta. Porém, o problema não se esgota na admissão do negro ou do carente. Há um custo que essa política tem de reconhecer e assumir. Caso contrário ela continuará a estimular o vantagismo e o péssimo ensino público vigente. Como proceder na sala de aula? Recebemos alunos que não conseguem "calcular 37 vezes 37 divididos por 37" sem fazer a multiplicação seguida da divisão ou usar a calculadora. Somos contratados para dar oito horas de aula por semana mas ficamos em sala de aula 25 horas por semana dando atendimento aos alunos que têm dificuldades relativas ao ensino médio e fundamental.

Apesar disso, durante um semestre de trabalho, as dificuldades como as acima persistem. Na Unesp, onde lecionávamos, essas dificuldades eram exceção e as horas extras eram dedicadas a trabalhar com alunos cujas dificuldades estavam no domínio da disciplina em questão. Agora elas estão presentes em número que a instituição não pode mais ignorar. A contratação imediata de especialistas em Educação Matemática parece uma emergência necessária, porém a discriminação tem de ser atacada em sua origem, no ensino fundamental.

Tânia Cabral e Roberto Baldino

 

Aumento do preconceito

Concordo que devemos lutar contra as desigualdades sociais e contribuir para construir uma sociedade mais livre, justa e solidária. O problema é que a solução proposta para melhorar a situação não deveria ser esta. Se queremos combater o racismo e construir uma sociedade realmente solidária, tal medida parece absurda. Combater a exclusão de uns com a exclusão de outros? Combater o racismo estimulando a raiva de jovens que se sentem prejudicados pelo simples fato de serem brancos? Essa medida, a meu ver, é cruel, pouco inteligente e muito inconseqüente! Mais uma vez estamos diante de uma solução precária, emergencial, para combater um problema estrutural, que deve ser tratado com muita seriedade e bom senso. Tal medida não só aumentará o preconceito racial de quem já o professava, como o fará surgir naqueles que, a princípio, não o tinham.

Alexandra Mello

 

Pose de heroína

Sou professora universitária há bem pouco tempo, mas já o suficiente para verificar na prática o que, de certa forma, todos nós já sabemos: em três anos de atuação, tive apenas três alunos negros. A injustiça é clara e evidente, mas não deixa de ser injusto e hipócrita o sistema proposto para corrigir o problema. Hipócrita porque tenta tapar o sol com a peneira. Não pretendo aqui fazer um levantamento dos séculos de discriminação contra os negros, prefiro pensar nos 20 anos de discriminação sofridos por um vestibulando negro, candidato ao sistema de cotas. Como "ressarcimento", ele recebe uma facilitação para o ingresso na universidade.

O que fazer desses 20 anos "perdidos" em péssimas escolas, que o impedem de competir por uma vaga? Quem discute alguma forma de minimizar os estragos dessa formação deficitária? Mais importante ainda, quem discute formas de evitar que esse processo se perpetue? Por que, até agora, ninguém discutiu um sistema de cotas para escolas primárias, por exemplo?

Provavelmente porque, como bem sabemos, as boas escolas primárias são, em sua esmagadora maioria, particulares, e voltadas para a formação dos "geniozinhos" com vaga garantida nas universidades públicas e nos melhores empregos. Nesse caso, sim, estaríamos atacando o problema, dando de fato oportunidades iguais a brancos e negros, ricos e pobres. Mas, ao que parece, a intenção não é resolver o problema, é tomar atitudes politicamente corretas, que permitam à parcela engajada dessa "classe media branca" dormir tranqüila e posar de heroína nos debates midiáticos.

Daniella Rubbo

 

Quem não é negro?

Só gostaria de saber como fazer justiça ao afirmar quem é e quem não é negro no Brasil. Somos todos mestiços, e as cotas não têm como levar em conta essa mistura de raças. Por isso, no Brasil, esse sistema já é falido.

Fabiana Santos

 

Que é ridículo é

O problema racial no Brasil, na verdade, nunca foi devidamente discutido. De um lado estão aqueles que querem por via das forças comparar o racismo que existe aqui ao racismo que existe nos EUA, caracterizando um equívoco social, que impede essas pessoas de verem a realidade brasileira como um todo. E do outro, aqueles que negam a existência de racismo, tentando sempre substituí-lo por preconceito social, ou eufemismos do gênero.

O fato é que esse preconceito existe, mas se mostra diferente em vários cenários. Não podemos comparar o tipo de preconceito que existe na Bahia ao que ocorre no interior do Ceará, onde já vivi e vi. Na Bahia, por exemplo, existe um preconceito mais aberto, digo isso por que já morei lá e vi como ocorre. Podemos dizer que é o preconceito mais semelhante ao existente nos EUA aqui no Brasil, e não por coincidência, é onde os movimentos contra este tipo de preconceito são mais atuantes. No Ceará, o preconceito é mais social, mesmo porque a miscigenação é mais acentuada, não é fácil encontrar um "galeguinho dos olhos azuis" ou um "negão de angola".

A verdade é que se existisse raça no sentido técnico da palavra seríamos "híbridos", e isso não pode ser negado. Contudo, todos sabem que não existe no homem uma divisão de espécies, somos realmente biologicamente iguais. Há mais diferenças genéticas entre os chimpanzés de um mesmo grupo familiar que entre um sertanejo nordestino e um finlandês. Então, por que essa discussão? Por que estabelecer um sistema de cotas? Como podemos definir quem é minoria?

Nós, o povo brasileiro, não precisamos de cotas, precisamos de mais faculdades públicas e de qualidade no ensino médio. Essa política assistencialista só serve para tapar o sol com a peneira e impedir que vejamos os reais problemas da educação no país. Impedir que vejamos a política nefasta que o ministro da Ciência e Tecnologia pretende pôr em prática e outras resoluções que só prejudicarão ainda mais o sistema educacional brasileiro. Se querem estabelecer cotas que estabeleçam sobre quem cursou segundo grau em escolas públicas, e não pela cor da pele, pois pelos menos estaremos usando um critério mais justo, e mesmo assim ainda estaríamos cometendo injustiças e abrindo precedentes para fraudes.

Por que ninguém fala nos índios? Já sei, deve ser uma minoria menos importante. Não sei quais os reais motivos que a impressa tem para definir como "ridículo" o sistema de cotas, mas que é ridículo é.

Salomão Domingos, Fortaleza

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