Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição de Marinilda Carvalho

Assessor de imprensa, a polêmica

Caro Alberto Dines, gostaria de que o O.I. fizesse uma discussão a respeito do tema Jornalistas x Assessores de Imprensa. Qual deve ser a relação entre os dois? Onde começa o direito de um e termina o do outro? Há que haver respeito nesta relação? Alguém deve se humilhar? Sou assessor de imprensa e me sinto humilhado toda vez que tenho que conversar com os "senhores da notícia". É aquela história, o assessor acha que o release que está mandando é interessante mas, por mais que seja, cabe ao jornalista o juízo sobre o material, porque de nada adianta a notícia ser "um furo de reportagem" se o jornalista não a publicar. Nós, assessores de imprensa, somos sempre o "patinho feio" no mundo jornalístico. Somos aqueles que ficam "enchendo as redações" com nossos telefonemas. Somos aqueles que perguntam se está faltando algo para completar a matéria... enfim, somos a pedra no sapato do jornalista. Mas será que somos tão inúteis assim? Será que o jornalista é tão competente que tem notícias a todo instante e pode literalmente escolher o que publicar? Sinceramente, não acredito nisso. Acho que na imprensa tem tanta coisa irrelevante que, talvez, se fosse dada a atenção devida ao assessor de imprensa, o noticiário seria mais proveitoso.

Dines, por favor leve essa discussão ao ar. Precisamos criar até um código de ética entre essas duas "classes". Entre os assessores costuma-se dizer que jornalista mal-educado é pleonasmo. Será que o poder de publicar ou não um release faz do jornalista o senhor da situação? Será que só o jornalista tem a capacidade mental de discernir o que é ou não relevante? No ar, quero ver algum jornalista ter a coragem de dizer que trata bem o assessor de imprensa. Abraços,

Tarcis

 

Amorim vs. Amorim

Caro Fabiano Golgo, agradeço sua mensagem e aproveito para lhe passar algumas informações. 1) O Jornal da Band já está sendo apresentado às 19h30, e com bons resultados: a audiência média triplicou e os picos são surpreendentes. 2) Do ponto de vista do conteúdo, estamos nos mantendo fiéis à linha histórica da Band: independência, isenção, inconformismo, compromisso com os cidadãos e vigilância permanente. 3) No novo formato, ampliamos o leque de assuntos abordados – sem descuidar dos que davam a tônica anterior. Isso, certamente, ajuda a melhorar nossa performance – tanto do ponto de vista jornalístico quanto de audiência.

É isto. Conto com sua audiência, como "internetespectador". E me coloco à disposição para novos contatos. Atenciosamente,

Valdir Zwetsch, editor-chefe do Jornal da Band

Fabiano Golgo responde: Caro Valdir, em primeiro lugar, parabenizo a equipe do Jornal da Band pelos merecidos resultados na audiência do noticiário que ainda considero o melhor da TV brasileira.

Também te parabenizo por manter o diálogo mesmo com quem criticou a possibilidade de o JB se tornar um clone do JN – o que erroneamente previ –- e provar que, de fato, a Band manteve sua histórica tradição de seriedade em jornalismo. Digo isso como um jovem jornalista que cresceu nos anos 70 brindado pela "dupla" Joelmir Betting e Ferreira Martins, "adolesceu" sob o Jornal de Vanguarda e a descontração com conteúdo de Marília Gabriela e Chico Pinheiro e desaguou em um Paulo Henrique Amorim em meio à certamente loira Era Emergente de FHC. Tive medo de que a política anunciada pelo novo diretor da UPJ fosse um recuo na tentativa de ser um oásis no panorama jornalístico brasileiro. O currículo talking head de Marcos Hummel, somado à saída de um apresentador/editor/diretor, me cheirou a mudança de rumos.

Devo dizer que meu primeiro regozijo foi quando o telejornal foi para a faixa das 19h30. Já achava há tempos que o Paulo Henrique Amorim deveria sair das 20h e entrar mais cedo. Ainda acredito que sob Amorim o programa teria uma grande audiência, exatamente às 19h30. Notei que o novo formato não traiu as diretrizes típicas da Band (chamemos de "padrão Band de qualidade") e que a nova dupla-piloto não aparece com as "pérolas" do Jornal Nacional de Marluce...

Ressalto que ainda gostaria de ver Paulo Henrique a nos relatar com sua visão de ex- correspondente internacional a III Guerra Mundial a que assistimos, os escândalos do cardápio diário do Brasil et caterva. Já pensou se ele aceitasse sair da caverna e continuar na Band? E aceitasse salpicar o cardápio diário com a recente novidade do jornal, que são os fatos menos azedos e reportagens no estilo "curiosidades"?

Paulo Henrique também lançava mão do formato americano (Peter Jennings) e suas matérias "ex-clu-si-vas", e um último quadro "final feliz". Não era alheio aos truques de mercado. Isso significa que poderia tranqüilamente assumir o Jornal da Band da UPJ e até – e lá venho eu com opinionite – entrar às 19h15, pegando o público que não assiste à novela das sete e podendo – com o espichamento – botar quantas reportagens amenas e interessantes forem necessárias. Ainda promovendo o debate inteligente – em termos de televisão – e a exposição 'crítica' do dia. Se os Fabbio Pannunzios e outros bons repórteres investigativos puderem desnudar a notícia, então...

Valdir, eu ainda acredito na Band. Sempre foi decente. Tem uma linha mais digna que as outras. Obrigado pela atenção, pelo trabalho atual e pelo bom exemplo de interatividade com o público cativo. Parabéns outra vez, F. G.

 

Folha vs. Observatório

Descobri este Observatório há pouco mais de um mês. Fui ver as edições anteriores e venho lendo, todas as manhãs, desde o número 1. Um pouco pulando, ou lendo rápido, e me detendo onde às vezes o breu pegava. Pensei que já tivesse prática suficiente de jornal (oito anos de charge na Folha) para que o slogan do Observatório não fizesse mais efeito em mim ("Você nunca mais vai ler jornal como antes"). Pois não é que fez?

Nessa minha leitura arqueológica, como em certos filmes que apresentam o fim e depois recontam a história em flashbacks, vim chegando até a edição de março, da demissão do Dines. E considero o seguinte:

1) A Folha não agiu coerentemente, nem mesmo com relação à sua orientação de atender o leitor médio, numérico, estatístico. Incomodou-se com um observatório que o leitorado majoritário não lê! O Observatório não tem infográfico, não tem pesquisa nem nada daquilo que a Folha considera essencial que um jornal tenha; enfim, tem cara de leitura chata para "gente grande", que deve afastar a massa dos leitores que engolem folhices, vejices e que tais. Então, por que o medo do Observatório?

2) A própria demissão do Dines é um assunto que só vai se propagar entre os observadores e seus fãs. Sim, este é um assunto de elite, assim como a idéia democrática é, de certa maneira, uma idéia muito sofisticada e para poucos...

3) "Coerência", ou a arte de juntar os cacos para fazer sentido, é um valor em desuso hoje em dia. O público tem uma grande tolerância a contradições. Se o presidente fala e depois nega que falou, se o Maluf faz, desfaz e depois nega que fez, a Folha pode chamar de inverídico aquilo que já publicou. Quem vai notar?

O trabalho do jornalista é esse, fazer as conexões, juntar os cacos. A demissão, ou o desligamento do frila, acaba valendo como atestado de honradez e heroísmo. Essas coisas não enchem barriga, mas estufam o peito...abraço deste leitor, e boa sorte.

Spacca

 

Pau na TV, salve a Cultura

Assisti ao programa que tratava sobre a propaganda nas TVs públicas, e gostaria de me pronunciar. Tenho 26 anos e há mais ou menos 10 acompanho a trajetória da TV Cultura. Lembro-me que no final da década de 80 a maior parte de sua programação era tomada por documentários importados, que apesar de educativos eram muito chatos. Salvavam-se alguns bons programas, como Intervalo, do qual fui telespectadora assídua.

Felizmente, os que fazem a Cultura não se acomodaram e a programação foi evoluindo. Atualmente, tem se pautado por qualidade, originalidade e bom gosto, mesclados com a constante busca de uma linguagem dinâmica e concatenada com a vida moderna.

Hoje, posso afirmar, a TV Cultura tem uma programação que além de "educativa" é agradável de se ver, uma programação que prende o telespectador. Exemplos: Nossa língua portuguesa, que teve o mérito de "popularizar" o português. O jornal 60 minutos – ao qual assisto diariamente há mais de dois anos e, em minha opinião, é um dos melhores da TV brasileira; Vitrine, Roda Viva, os maravilhosos documentários feitos pelo pessoal da Cultura (como o sobre o Centro de São Paulo e a cultura popular nordestina) e tantos outros.

Quanto à questão de a TV pública poder ou não ser patrocinada pela iniciativa privada, minha opinião é favorável, especialmente se isso vier a melhorar a qualidade programação e ajudar a manter em seus quadros profissionais de alto nível, que quando começam a se destacar passam a ser assediados pelas emissoras privadas.

Não obstante esse ponto de vista, acho apenas que deve a televisão pública se resguardar do assédio pernicioso do mercado e da mídia. Acho que isso pode ser feito através um tipo de regulamentação interna, que proteja a qualidade, e da criação de conselho formado por profissionais e membros da sociedade civil, capazes de cuidar do cumprimento dessas regras.

Creio ainda que não há nenhum problema de a TV veicular propagandas não-institucionais, desde que de produtos de reconhecida qualidade, não relacionados a fumo, bebidas alcoólicas, remédios etc. O importante é que TV pública não venda seus valores, e sim a qualidade de sua programação. Ganham todos: anunciantes, a TV Cultura e nós telespectadores. Por isso, todo o meu apoio a essa "revolução" que vocês estão fazendo na televisão brasileira.

Edilene Barros, Belém

 

Pobre Brasil 500 anos

Pelo menos duas ou três vezes por semana visito as páginas do O.I., e tenho tirado muito proveito. Faço Jornalismo na Universidade de Caxias do Sul (RS). Tenho lido na imprensa gaúcha muita gente escrever bobagem. Não necessita ser jornalista para escrever qualquer coisa, certo? Estes dias, estava pensando na campanha da "Rede Globo Brasil 500 anos" e resolvi escrever o seguinte: a campanha está mexendo com todo o país. Terá o Brasil alguma coisa para comemorar? Na minha modesta opinião, não. Somos hoje mais de 160 milhões de brasileiros. Estamos envoltos em cinturões de miséria, milhares de trabalhadores desempregados, outros tantos subempregados, pessoas recém-formadas disputando vaga em limpeza.

Nosso país está jogado às traças. Não temos sequer um governo que veja o que se passa – e não só no Planalto Central, mas em todo o país. Estamos nas mãos de um tal de FMI que não tem compromisso com o povo, mas com os governantes, que solicitam empréstimos volumosos para pagar o que já estão devendo a outros e dão o sangue do povo em troca.

Passamos por um 1Ί de maio muito triste. O presidente teve a coragem de nos presentear com R$ 6 de aumento no salário mínimo, que ironicamente nem os caixas eletrônicos têm condições de repassar aos que lá apanham seu dinheiro, por trabalharem apenas com notas de R$ 100, R$ 50 e R$ 10. Perderam o respeito pelos cidadãos deste país.

Temos problemas na agricultura – quando temos uma das maiores colheitas de grãos algum "gênio" resolve importar trigo da Argentina. Temos também as CPIs, que certamente terminarão em "pizza", que eu espero dê para muita gente comer. Tem também a filantropia retirada das universidades, e estas, por falta de opção, repassaram o custo aos alunos. Senti no próprio bolso. Aliás, meu pai sentiu, pois também estou desempregado. Tudo isto parece muito pessimista, mas é um fiel retrato de um Brasil deixado de lado pelos que pretendem mostrar apenas as festas e esconder o podre que está tomando conta de tudo.

Quem sabe se quando tivermos uma população feliz, bem-alimentada, educada, aí sim, poderemos comemorar alguma coisa, só espero que não seja o Brasil 1000 anos.

Eduardo Soares dos Santos, Caxias do Sul, RS

 

Desnacionalização da língua

Interessante o artigo de Marcos Santarrita intitulado "A imprensa como agente de desnacionalização da língua", publicado no O. I. Permito-me divergir de suas conclusões. É certo que a imprensa e os nossos desinformados jornalistas deixam-se emprenhar pelos ouvidos por não serem versados em línguas estrangeiras. Isto, aliado ao secular complexo de colônia, com obrigação de seguir a metrópole, cria distorções propícias aos neologismos inventados pelos nossos tecnocratas. Entretanto, o articulista claudica ao atribuir à imprensa a imensa influência do inglês em nosso vocabulário. São incontáveis os exemplo de palavras francesas e inglesas incorporadas ao nosso vernáculo por influência estrangeira, o que no meu tempo se chamava galicismo e anglicismo.

Algumas, como "forró", "silipa", "siribim" "vagão", são bem antigas. Outras aparecem todos os dias com a informática, como "deletar", "resetar" "attachar" "updatar", todas horrorosas. O jornal inventou o "copidesque" e o anglicismo ficou. Aliás, o intercâmbio entre línguas tem mão e contramão. "Arigatô" japonês vem do "obrigado" português. "Bistro" francês vem do russo, bem como "cravate" vem do croácio. Na França atual, a legislação pune severamente o uso [em nomes de lojas etc.] de palavras vindas de outras línguas. No Quebec canadense, um dos pontos de discórdia política é o uso do inglês numa população preponderantemente francófona.

No caso da nossa ekipe ekonômica, na minha opinião, o uso de palavras e expressões inglesas mal traduzidas se deve à necessidade que tem todo economista de se expressar numa linguagem ininteligível para os profanos. O ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central são versados em inglês, que para eles é primeiro idioma, pois residiram muitos anos nos Estados Unidos. Assim, preferem um linguajar que agrade a seus antigos patrões e embaralhe a compreensão dos leigos. Observe-se, entretanto, como atenuante, que o uso de termos secretos não é prerrogativa dos economistas. Os advogados sapecam impunemente "pacto fidejussório", "casamento nuncupativo", "evicção de direitos" e "repetição de indébito" para valorizar a sua prosódia. O mesmo acontece com os médicos, ao discutirem "fibrilação atrial", "PMD" e ao chamarem cabelo de "tricoma".

Vaidade das vaidades, dizia o pregador, tudo é vaidade.

Carlos Araújo

 

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