Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição: Marinilda Carvalho

Dinâmica de grupo para jornalistas?

Entre as diversas perguntas das provas de seleção de jornalistas (ou estagiários), há sempre a fatídica "por que você quer ser jornalista?" ou similar. E eu, entre outros itens básicos - curiosidade, relações carnais com o hábito de escrever -, costumo citar o fato de o jornalismo ser, sem desprezar as peculiaridades das outras profissões, um ofício diferente. Inocência pouca é bobagem.

Não, o jornalismo não é especial. A se julgar pelos processos de seleção praticados por grandes jornais e redes de TV, trata-se de um circo. "Vamos, senhores jornalistas, amarrem esta corda dando três pulinhos, equilibrando o copo d'água e gritando seu nome". "Vamos, senhores jornalistas, façam uma roda e disputem uma emocionante partida de adedanha". "Vamos, senhores jornalistas, representem suas ambições por meio de um desenho". São assim as famigeradas dinâmicas de grupo - sem um pingo de exagero.

Chegamos ao primeiro constrangimento: como questionar o uso de tal prática sem ofender os profissionais de Recursos Humanos? Impossível. Infelizmente, ao menos no tocante ao jornalismo, as dinâmicas estão a milhas de serem indispensáveis - embora, a bem da verdade, outras atividades dos profissionais de RH sejam de suma importância. Sim, devo concordar que as empresas modernas exigem mais que meros jornalistas; elas querem profissionais com iniciativa, ambiciosos na medida certa, criativos... E, sim, isso talvez as dinâmicas possam detectar. Perigoso esse talvez.

Em jornalismo, como se sabe, não existe (ou não deveria existir) talvez. É ou não é. Coloquem um empregado "possivelmente modelo" para apurar, redigir, editar. Talvez fique excelente. Talvez venha a ser um atentado à reputação da empresa. De fato perigoso esse talvez.

"É inviável mandar uma centena de candidatos às ruas para uma avaliação realmente jornalística". Tanto quanto é impensável deixar a escolha da força motriz de um jornal nas mãos de ignorantes dos essenciais detalhes do dia-a-dia de uma redação. Não é choro. É tão-somente intrigante ser preterido por não pensar no que desenhar, no que falar... no que mentir, em vez de pensar em apuração, lides, centímetros, correria, pressão e o produto final nas mãos do leitor ou na telinha da TV. Jornalismo é ter a notícia no sangue - e não vender a alma ao diabo nas dinâmicas de grupo.

Finalmente, fica a pergunta: será que o Elio Gaspari (para citar apenas um ícone do bom jornalismo) passaria numa dinâmica de grupo? Tenho dúvidas.

Cláudio Gunk

 

Protesto contra uma cobertura

Escrevo ao OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA para fugir do mero resmungo, costumeiramente abrigado no Painel dos Leitores da Folha de S. Paulo. É que no dia 18/2/98 foram inauguradas duas Unidades do Programa de Saúde da Família, na Vila Espanhola (Zona Norte da capital paulista) e no Parque São Lucas (Zona Sudeste). A Folha destacou para cobrir o evento no Parque São Lucas o jornalista Emanuel Neri. Não mandou ninguém à Vila Espanhola. Aí já houve, aparentemente, um critério: na Zona Norte havia um verdadeiro espalhafato de um vereador e de um deputado estadual do PSDB, com claque organizada para aclamá-los e para pedir ao governador Mário Covas que dispute a reeleição. No Parque São Lucas, o que se viu foram faixas do Movimento Popular de Saúde e a presença de um vereador e de um deputado estadual do PT, que não tiveram o direito à palavra. Emanuel Neri estava, suponho, pautado para explorar o fato de serem filiados ao PT o coordenador geral do Programa (eu mesmo) e a coordenadora da Região Sudeste. Quase nada perguntou do programa, ou de saúde. Quis arrancar "evidências" de um suposto apoio nosso à eventual candidatura Covas, omitindo maliciosamente se a hipótese dizia respeito ao primeiro ou ao segundo turno das eleições.

Sequer nos perguntou qual dos dois pré-candidatos petistas (Marta Suplicy ou Renato Simões) tinha nosso apoio. A matéria publicada dia 19/2/98, na página 9 da Folha, transformou uma inauguração de serviço de saúde em "palanque" (sic) da candidatura Covas, onde os petistas presentes teriam "subido". Os leitores foram brindados com pouquíssima informação sobre um programa muito inovador, e servidos com um texto essencialmente desonesto. Como funcionário público há 23 anos, trabalhei sob governadores biônicos (Paulo Egydio Martins, Paulo Maluf) e outros democraticamente eleitos. Ocupei funções de chefia, inerentes à minha carreira, nesses governos. Isso nunca significou, como é óbvio, alinhamento automático com esses governadores e seus partidos.

Além de tudo, Emanuel Neri está desinformado, como repórter político. Depois de um progressivo afastamento, desliguei-me completamente de qualquer tendência organizada do PT. No jargão partidário, sou hoje um independente. E é uma grosseira simplificação dizer que o dr. Adib Jatene, por ter sido secretário de Saúde de Paulo Maluf, é malufista ou coisa parecida.

Gostaria que a Folha discutisse essa crítica, que é construtiva. E que o O.I. comentasse tanto o equivocado (a meu ver) politicismo de certas coberturas, como a miséria de informação específica que é levada ao público sobre temas tão relevantes como saúde.

David Capistrano Filho

Obs.: Enviamos a mensagem de David Capistrano Filho à Redação da Folha, para que fosse retransmitida ao repórter Emanuel Neri. Não houve resposta.

 

Tragédia na Barra

Em uma das maiores cidades brasileiras, um edifício recém-construído desmorona. Erro no projeto estrutural? Descumprimento das especificações? Erro na execução? Descaso? Incompetência? Essas questões poderão, e deverão, ser tecnicamente reveladas pelas perícias que, certamente, serão realizadas.

Entretanto, questões cuja gravidade só são suplantadas pela desgraça das perdas humanas também merecem ser explicadas, não só aos que foram diretamente afetados pela tragédia, como à sociedade, porque são elas, na verdade, os alicerces, estes sim, sólidos, sobre os quais se assentam e se desenvolvem conglomerados empresariais e fortunas pessoais.

Refiro-me aos "alicerces" das relações que a atividade política pode proporcionar quando posta a serviço dos interesses pessoais ou de grupo. O artigo do Elio Gaspari publicado na Folha de S.Paulo e em O Globo, domingo, dia 1/3/98, levanta o véu do que, certamente, é apenas a ponta do iceberg...

José Alberto de Almeida

 

Cobranças

A imprensa parece que não está investigando, seriamente, qualquer assunto que possa manchar a reputação do governo. Só para lembrar alguns casos: Projeto Sivam, compra de votos na emenda da reeleição e, mais recentemente, o escândalo no DNER (o que houve? sumiu?) e a troca de favores (para dizer o mínimo) na emenda da Previdência.

Por que não se fala nisso? É para fingir que agora, finalmente, chegamos ao Primeiro Mundo? Ou tem mais coisa por trás de tanto silêncio e omissão?

Marcelo L. C. Branco

 

Jornalistas do futuro

Incrível como a própria imprensa se contradiz. A revista Imprensa dedica, todo mês, duas páginas à campanha Abaixo a Lei de Imprensa que, curiosamente, impressiona alguns. Neste mês, lançou um concurso - Jornalistas do futuro -, do qual o candidato só poderá participar se o curso de Jornalismo da sua universidade for reconhecido pelo MEC.

Como estudante de Jornalismo, isso me assusta muito. Algumas perguntas ficam rondando minha cabeça: e se eu, que sou aluna de uma universidade cujo curso ainda não foi reconhecido pelo MEC, produzir um texto melhor que o de um aluno que tem o curso reconhecido, não posso participar? Não tenho direito a participar? Onde fica a liberdade de expressão tão pregada por essa campanha contra a Lei de Imprensa? O curso de Jornalismo foi reconhecido há, pelo menos, 50 anos e no governo Vargas. Então, tudo o que foi produzido anteriormente a esta data não tem valor? Não era exercício do jornalismo?

Todo esse boicote levanta uma questão: a validade do curso de Jornalismo versus a vocação. Certas profissões não dependem tão somente de um reconhecimento pelo MEC para provar a capacidade do profissional, principalmente a de um jornalista, que depende de sua bagagem cultural para ser bom, porque na faculdade o que se aprende, na maioria das vezes, é a técnica. E sem conhecimento, não há técnica que dê jeito! Prova disso são os grandes jornalistas que estão no mercado há muito tempo e que não têm diploma universitário. Alberto Dines é um exemplo disso. E não há quem possa negar!

Luciana Moherdaui

 

Ética no jornalismo

Sou jornalista e hoje navego pela primeira vez no OBSERVATÓRIO. Gostaria de parabenizá-los, realmente temos necessidade de criticar a mídia brasileira. Será ético um repórter que baseia sua reportagem em informações de fonte desconhecida? Que tipo de formação teve esse profissional? Que tipo de veículo publica tais matérias e que interesses podem ter em publicá-las?

Sou formada há dois anos e mesmo no início da faculdade já sentia a necessidade de discutir e questionar a ética no jornalismo. Acredito que a partir de espaços como esse, ainda mínimos, poderemos amadurecer novos caminhos.

Cíntia Pereira Jardim




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