Edição de Marinilda Carvalho
Onde a vida vale menos
Meu nome é Marcelo Morais, sou estudante de Ciências Sociais na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e estou escrevendo para fazer uma observação e uma indagação a respeito do destaque diferenciado que a grande imprensa nacional dá a certas tragédias internacionais, em comparação com as tragédias brasileiras.
Aqui no Rio Grande do Norte, na desconhecida cidade de São Gonçalo do Amarante, aproximadamente dois anos atrás um ex-soldado enlouquecido matou 18 pessoas sem o menor motivo e depois foi assassinado. O destaque que esta barbaridade ganhou em nível nacional foi um curto espaço nos telejornais e na imprensa escrita. Em algumas retrospectivas do ano o fato não foi sequer mencionado.
Será porque as pessoas que morreram eram humildes? Assim como as pessoas que morreram na hemodiálise em Caruaru? Que foi destaque sim, mas hoje ninguém lembra mais. Quando ocorre algo semelhante no exterior, a "tragédia" ganha outro tom, um destaque bem mais prolongdado e um tom de comoção maior comparado ao das "chacinas" brasileiras, que são mais freqüentes mas não causam mais espanto, viraram banalidade. A notícia surge e é esquecida rapidamente, a não ser quando se trata de um caso como o do Edifício Palace II, ou quando uma estudante de classe média alta de São Paulo é morta a tiros num ambiente mais sofisticado (caso do Bar Bodega), ou ainda quando uma atriz famosa como Daniela Perez é brutalmente assassinada.
O tratamento é diferenciado mesmo.
Não quero dizer que as tragédias do exterior ou a das pessoas do Palace não mereçam destaque. É claro que merecem, acho todos esses fatos que citei igualmente bárbaros e revoltantes. O que questiono na imprensa é o tratamento diferenciado, como se a vida não tivesse o mesmo valor.
Marcelo Morais de Oliveira, Natal
Conflitos de interesse
Infelizmente não tenho podido assistir a todos os magníficos Observatórios pela TV Cultura. Não sei se já foram abordados os dois temas implícitos em minha comunicação com a "ombuds" da Folha:
1. A promiscuidade inerente à "modernidade" – jornais deixaram de ser apenas jornais, pertencem (todos?) a conglomerados econômicos com multiplicidade de interesses em agricultura, indústria, comércio e serviços.
2. O relacionamento dos "ombuds" com a fala do trono, representada nos editoriais [ver abaixo editorial Covas na Internet e a carta-resposta publicada no Painel do Leitor, da Folha]. Abraços,
José Carvalheiro
Alberto Dines comenta: Seria ótimo se todos os que reclamam dos jornais ou discutem com os ombudsman nos mandassem suas queixas. (A. D.)
Carta à Folha
Prezada ombuds,
As revistas científicas mais sérias estão exigindo de seus colaboradores uma declaração de que não existem "conflitos de interesse" para a publicação de seus artigos. Visam especialmente os trabalhos de ensaios clínicos patrocinados por empresas farmacêuticas, o que coloca em dúvida a autonomia do pesquisador na análise dos resultados. As agências financiadoras de pesquisa exigem o mesmo dos seus parceiristas ad hoc, para evitar julgamentos movidos por sentimentos alheios à natureza científica dos projetos.
Gostaria que nossa ombuds comentasse o editorial de 4 de setembro, a resposta do governador e a Nota da Redação. Mando os anexos, embora seja desnecessário.
Num caso como esse, premido por exigência ética, o editorialista não deveria deixar claro o conflito entre a empresa que é dona do jornal e a decisão do governo? Vale para qualquer outra notícia. Como podemos acreditar nos editoriais?
José Carvalheiro, assinante
P.S. Vou encaminhar cópia ao Observatório da Imprensa.
"Covas e a Internet
Quando governos decidem oferecer áreas públicas para exploração por empresas privadas ou distribuir concessões de serviços públicos, a primeira providência é organizar um processo que assegure igualdade de condições a todos os interessados em disputá-las. O governo paulista, no entanto, dá a entender que esse princípio da administração pública não se aplica ao novo mundo da economia eletrônica ou virtual.
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e uma empresa de prestação de serviços na Internet firmaram uma parceria que permitirá a oferta de acessos para escolas paulistas (quase 5.000 conexões). O objetivo é oferecer e-mail (correio eletrônico) gratuito a 6 milhões de alunos.
Talvez não haja outras empresas interessadas em oferecer e-mail gratuito em troca do cadastro de alunos paulistas. Talvez. Não consta que a Secretaria da Educação tenha feito uma consulta pública sobre o assunto. Ou uma licitação. Apenas se anunciou o ‘acordo’ entre uma empresa privada e a secretaria de Estado.
Ora, qualquer analista de mercado sabe que o valor das empresas na Internet é uma decorrência natural do tamanho do seu público. Como qualquer mídia, o valor de anúncios depende do tamanho da audiência.
Ou seja, mesmo que a empresa esteja oferecendo o serviço e os acessos gratuitamente, o governo paulista está contribuindo para rentabilizar um projeto empresarial privado.
É compreensível que os governantes tenham pressa na informatização das escolas. Mas a urgência do desafio não deve comprometer a prudência e equidade, como já ocorreu em outros casos de afã modernizador.
Os novos mercados eletrônicos ainda não têm leis ou regulação desenvolvidos. É um domínio que prima pela rapidez. Mas também nesse caso a velocidade, além de inimiga da perfeição, pode colocar em risco a boa gestão não apenas de recursos, mas do próprio espaço público."
"Covas e a Internet", copyright Folha de S. Paulo, 4/9/99
"Desconhecimento
No editorial Covas na Internet, publicado em 4/9, a Folha revela desconhecimento a respeito do trabalho de informatização que estamos realizando para modernizar a rede pública de ensino do estado de São Paulo.
A busca de apoio em parceiros da iniciativa privada foi sempre uma constante em nosso governo. Essa regra foi confirmada quando tratamos de informatizar as áreas administrativas de 6.000 escolas e garantir laboratórios de informática para 2.500 delas.
Para tanto, o secretário-adjunto da Secretaria da Educação, Hubert Alqueres, esteve nos escritórios do provedor Universo Online (UOL), do Grupo Folha/Abril, no dia 19 de janeiro, quando manteve uma reunião com o sr. Caio Túlio Costa, diretor-geral dessa empresa.
Algumas semanas depois, a Secretaria da Educação recebeu uma proposta do diretor-geral do UOL, fixando o preço de R$ 22 por mês para cada assinatura de acesso, o que significava o custo de R$ 1,32 milhão ao ano para 5.000 acessos – número correspondente aos alunos da rede pública com capacidade para operar a rede Internet.
Ocorre que, no período entre a consulta ao sr. Caio Túlio Costa e a resposta, o provedor Zip Net, em contato com a Secretaria da Educação, se dispôs a fornecer, sem qualquer custo, 5.000 acessos para que os nossos estudantes possam navegar pelo mundo maravilhoso da Internet. Sem qualquer custo, vale repetir.
Mas não pára por aí. Em maio, a Secretaria da Educação voltou a conversar com o diretor-geral do UOL, desta vez para entendimentos sobre acessos à Internet para os Núcleos Regionais de Tecnologia Educacional. Mas, lamentavelmente, a direção do UOL reafirmou as suas condições anteriores de preço, destacando que era impossível reduzi-lo.
Fiel ao princípio deste governo de assegurar absoluta igualdade de condições a todos os interessados em concessões dentro do serviço público, a Secretaria da Educação, durante o processo de entendimento com a direção do UOL/Folha/Abril, manteve contato com vários provedores, tais como Zaz, SOL, Mandic, Dialdata etc. Para nossa satisfação, a Secretaria da Educação recebeu várias respostas afirmativas de provedores interessados em colaborar, fornecendo acesso gratuito à Internet para as escolas de São Paulo.
Assim foi com a Dialdata, que forneceu acesso para que as escolas estaduais pudessem participar do projeto ‘Brasil 500 Anos’. A Iconet forneceu acesso (sempre gratuito, vale ressaltar) para que as escolas estaduais do Vale do Paraíba usassem a rede Internet, o mesmo acontecendo com a Tantac, da região de São João da Boa Vista, e a Sanet, para que as escolas participassem do projeto Nações Unidas-Virtual.
Vale destacar que diversas parcerias com a iniciativa privada estão sendo desencadeadas, e todos que quiserem juntar-se a esse empreendimento voltado para o futuro de nossas crianças serão bem-vindos.
Intel, ZipNet, Dialdata, Amcham, Iconet, Escola do Futuro, Fundação Vanzolini, Microsoft, Positivo Informática, Educare, Sanet e muitas outras que estão trabalhando junto com a Secretaria da Educação apenas tiveram maior disposição em atender nosso chamamento em busca de parceiros.
É claro que também demonstraram grande senso de oportunidade para suas marcas, ao estabelecer parcerias socialmente tão justas. A escola pública ganhou muito com essa iniciativa: até agora conseguimos 6.000 acessos à Internet, numa estrutura que conta com 300 mil profissionais, entre diretores, supervisores de ensino, coordenadores pedagógicos, secretários de escola e professores.
Os trabalhos realizados em diversos projetos podem ser vistos no site da Secretaria da Educação <www.educacao.sp.gov.br>, e é estimulante o resultado do que foi construído por professores e seus alunos nos trabalhos Copa do Mundo, Viagem ao Sistema Solar, Direitos Humanos, Brasil 500 Anos e O Mundo da Informática.
Desta maneira, voltamos a insistir, a Secretaria da Educação sempre esteve, e continua, aberta a todos aqueles que quiserem tornar disponível para a rede estadual de ensino acesso gratuito à Internet. Deixar alunos e professores sem esse recurso é um atraso absolutamente incompreensível no atual estágio de desenvolvimento e de possibilidades abertas pela rede mundial.
Mário Covas, governador do Estado de São Paulo (São Paulo, SP)"
Aos deuses jornalistas
Por trás de cada fato publicado nos jornais, nas revistas ou na Internet pode haver um mundo desmoronando. O que para nós, meros leitores, serve apenas como informação (e levamos pouco tempo para nos atualizar diariamente e compreender o que ocorre ao nosso redor), para outros há uma eternização destes terríveis momentos que parecem jamais terminar. Fico a me questionar qual seria a verdadeira função de um profissional do jornalismo, que tem o poder, talvez dos deuses clássicos, de engrandecer cidadãos anônimos, quando os fatos assim o permitem; ao mesmo tempo em que podem destruir os sobreviventes deste caótico mundo.
Que poder é este que os jornalistas têm, capaz de entrar em nossas casas com fatos tão cruéis e, tão raramente, com algo próximo do humano que deveria existir em todos nós?
Não faço aqui uma crítica destrutiva, porque acredito no jornalismo e dele faço uso para compreender o momento e fazer uma projeção para o meu futuro. Tampouco minha crítica se estende aos jornalistas, porque neles acredito e, mais que tudo, acredito nos bons profissionais.
Quero saber um pouco mais a respeito das realizações grandiosas dos cidadãos brasileiros e do exterior, anônimos, que, certamente, são os que contribuem e muito com esta "máquina" que conhecemos com o nome de "mundo". Falta-me encontrar nestes meios de comunicação a humanidade.
Se o jornalismo realmente tem este poder dos deuses, gostaria de que lembrassem de nós, que estamos do outro lado da informação. Que trouxessem as boas realizações que esta humanidade ainda é capaz de executar. Fatos positivos e saudáveis para os nossos momentos de desânimo, que nos dêem força para continuar lutando. Que os jornalistas assumam, também, o papel de detetives a fim de encontrar estas estimulantes realizações da humanidade.
Gisele Novas
Aos jornalistas em geral
Não sei se já divulgaram neste Observatório, mas existe uma fundação muito interessante que promove oficinas para o aperfeiçoamento técnico e ético de jornalistas da América Latina. É a Fundación para un Nuevo Periodismo Ibero-Americano, fundada por Gabriel García Márquez em Cartagena, na Colômbia. Os temas variam de crônica jornalística e reportagem a cursos para editores sobre ética e cadernos especiais.
Participei de um desses no começo do ano que me enriqueceu bastante, fora a troca com profissionais de outros veículos e a discussão informal sobre imprensa que se dá nos corredores. Os cursos são abertos para qualquer jornalista que se interessar. Basta enviar os documentos requisitados para passar pela seleção deles (nada assustadora, avaliam currículo, idade, interesses etc.). As oficinas duram, geralmente, uma semana, e custam em torno de US$ 500, mais despesas de viagem (eles têm convênios com alguns hotéis), mas os veículos podem ajudar a bancar o desenvolvimento de seus profissionais
A oportunidade, embora um pouco salgada, talvez possa interessar aos colegas jornalistas em busca de aperfeiçoamento e questionamento da profissão. A página deles na Internet é <www.fnpi.org>, caso se interessem em divulgar.
Paula Pereira
Continuação do Caderno do Leitor
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