9/14

Envie para um amigo  Procure no arquivo

MÍDIA ESPORTIVA
Sem ética ou bom senso

O chamado jornalismo esportivo não costuma suscitar grandes discussões no Observatório da Imprensa, de forma que os artigos escritos pelo jornalista Antônio Carlos Teixeira Gomes são tratados de lucidez e imparcialidade (mesmo com o jornalista torcendo pelo Santos FC). Mas é no jornalismo esportivo em que ocorrem as maiores barbaridades e desrespeito total à ética e ao bom senso. Conhecido por pessoas que acompanham futebol no estado de São Paulo, o jornalista Chico Lang reúne um festival de tolices em sua coluna "Bola Solta", no sítio da Gazeta Esportiva. Corinthiano assumido e ardoroso defensor do time do Parque São Jorge, o jornalista atormenta os torcedores de outras agremiações que assistem ao programa Mesa-Redonda" e lêem a referida coluna. É um festival de abobrinhas:

Quando o time do Santos FC venceu a sua partida de estréia na Libertadores da América jogando na Colômbia, o jornalista tascou em sua coluna: "Estou com inveja do time do Santos (...) está crescendo, certinho, cada vez mais". Pois bem. Uma semana depois, o Santos FC foi derrotado pela Portuguesa Santista. Título da coluna: "Cadê o Santos? Cadê o Santos?"; Segue: "Afinal, a Briosa (como é tratada a Portuguesa Santista) mostrou que "Baleia" não pode ser "tubarão" (...) o Santos é um time de papel".

Ele escreveu que Robinho e Diego eram craques e tal. Mas bastou a equipe santista perder para o São Paulo que o jornalista mostrou toda a sua "memória": "(...) frágil, muito frágil o tal campeão brasileiro." E mais: Diego e Robinho seriam um "fracasso", e o Santos perdeu a chance de negociá-los logo após a final do campeonato brasileiro.Fica evidente o ressentimento do jornalista pela equipe que derrotou o "todo-poderoso"(como o jornalista chama o Corinthians) na final do Campeonato Brasileiro de 2002.

Ele também destila suas ironias para a equipe do Palmeiras, rebaixada para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Escreveu que a "realidade do Palmeiras é o São Raimundo (equipe do Amazonas, pouco conhecida da mídia do eixo Rio-São Paulo, considerada "pequena"), e não o Corinthians". Dá a entender que o time do Palmeiras não tem capacidade de enfrentar o Corinthians, que nem poderia se classificar no Campeonato Paulista. Praticamente duas semanas depois, Palmeiras e Corinthians disputarão a semifinal do campeonato.

Logo, vê-se que o jornalista tem opiniões bem contraditórias. Num jogo, craques fenomenais. Basta uma derrota, pernas de pau. Poderia arrolar aqui inúmeras baboseiras escritas pelo "jornalista" Chico Lang, mas esses exemplos já dão uma idéia do nível de suas colunas diárias.

Folclórico, dirão alguns. Pode ser. Mas no jornalismo esportivo temos algo assim: comentarista de Corinthians (caso do Sr. Chico Lang e do médico-narrador-comentarista Osmar de Oliveira); comentarista de Palmeiras (caso de Roberto Avallone); comentarista de São Paulo ( Flávio Prado, por exemplo); comentarista de Santos (Milton Neves em seus programas).

Não há absolutamente nada de anormal jornalistas terem suas preferências clubísticas. O problema é quando esses "comentaristas" deixam a paixão pelo clube adentrar a redação e "mandam para escanteio" a imparcialidade e a credibilidade que o jornalismo tanto necessita por estes dias. Como a mídia esportiva é considerada "menor", alguns desses fatos são relevados. Mas que os "formadores de opinião" do esporte fiquem atentos: há observadores atentos.

Fernando Campos, Salvador

 

Santista fanático

O texto do Sr Antonio Carlos Teixeira seria excelente, não se tratando ele de um santista fanático, muito conhecido. O São Paulo, sabiamente, jogou pelo resultado, que conquistou com méritos dentro do gramado. Ao contrário do Santos, que não teve competência para isto. Ao escolher seu adversário na próxima fase, simplesmente, fez uso do regulamento aprovado, inclusive, pelos dirigentes santistas. O termo "marmelada" usado pelo distinto jornalista de Brasília não cabe portanto ao resultado. Utilizando, ainda, o mesmo raciocínio empregado pelo profuso jornalista teria eu a ousadia de fazer um paralelo, a classificação do Santos na última rodada do Brasileirão 2002. Lembro ao emérito jornalista do Planalto Central que se cogitou naquela oportunidade de o Santos FC ter adoçado o fim de ano dos jogadores do Gama de Brasília, com quantia que deixaria até Papai Noel enrubescido.

Dizem porém, as más línguas, que até hoje os jogadores do Gama aguardam a chegada de Papai Noel. Mas é claro que isso não passa intriga de maus perdedores!

Carlos Alberto Cordella

 

Imitação da vida

Claro que devemos condenar qualquer atitude que fuja ao melhor conceito de desportividade e lisura. Mas o argumento do Juca não é de todo equivocado. Se o regulamento permite tal fato (duas equipes se enfrentarem e serem beneficiada pelo mesmo resultado), certamente foi antiético se comprovada a marmelada, mas ilegal? Não. Afinal, o regulamento esdrúxulo permitiu a marmelada. Armação que, diga-se, já rolou até em Copa do Mundo. Como futebol é uma imitação da vida, tivemos um pequeno exemplo.

Maurício Noriega

 

Presunção de inocência

A respeito do artigo do Sr. Antônio Carlos Teixeira: gostaria de fazer algumas respeitosas observações, como são-paulino zeloso pela boa reputação de meu clube do coração. Em primeiro lugar, chama a atenção a contradição evidente entre o início de seu artigo (quando afirma que não houve marmelada, mas sim "excesso de preguiça" por parte do São Paulo) e a parte final, em que sobram críticas ácidas à imprensa que não "denunciou" uma suposta armação de resultados destinada a eliminar o Santos do Campeonato Paulista. É verdade que o São Paulo jogou muito mal, e também é verdade que seria conveniente empatar com o Santo André, para não ter que enfrentar o Santos de novo. Mas é preciso dizer que o empate permitiu ao tricolor escolher o adversário teoricamente mais fraco na próxima fase; que o grande astro do time, o jovem Kaká, não jogou, por estar machucado; que o São Paulo vinha de uma humilhante e incompreensível derrota para um timinho desconhecido (o São Raimundo) na Copa do Brasil; que a irregularidade é a marca registrada desse time, que em seis jogos no Campeonato Paulista, além do empate com Santo André, amargou outro empate com a Portuguesa Santista e uma derrota acachapante para o fraco Paulista de Jundiaí; e que não havia tanto motivo para temer o Santos, já que o confronto anterior entre as duas equipes, na Vila Belmiro, havia sido vencido pelo tricolor do Morumbi.

Portanto, se a maior parte da mídia esportiva adotou uma posição cautelosa, preferindo não gritar aos quatro ventos que o empate de domingo decorreu de uma combinação prévia do resultado do jogo, isso se deveu não a uma covardia, falta de ética ou desrespeito ao Código do Torcedor, como seu artigo quer fazer crer, mas sim ao exame de uma série de circunstâncias que vão além do interesse imediato de eliminação de um difícil adversário. Mais: deveu-se também à presunção de inocência de que pessoas e entidades gozam, segundo a qual somente após provada a corrupção pode-se admiti-la, principalmente em meios de comunicação e publicações da grande imprensa. E, finalmente, revelou respeito à terceira maior torcida do Brasil em número, e talvez a maior em paixão pelo clube, respeito que seu artigo jogou por terra, afirmando brevemente que não houve armação mas insinuando o contrário ao longo de todo o restante do texto.

Por outro lado, se o desempenho ruim de um time der direito ao torcedor de pedir o ingresso de volta, é melhor a Seleção brasileira nunca mais jogar no país, depois dos vexames contra Paraguai, China, Honduras, Austrália, Coréia do Sul, Bolívia, Chile, Camarões etc. – isso para não falar nos muitíssimos jogos horrorosos que agridem os olhos das torcidas de todo o Brasil em qualquer campeonato estadual ou nacional. Mas mediocridade, felizmente, não é crime, ao passo que corrupção é, assim como a calúnia (ato de imputar a alguém a prática de algum crime). Portanto, eu recomendo ao senhor que, antes de insinuar que um clube inteiro com a enorme tradição do São Paulo tenha armado um resultado, procure reunir elementos convincentes para essa afirmação, pois a leviandade pode não apenas incitar o ódio entre torcidas (como de fato seu artigo logrou fazer, como se infere dos comentários no sítio <www.gazetaesportiva.net>, no espaço "Voz da Arquibancada"), com todas as terríveis conseqüências imagináveis, como pode ainda comprometer a cautela ética com que a imprensa esportiva tratou do assunto, o que representaria, então sim, um retrocesso abominável da comunicação esportiva – aos tempos em que, na política, determinado jornal era "situação" e outros eram "oposição", estando a verdade apenas no meio entre os dois pólos.

Milton Carrijo Galvão

 

Opção tática

Acho que, como em todo jogo, cada time tem sua tática, então achei que o São Paulo fez certo deixar o Santo André empatar a partida. O São Paulo optou por pegar o Santo André, em vez do melhor time do campeonato, o Santos. Qualquer time faria o mesmo!

Thaís Frausto

 

À procura do velho Juca

Em razão do excelente artigo publicado pelo jornalista Antonio Carlos Teixeira, a respeito de como a mídia viu e apreciou o lamentável, melancólico e patético jogo do São Paulo contra o Santo André, tive a oportunidade de remeter ao ilustre articulista os meus cumprimentos, lembrando-o a respeito do excepcional trabalho feito por Juca Kfouri quando era o responsável pela revista Placar, ao desmontar um grande esquema a nível nacional para "acertar", "montar", "direcionar" resultados de jogos da Loteria Esportiva, acredito que no início dos anos 80. Acredito que fazendo uma pesquisa poderíamos levantar as reportagens da época. Muita gente foi surpreendida com acusações, declarações oportunistas, outras com provas de gravações e documentais, enfim, tudo aquilo em que se transforma uma investigação envolvendo muita gente bem posicionada no meio do futebol.

Evidente que os grandes não foram pegos, mas os "intermediários" (contatos com jogadores, diretores, técnicos) deduravam e a coisa cresceu tanto que disso resultou na absoluta falta de credibilidade da Loteria Esportiva, que era a grande coqueluche nacional. Depois daquelas reportagens, ninguém mais acreditou na loteria, e o Juca fincou definitivamente seu nome dentro do jornalismo investigativo brasileiro. Depois, teve sua participação na CPI, tomando atitudes radicais contra dirigentes do futebol brasileiro, mas pra mim foram meio ilusórias, porque se investigaram certas pessoas e outras ficavam acima da lei, sem que houvesse por parte do jornalista uma postura mais firme, radical e obstinada, como demonstrava contra alguns. Em relação a outros, porém, era bem mais maleável.

Ou seja, entrou no velho esquema: para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei. Aliás, a respeito da marmelada de domingo, ele mesmo comentou que "ah, isso no futebol é comum, veja só o caso da loteria italiana" (onde houve prisão até para o grande Paolo Rossi, nosso carrasco na copa de 82 e herói italiano). Ora, então cadê aquele velho e ético Juca? Quis justificar o injustificável. Pior: para eximir qualquer um de responsabilidade, trouxe à memória até a própria loteria esportiva italiana, o "totocalcio". Ou seja, aceita plenamente uma absoluta imoralidade da loteria italiana; aceita uma tremenda palhaçada protagonizada por São Paulo e Santo André. No momento, entretanto, que procurou de forma sincera, fazer jornalismo investigativo sério, como o da nossa loteria esportiva, não havia limites para a sua obstinação.

Agora, vejo um Juca "aceitando" mais a vida como ela é, acessível e tolerante com falcatruas, maracutaias e cambalachos. Dizem que a idade traz a sabedoria. Pra mim, sabedoria e conformismo não são gêneros da mesma espécie. Pode-se ser sábio, sem perder a paixão e o ímpeto dos que clamam por justiça, dos que fazem de sua vida um ideal. Juca Kfouri, depois de consolidar sua brilhante carreira de jornalista, está perdendo a grande oportunidade de firmar-se como um verdadeiro baluarte na luta contra a pouca-vergonha que assola o nosso futebol. A canalhice do futebol está mais viva que nunca. Pena que o Juca velho de guerra, parece, está agonizando.

Zeca Paulito

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe