Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição: Marinilda Carvalho

MOSAICO

 

País de um rumo só, povo de um muro, dó!!!

Só poderia dar nisso, vários governos se passaram desde que nasci, 38 anos atrás, governos militares, ditadura brava... Passamos pelo AI-5, época do milagre, Brasil verde-amarelo... imprensa censurada, e nós povo brasileiro acreditando nesse milagre, ou malogro... Bem, o povo se uniu, o povo forçou os nossos representantes - deputados e senadores (muitos deles biônicos). Fez-se a pressão, Diretas-já... Elegeu-se Tancredo naquele pseudo colégio eleitoral... Morre Tancredo, assume o Vice-Sarney, o que ele faz? Planos atrás de planos, de cruzeiro e cruzado, e o povo de bolso e saco cheios, furados... Inflação aos picos, corrupção também, acordos, negociatas, manobras... Lá vem eleição, o povo cai no Conto do Marajá (êta povinho que acredita até em Papai Noel), graças a uma imprensa parcialmente comprometida com as elites dominadoras... Então o Homem Bonito assume, confisca, abertura da economia, Zélia dançando com o Bernardão, Magri, um líder sindical que trata o cãozinho dele como se fosse um ser humano, enquanto o povo era tratado como verdadeiros animais, imexível... Escândalos, PC- PCorrupção, Veja o Pedro botando no ventilador... O irmão dedo-duro apenas porque o senhor Farias foi mexer com os negócios da família Collor... Nada de patriótico, apenas uma pessoa com medo de perder o poder da família nas Alagoas, irmão acusado acusa... é um doido!! Berra: não me deixem só... A musa Teresa aparece, cresce e com ela o sentimento do povo dos descamisados usurpado pelos engomadinhos, OAB, ABI, OBA, ó nós aqui... Caras-pintadas, o povo nas ruas, a TV nas gruas... a oposição unida jamais será vencida - ou melhor vendida - "De braços dados ou não... caminhando e cantando..."

O movimento foi empurrando a imprensa, os deputados, os senadores. "Fora Collor..." impeachment nele, esperneia, se gruda na cadeira, o pelotão de choque funciona, tenta... mas num tem jeito, "Pela moral, pela justiça, e pelo povo brasileiro eu voto a favor do impeachment..." Esse era o último voto... Cai… a pose, cai a máscara, cai por terra o sonho de um marajá que perseguia outros em busca de mais propina, mais ouro para seu castelo... Seus jardins de Alá… Sua Casa da Dinda... contas fantasmas, Operação Uruguai etc. etc.

Assume o Vice-Itamar.. Ita Mar... com todo o apoio da sociedade, alguns meses de casamento e o povo viu outra vez que tinha caído no conto do topete, mulher sem calcinha, seguem os escândalos, segue a corrupção, seguem os acordos, segue o povo mais uma vez sem direção... vem o Plano Real... tudo melhora.. a inflação cai. O povo leva o homem do Real para o Planalto, acredita nele.. um sociólogo, USP... até que enfim as elites culturais desse país... suspira: Ufa! Agora dá... Deu???? Acordos ou conchavos.. com o pior que se tem na política brasileira PFL - partido que nunca se desgruda do poder.. seja ele de direita, esquerda, centro... neoliberalismo.. tá lá o homem.. ACM.. e agora acompanhado do seu brilhante Filho Jr. Bem-feito para o PT do Lula, que não sabe ouvir, e nem dividir seus dogmas com ninguém...

O que aconteceu depois: nada... absolutamente nada.. Compras de votos, nada de reformas, o Real segue pedindo os remédios, e nada feito... segue na mesma. A classe média esmagada, a pobre com a ilusão de que melhorou.. a rica… bem essa tá sempre ganhando... seguem os mesmos escândalos, seguem os conchavos... e reformas nada, mas por um interesse maior... o Congresso aprova a reeleição, o senhor X.. o Y.. e nós, bem, nós, povo... Cai a bolsa asiática, e imposto na gente, crise!! Crise?? Há quanto tempo não ouvimos isso?? A culpa é dos coreanos... do imperialismo..., de Mao, de Ling, de Clinton, de Major, de... e de FHC... não, esse é intocável… será eleito novamente, e tudo seguirá como lá pelos anos de 1959, ano em que nasci...

Dionisio Rulli Soares, publicitário e escritor

 

Um processo absurdo

A cidade de Caxambu, no sul de Minas Gerais, uma das principais cidades do Circuito das Águas, é palco, hoje, de um processo judicial dos mais instigantes no que tange à relação entre o cidadão comum, o poder público, o homem de vida pública e a imprensa. Sou advogado, tenho 28 anos, e há mais de 15 passo minhas férias nesta cidade.

No carnaval de 1997, verificou-se em Caxambu, por iniciativa da Prefeitura Municipal, um estupro: não houve o tradicional desfile das escolas de samba locais, modestas porém autênticas, não houve o desfile dos blocos de sujos, não houve qualquer baile de clube. Caxambu, infectado pela moda que assola o país de norte a sul, decidiu instalar nos quatro dias de folia um mastodonte elétrico na cidade que, em alto som, tocou a famigerado axé music, que tem razão de ser na Bahia, quando muito no Nordeste.

Visando apenas preservar a cultura da cidade, remeti, logo após o carnaval, uma carta à Prefeitura, aos cuidados do prefeito, Marcus Nagib Gadben, com cópia para 10 órgãos representativos locais, como a Associação Comercial de Caxambu, a Câmara Municipal, o Sindicato dos Hotéis e alguns outros. O que motivou esta minha carta foi a indignação com o abandono das tradições locais, a insatisfação generalizada que percebi nos turistas e, principalmente, o crescimento vertiginoso de cenas de violência durante os quatro dias de festa (assaltos, drogas, brigas). Não foi possível dissociar uma coisa da outra, já que nunca, antes, se verificou qualquer destes fenômenos.

Minha carta não mereceu qualquer apreciação por parte da Prefeitura. O que houve, apenas, foi um editorial publicado num jornal da cidade - Arte 3 Notícias -, um dos que receberam minha carta e que nitidamente apóia o prefeito, assinado pelo jornalista Fernando Victor, em extremo tom de deboche, e uma resposta enviada à casa de Maria Florinda Braga Goldenberg, minha mãe, assinada pela secretária de Cultura de Caxambu, Vanessa Lício Paganelli, na qual a mesma, em figura de antagonismo, anexa uma carta elogiosa ao Carnaval remetida por uma cidadã de Belo Horizonte, e me chama de "saudosista", enquanto classifica de "progressista" a referida cidadã.

Até este momento, além da deselegância, nada demais.

Imbuída do espírito de defesa inerente às mães, Maria Goldenberg enviou à Prefeitura Municipal de Caxambu, com cópia para os mesmos 10 órgãos que receberam cópias de minha carta, uma nova carta restabelecendo a verdade dos fatos e criticando, veementemente, o modus operandi do prefeito, do vice-prefeito e da secretária de Cultura na condução do carnaval, na condução da resposta à minha carta e na condução da política local.

Ficamos depois sabendo que um outro jornal local - Jornal das Estâncias - publicou, sem autorização, as duas cartas. E ficamos sabendo, também, que se distribuíram na cidade, também sem autorização, centenas de cópias da carta de minha mãe. Estava "forjada" a publicidade!!!!! E vale dizer que, mesmo que fosse dada publicidade à carta, nenhum problema isto teria, já que o envio de cartas por parte de cidadãos criticando políticos e/ou pessoas de vida pública é expediente usado diariamente centenas de vezes.

A barbaridade, a aberração, é que, em 28 de outubro de 1997, o prefeito - Marcus Nagib Gadben -, o vice-prefeito - Maurício Guedes de Melo - e a secretária de Cultura - Vanessa Lício Paganelli - ingressaram na Vara Única da Comarca de Caxambu com uma ação de indenização por danos morais, requerendo a quantia de R$ 150 mil a título de indenização, mais o custeio da divulgação da eventual sentença condenatória na imprensa local por três vezes e na rádio local uma vez por semana durante três meses!!!!!

Alegaram que sofreram dano moral, abalo da honra, diminuição do bom conceito, prejuízos à imagem, danos psíquicos e outras sandices inacreditáveis. A questão que se apresenta, de suma importância para um debate que interessa a todos os cidadãos, é a seguinte: um cidadão comum que critica, através de uma simples carta, um político, um homem de vida pública, pode estar sujeito a este tipo de constrangimento? Pode um político buscar enriquecimento às custas de uma pessoa que não concorda com seus princípios e que se manifesta neste sentido?

A questão é grave, e não escrevo aqui como filho que defende sua mãe, já que no processo em apreço a represento, com os advogados Roberto Carpilovsky e Kátia Klescosky Sznaider. Escrevo, indignado, como um cidadão que percebe estarem sendo violados, neste caso, princípios sagrados consignados na Declaração Universal dos Direitos, confirmados e consagrados pela Constituição Brasileira: o da liberdade de pensamento, o da liberdade de expressão e o da inviolabilidade do sigilo da correspondência.

Eduardo Goldenberg, advogado no Rio de Janeiro




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