Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição de Marinilda Carvalho

A lógica torta do JN

Tive meu nome citado em artigo do missivista Douglas Duarte neste Observatório, o que me obriga a alguns esclarecimentos.

1. Ninguém chamou um adolescente de 17 anos de "cairn", exceto o missivista. A reportagem do Jornal Nacional falava em crianças e adolescentes.

2. O missivista alega ter visto, na reportagem, as crianças trabalhando na frente de suas casas, perto de suas famílias – e parece satisfeito com o que viu. Mais ou menos como vislumbrar, numa esquina de São Paulo, um menino mendigando de carro em carro, enquanto sua mãe deposita o traseiro no cimento da calçada, à sombra. Tão pertinho, um do outro...

3. O trabalho que o missivista qualifica poeticamente de "familiar" foi mostrado pela reportagem exatamente como ele é: o lamentável e triste resultado da miséria. Não me parece haver motivo, diante de tal quadro, para dizer "graças a Deus". Seja qual for a religião do missivista.

4. Depois de referir-se ao texto do repórter como "um off choroso" e de qualificar a reportagem como um "dramalhão", o missivista conclui: "Até aí é compreensível. O cuidado excessivo nessas questões de trabalho infantil é sempre bem-vindo". Vejo-me na obrigação de observar: não é exatamente nas cabeças do Jornal Nacional que as coisas estão confusas.

5. O "misto de felicidade e expressão de fé no futuro" que o missivista diz ter havido no anúncio de abertura de vagas de trabalho para aposentados só pode ter sido fruto de seus próprios sentimentos (confusos). Em nome da boa-fé, esclareço ao mal-humorado telespectador que vivemos num país onde os cidadãos mal amparados pela Previdência não costumam encontrar apoio no chamado "mercado formal". Um país onde o quadragésimo aniversário do trabalhador o põe em situação de grande desvantagem diante da concorrência. Vivemos num país cujo maior centro econômico e financeiro não tem vagas a oferecer para 19,9 % de sua população economicamente ativa.

Pois bem. Os aposentados que precisam de um dinheiro extra e têm saúde para lutar por ele ganharam uma oportunidade de fazê-lo. E o mesmo missivista que agradece a Deus pelas criancinhas que podem trabalhar sem nenhuma segurança, sem nenhum direito trabalhista (mas pertinho dos pais) se revolta contra o retorno de aposentados, sorridentes, ao mercado de trabalho (com carteira assinada).

6. Considero as críticas à edição do JN preconceituosas. E a autocrítica do encerramento injustamente generalizante. Atenciosamente,

William Bonner, apresentador do JN

"Falha" de S.Paulo

Sou recém-formada em Jornalismo pela PUC-SP, Letras pela USP e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela mesma universidade. Creio ter uma boa formação cultural e acadêmica, amplos conhecimentos de línguas (inglês, francês, alemão, espanhol, entre outros). Já me candidatei várias vezes a vagas de repórter na Folha de S.Paulo e sempre me surpreendi com as respostas negativas ou pior, com a ausência de qualquer resposta, indagando a mim mesma que tipo de profissional eles desejariam. Acabei por concluir que são escusas as formas de contratação de profissionais, bem como de demissão, veja-se o ilustre exemplo de Alberto Dines.

É triste notar que parece não haver saída no jornalismo diário brasileiro, ou ficamos com o conservadorismo de O Estado de S. Paulo ou com os profissionais clones do manual-amarra da Folha. Agora, no auge do sensacionalismo, um jornal que dá até mesmo panelas de brinde, diagramação verde e rosa estilo Mangueira, parecendo escrito para semi-analfabetos. A Folha da Tarde tinha texto coloquial, mas não da maneira grosseira como o do Agora São Paulo.

A carta do todo-poderoso Frias é assustadora. O sistema "bolha de S. Paulo", enlatando e sugando os profissionais, descaracteriza a própria essência do jornalismo: formar e informar. Ainda bem que o caderno Mais, o Janio de Freitas e o José Simão resistem a esse sistema, e parecem ter liberdade de trabalho, em meio a tantos ladrões de informação, como diria Walter Benjamin.

Sheila Grecco

xxx

Acho engraçada a definição do "jornalismo plural" da Folha de S.Paulo. Engraçado porque, na área puramente musical, invariavelmente cada edição me reserva uma surpresa – boa ou ruim. Na segunda-feira, a primeira delas, vinda do colunista Álvaro Pereira Jr., no Folhateen, relegando a língua portuguesa ao ostracismo (língua que o rapaz não domina lá muito bem, diga-se). Recuso-me a achar que tal colunista tenha sido, nesta afirmação, somente burro ou desinformado. Não: escreve mesmo com má-fé. Suas colunas – que sempre leio, para irritar-me toda segunda de manhã e começar de bom humor a semana –, além de emularem com pouca propriedade o estilo de seu ídolo Paulo Francis, são evidentemente um exercício contínuo de destruição (nunca de crítica) da cultura brasileira, em especial a música. Também refuto o provincianismo inerente à maior parte da nossa crítica, mais n’ést pas la question. A questão não é parar de olhar para o próprio umbigo, tio Álvaro: é parar de beijar o umbigo dos outros.

Em contrapartida, sexta-feira tenho uma surpresa excelente: a leitura da página da Ilustrada dedicada a Tom Zé e Mestre Ambrósio, cujo autor é o repórter Pedro Alexandre Sanches. Dando voz a quem, na imprensa, quase nunca tem – desta vez ao extraordinário Tom Zé –, Pedro Alexandre vem oferecendo um painel bastante intrigante da nova música popular brasileira. Há muito venho reparando nos consistentes textos deste que me parece ser uma das mais articuladas vozes da crítica musical do Brasil, hoje. Cada elogio seu é sempre temperado por uma cobrança, cada crítica sua é fundamentada em parâmetros seguros, de quem compreende a música tanto por dentro (sua construção estética) quanto por fora (seu lugar ideológico). Respeita o artista, sem nunca deixar de questioná-lo, e não só a ele, como também ao público e à mídia.

Voltando à primeira crítica: tudo bem que o Folhateen é um caderno dedicado a adolescentes, não requer a mesma capacidade de reflexão que a Ilustrada. Mas o Gustavo Ioschpe, por exemplo, mais novo que o supracitado colunista, mostra muito mais bom senso dirigindo-se ao público teen, ao focar seu texto na informação e na opinião, nunca na doutrinação. O texto do Álvaro é de uma intolerância alvar contra tudo o que é brasileiro. Dentro do mar da "opinião pluralizada" – o ideário da Folha – ele é uma voz reconhecida, válida. Mas não é dar espaço demais à ignorância?

Ronaldo Bressane

JB, o eterno jovem

Demorou, mas chegou. Até o fim do mês, o glorioso Jornal do Brasil deve arregimentar para suas fileiras 40 – quarenta mesmo – estagiários, dos quais 20 para início imediato. O que poderia ser interpretado como busca de novos talentos ou oportunidade de um primeiro contato com o mercado para estudantes de Jornalismo, no caso do JB não passa de uma estratégia mesquinha e altamente questionável de contenção de despesas. Da turma anterior, de 30 estagiários ao todo, contam-se nos dedos quantos foram contratados (apesar da debandada em massa de profissionais os mais diversos). E ainda podemos encontrar alguns formados há dois, três meses, que continuam "estagiando", enquanto a nova "equipe" não se apresenta.

Pressionado por um editor, que pedia a contratação de seu estagiário para suprir uma necessidade de repórteres, o chefe da redação se saiu com a seguinte pérola: "Fique tranqüilo, em breve chegarão novos estagiários". Ou seja, explora-se um estudante por um ano (ou mais), ele se desenvolve e mostra talento a ponto de obter o aval de seu editor e... vai para o olho da rua, porque é muito caro. Arranja-se mais um coitado disposto a praticamente pagar para trabalhar – e trabalhar mesmo, porque quase todas a suas matérias saem (alô, alô, Sindicato!). Qualidade jornalística? É pedir demais ao JB do ano 2000. Com o perdão da rima cretina, aquele de que ninguém sabe, ninguém viu. Cordialmente,

Cláudio Gunk

Notícia que dá medo

Prezados senhores, permitam-me discordar de algumas afirmações feitas pelo jornalista Andreas Adriano no texto intitulado "Notícia que dá medo" (20/4). Por mais que haja abusos por parte das emissoras de televisão na exploração do que se convencionou chamar "espetacularização da notícia", não se pode querer limitar os telejornais à veiculação de "notícias que contribuem para a sociedade". O que é "contribuir para a sociedade"? Os telejornais, assim como os jornais impressos e os noticiários de rádio, devem fundamentalmente noticiar o que acontece. Se o seqüestro de Wellington de Camargo é "menos importante" que, por exemplo, os desdobramentos do caso Marka, isso não é motivo para suprimir a notícia dos telejornais, como o autor da matéria sustenta. O compositor foi seqüestrado e torturado, teve a orelha cortada. Como Andreas Adriano pode classificar esse acontecimento de "irrelevante"? Não se pode diminuir a gravidade de um crime só porque a vítima é rica ou famosa. Lamentável a maneira com que Andreas se refere a essas pessoas: "obscuro pagodeiro", "desorelhado goiano", "americano qualquer".

Aí, sou eu que pergunto: qual a contribuição para a sociedade ao se rotular as pessoas de "insignificantes"? Finalmente, devo concordar que a TV Cultura apresenta um telejornalismo de maior qualidade que o das outras emissoras. Pena que são poucas praças que podem assisti-la, pois, ao contrário do que diz o artigo, a Cultura não é uma "rede" de televisão, mas uma emissora local de São Paulo que tem alguns poucos programas retransmitidos pela Rede Educativa, capitaneada pela TVE do Rio.

Alexandre Sena

Gol contra

Eu gostaria de sugerir que vocês discutam no programa o papel da imprensa esportiva, principalmente aquela ligada ao futebol. O jogador de futebol, no Brasil, é um cidadão acima de qualquer suspeita. Vocês já repararam que ele não é cobrado sobre sua cidadania, sobre seus atos como profissional etc.? O jogador de futebol que simula um pênalti, por exemplo, nunca é condenado pela imprensa, a não ser "ele tentou cavar o pênalti, mas está na dele"? Como está na dele? Isto é tentativa de roubo... Afinal, ele está utilizando meios ilícitos para ganhar dinheiro, e impedir que seu adversário ganhe. Afinal, toda vitória rende "bicho" para o time vencedor. Por que isto não é considerado tentativa de roubo? O que acontece se um jornalista tentar, de alguma forma não-ética, evitar que o jornal concorrente venda? Por que o jogador de futebol é privilegiado?

Outro ponto é a desinformação: o Brasil não é tetracampeão mundial de futebol. Para ser tetra, se faz necessário que uma seleção vença a Copa do Mundo quatro vezes seguidas. Muito menos o Santos, o meu Flamengo etc. são campeões mundiais interclubes. Eles são campeões da América do Sul/Europa, e só.

Para finalizar, por favor, esclareçam aos brasileiros que o ano 2000 não é o início do novo milênio, e sim o fim do "velho". O novo milênio começa em 2001. Um abraço,

Fernando Zucoloto

Dilemas da profissão

Caro Dines, acompanho seu trabalho no Observatório da Imprensa on line e na TV. Sou jornalista formada há quase cinco anos, quando troquei o que poderia ser uma promissora carreira como advogada pela de jornalista. Não sei se fiz um bom negócio. Adoro o que faço, mas se depender do salário e da quantidade de horas que tenho que trabalhar para a minha conta no banco não permanecer eternamente no vermelho, acho que vou desistir. Gostaria de saber qual o caminho para continuar fazendo o que gosto ganhando dinheiro, e olha que desde que me formei nunca fiquei desempregada.

Mas trabalhar de madrugada (das 22h ás 5h) não está me estimulando muito. Nem os frilas dão o resultado esperado. A conta no banco continua no vermelho, e não é pelos gastos, mas pela pouca entrada de capital. Aí, pergunto: vale a pena cursar quatro anos de faculdade, enfrentar chefe de reportagem que acha que sabe tudo, patrão que sempre pensa que está pagando muito, e a família que não se conforma com a sua eterna falta de tempo? Meu sonho de consumo é poder trabalhar na minha profissão e até ganhar algum dinheiro com isso. Pena que não nasci em berço de ouro.

Sandra Balbino




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