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Edição de Marinilda Carvalho
Censura!
Nos últimos três meses, conheci três casos de manifestações de pensamento barradas. Dois aconteceram com o professor de português e jornalista Hélio Consolaro, que escreve coluna no jornal Folha da Região, em Araçatuba, SP. A Justiça, em um ato de arbitrariedade, atendeu ações de políticos suspeitos e o sentenciou à prisão domiciliar, num caso, e ao sursis, em outro. Nesta semana, a Câmara dos Vereadores do município também o interpelou judicialmente sobre uma das suas crônicas. Consolaro escreve essas crônicas há mais de cinco anos, sempre denunciando o descaso das autoridades com o interesse da população.
Também nesta semana veio à tona a censura interposta a Alberto Dines. Pior do que o caso de Consolaro, porque pelo menos este teve suas crônicas publicadas. Dines foi impossibilitado de se expressar. É uma das conseqüências do corporativismo que reina no jornalismo brasileiro (se já não bastasse a exigência do diploma e outras ferramentas para se estabelecer o domínio sobre o pensamento público).
Quero protestar contra o ato da Folha de S. Paulo e pedir que Dines continue nessa luta contra os censores que querem calar os jornalistas de fé.
O poema abaixo foi enviado ao Consolaro e acho que serve a Dines neste momento difícil e a todos que foram calados à força. É um sacrilégio com a letra da Rita Lee, mas vale mais pela força.
Com a boca no mundo
Ah! Quantas vezes eles vão me perguntar?
Se você não faz nada, a não ser escrever,
a não ser denunciar, a opinar, a lhes aporrinhar?
Ah! Quantas vezes eles vão ter que responder?
Não há saída a não ser morrer!
Acho que isso não tem mais jeito,
o que fizeram foi falta de respeito,
foi tudo dito e feito, planejado.
Isso não é direito.
Mas, agora, meu amigo, não é
hora de a gente se esconder.
Você tem mais é que botar a boca no mundo,
como faz um tico-tico quando quer comer.
Ah! Essa fome é vontade de viver,
de falar o que não se fala, de falar
o que tudo mundo pensa e sabe
que é verdade, mas finge ver.
Nessa mídia, nesse movimento,
você sopra os quatro ventos,
pois sua pena é um instrumento,
e eles vão ter que lhe escutar!
Ah! não se preocupe com eles, meu amigo.
Eles nunca vão prender seus pensamentos,
pois essa melodia nunca vai morrer,
mesmo quando você parar de escrever!
Francisco Siqueira, jornalista
Crise nas empresas
Gostaria de fazer um comentário sobre a situação do SBT. Era um projeto altamente revolucionário no planejamento, mas que afundou na execução. O primeiro ponto louvável é que é um sistema, em oposição à rede, da Globo. Esta é centrífuga, está estruturada em produção central que se expande por todo o país. Já o sistema é orientado pela periferia, o que representa um modo diferente de se fazer televisão nacional.
A segunda estratégia importante do SBT é a estrutura organizacional, montada por um dos grandes economistas brasileiros, inclusive ex-presidente do Instituto Brasileiro dos Economistas Financeiros, de São Paulo. O organograma do SBT é muito mais complexo (no bom sentido) que o da Globo. Sílvio Santos, por exemplo, aparece em três lugares, como dono, programador e apresentador. Pela estrutura, ele era obrigado a negociar a verba que sua produtora (empresa independente) cobrava pela execução do programa. Esta estrutura está muito mais próxima de grandes empresas dinâmicas do que de empresas familiares.
Mas as duas estratégias fracassaram porque faltaram pessoas para executá-las. Seria necessário empregar profissionais dos meios artístico e jornalístico que conseguissem trabalhar com uma estrutura integrada, que relacionasse produção e a redação com as áreas administrativa e comercial. O que inclusive é muito mais avançado do que propõem os "consultores" da Universidade de Navarra e similares, para quem "integrar" significa castrar e "mercado" significa baixa qualidade, quando deveria significar qualificação.
O próprio SBT, logo depois da fundação, conseguia índices de 30% de audiência, com programas como O povo na TV, mas que afastavam os anunciantes. O que nem os 0900 da vida conseguem suprir economicamente.
Eduardo Refkalefsky, professor, coordenador do Curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ
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Leio no OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA a importante discussão a respeito da crise nas empresas jornalísticas, principalmente naquelas que não investiram em qualidade e optaram por continuar compactuando com o clientelismo vigente há tantas décadas. Hão de concordar os que me lêem que isso é, de certa feita, ótimo. Sim, porque no meio deste darwinismo jornalístico, publicações inúteis hão de ser relegadas a um merecido quinto plano. Mas isto é otimismo meu, um pensamento vazio de objetividade e análises puras. A bem da verdade, publicações menores, que só atendem a interesses políticos, perpetuar-se-ão (nossa, usei uma mesóclise!) em nossa cena, com crise ou sem crise, com crash ou sem crash, FMI queira ou não.
Enquanto isso, observo, como participante ativo, um outro tipo de darwinismo, este de macacos-pequenos: os jornalistas que entram no mercado de trabalho agora, que se digladiam feito primitivos por um lugar à página. Tenho pena de mim mesmo quando penso sobre este assunto. Porque, o que é o jornalista, ou aspirante a, hoje, caro leitor, se não mero executivo da informação? Um engravatado com as mãos sujas de tinta do papel jornal?
Tratados como tal que são, nas redações que se dizem modernas, com seus métodos de seleção uns mais ridículos que os outros. Joguinhos, testes de QE, maratonas de imbecilidade, tudo para caçar, dentre tantos, as melhores marionetes. Onde o talento, diga-me? Onde a qualidade do texto? A capacidade de análise? E até a capacidade de ironia, verborragia, humor etc., coisas que realmente fazem um jornalista? Há lugar, nestes testes infames, para um Millôr Fernandes, para um Gaspari da vida, para um Francis, et al? A longo prazo, a continuar assim, tenho certeza de que nosso jornalismo estará mais pobre. O texto cheio de lides sem sabor. Frases objetivas, secas, pasteurizadas, pré-moldadas.
O que sugiro? Como reconhecer um talento? São perguntas que me faço ainda. Espero contribuições. Enquanto isso, reproduzo aqui texto escrito à editora de treinamento da Folha de S. Paulo.
"Homo profissionalis
Há uma linha tênue, quase imperceptível, que delimita as fronteiras entre o ser humano, dito Homo sapiens, e o Homo profissionalis. A maioria das pessoas que hoje buscam um bom emprego, às vezes o primeiro de suas vidas, veste, sem pudor, a carapuça de Homo profissionalis. No Homo profissionalis não há o menor resquício de humanidade. São apenas seres prestadores de serviço, operários apertando parafusos em si mesmos para se encaixar no perfil do profissional do futuro - mas nem de longe são seres humanos natos. Quero dizer com isso que a maioria das pessoas que se submetem a testes de seleção questionáveis aparentemente não riem, não choram, não se desesperam, não se exultam, não tomam decisões sozinhos, não erram nem acertam - simplesmente porque a eles tais atitudes são vetadas. Os Homo profissionalis são, em análise, apenas livros de como-se- dar-bem-na-vida-profissional abertos na cabeceira de seus sonos perturbados pela competitividade. Suas aspirações existenciais se resumem a contracheques vultosos que lhe permitirão fugir do futuro apartamento de três quartos num bairro de classe média. Porque não são humanos e sim Homo profissionalis, não conseguem ver um palmo do que os rodeia. Mas vão iluminando o caminho montados em seus currículos extensos e apoiados pelas assessorias de recursos humanos, que se utilizam dos já citados testes de seleção (que uma dia já se chamaram psicotécnico, teste de Q.I., mas que hoje atendem pelo nome de dinâmica de grupo) para cada vez mais valorizarem o profissional em detrimento do humano, como se fosse possível separar as duas coisas.
O interessante é que as empresas são ao mesmo tempo vítimas e algozes, em se tratando dos seus processos seletivos. Falo da vigente tirania das dinâmicas de grupo, galgadas, em parte, na cultuada teoria da Inteligência Emocional. São vítimas porque, deslumbradas ante a perspectiva de terem em seus quadros profissionais cada vez mais eficientes, utilizam-se deste método para selecionar seus futuros funcionários, crentes de que estarão contratando o melhor material humano. Não desconfiam, porém, que a dinâmica de grupo exclui o quesito básico necessário para o sucesso: o talento.
Logicamente que falo de profissões que o exigem, como o jornalismo. E em assim sendo são também algozes, as empresas, uma vez que renegam, nesta era de parcos empregos, a oportunidade ao talento, ofuscando-o sob a pesada manta de sentimentos que qualquer ser humano carrega (raiva, ódio, ardor, desejo, empolgação, depressão, entusiasmo...) mas que são proibidos aos Homo profissionalis. O talento, hoje, não pode se exceder; tem de ser retilíneo, cego de si para si.
Podem argumentar os defensores desta "técnica" de seleção que o objetivo o é justamente encontrar o talento oculto sob todas essas camadas que formam o caráter do ser humano, ou melhor - já que não falamos de humanos natos -, do Homo profissionalis. Não percebem, tais avaliadores, que o candidato, diante da perspectiva da dinâmica de grupo, é ator. Sim, pois ele já conhece boa parte dos mecanismos das dinâmicas e, enquanto observado pelo psicólogo, mostra - ou tenta mostrar - ser o retrato, falso, da perfeição. É essencialmente Homo profissionalis, vislumbrando o número do crachá que lhe permitirá acesso à casa.
Questiono, com isso, a dinâmica de grupo destinada a escolher futuros jornalistas, ou seja, futuros formadores de opinião, por esta não conseguir, com suas brincadeiras levadas a sério, extrair do candidato o talento. Por exemplo, a capacidade de obter das ruas, extra-pauta, nuances que revelem ao leitor mais do que a simples notícia. A dinâmica de grupo não avalia a capacidade do jornalista de se aproximar do fato, seja ele de que natureza for, e trazê-lo humanizado ao leitor. Ora, de meros informantes já bastam os teleprompters.
Por fim, um dado a mais, tirado das páginas dos jornais e envolvendo, obviamente, jornalistas que são reconhecidamente seres humanos. Cito Paulo Francis, Millôr Fernandes, Carlos Heitor Cony, Ricardo Kotscho, Clóvis Rossi, Juca Kfouri, Matinas Susuki, Lucas Mendes, Luís Fernando Veríssimo. Uns assumidamente egoístas, individualistas, pessimistas, céticos, ácidos, ranzinzas; outros com um texto que foge aos rígidos padrões técnicos da apatia, ora literários, ora coloquiais; mas todos jornalistas de valor no mercado de trabalho. E se eles - exceção ao finado Paulo Francis - se submetessem a uma dessas dinâmicas de grupo para se manterem em seus postos? A menos que fingissem ou escondessem suas verdadeiras personalidades (suas possíveis falhas de caráter, seus arroubos egocêntricos, por exemplo) para depois do contrato assinado, desconfio que muitos seriam inadequados para a função."
Paulo Polzonoff Jr.
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Meu nome é Severino Goes, tenho 46 anos, 25 de profissão. Para resumir, fui diretor da sucursal da Agência Estado em Brasília, diretor por duas vezes da Gazeta Mercantil (Porto Alegre e São José dos Campos), chefe de redação do Jornal do Brasil em Brasília, entre outras atribuições. Atualmente, trabalho na consultoria política de Walder de Góes (não é meu parente) em Brasília, como consultor político e responsável pelas publicações semanais da empresa.
Tomei esse rumo depois de, ao longo de 1996 e 1997, ter trabalhado pela sexta vez, se a memória não me falha, na Gazeta Mercantil. A última experiência com tal empresa foi em Porto Alegre. Primeiro, como diretor regional, depois como editor-sênior da Gazeta Mercantil Latino-Americana. Minha relação profissional com a Gazeta foi de 20 anos, ou mais. Na última, consegui entender o que diz o mais recente artigo de Alberto Dines no OBSERVATÓRIO. Realmente, acho que a Abril saiu da negociação com a Gazeta depois de ver os buracos de nosso mais importante jornal de economia e finanças que, como Dines bem diz, cobra e cobra o governo pelo ajuste fiscal. Macaco, mostra teu rabo... Quando saí da Gazeta Mercantil Latino-Americana, também conhecida como semanário do Mercosul, meu Fundo de Garantia de meses foi depositado em um único dia, o mesmo do meu desligamento. Não sei de minha contribuição compulsória, porque descontada em folha, da Previdência.
Severino Goes
Controlar a mídia?
Nada contra a revelação da Folha de que o programa do Ratinho exibia histórias fictícias, utilizando desempregados como atores. Puro jornalismo investigativo e que merece aplausos. O próprio apresentador, segundo entrevista no Caderno São Paulo, página 14, do dia 22 de outubro, admite a fraude. Mas o que deve preocupar os ombudsman do Brasil é que o secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, entrou na jogada! Na mesma Folha, Ilustrada página 6, o secretário confessa estar preocupado com o nível do programa do Ratinho. Diz que programas do tipo ferem a dignidade e que devem ser discutidos com os donos de TV e a sociedade. E pergunta: "Será que o público só aceita peixe podre?" E nos tranqüiliza, dizendo que não pretende agir de forma compulsória, punindo as emissoras que exibem tais programas.
Ótimo, prezado secretário.
Por fim, o secretário nos comunica que o sucesso de shows como o do Ratinho é "fruto de uma classe emergente, que conseguiu comprar TV com o Plano Real e que está em fase de iniciação em televisão". Caramba, o homem, sem querer, fez propaganda do Real. Ele se esquece de que esses mesmos emergentes, iniciados em televisão, votaram em peso em FHC, que perde feio nas demais classes. E que o presidente conta com eles na hora das eleições. Como se vê, nem tudo é ruim com o emergente, eles servem na hora de votar, mas o secretário vem e os trata como se não prestassem para nada. Mas afinal onde quer chegar o ombudsman que vos escreve, perguntarão todos? Ele quer dizer que ainda não viu o secretário se preocupar com as novelas da Globo, que exibem cenas de violência e sexo às 20h, penetrando em milhões de residências desse Brasil.
Como apontou magistralmente José Arbex Jr. em Caros Amigos número 19, outubro de 1998, ao se referir ao poder da Globo: "Na televisão, a imagem se opõe ao pensamento, porque convida permanentemente o telespectador a identificar ‘a realidade’ com aquilo que ele vê, e o telespectador se sente confortável por ter um acesso tão direto, tão imediato ao mundo real". Essa mesma Globo pauta, com essas novelas, a vida e os costumes dos pobres emergentes que compraram aparelhos de televisão com o dinheiro do Real. E aí vem o que preocupa o leitor atento. Essas novelas não conseguem superar os índices de audiência do programa do Ratinho.
E, como todos sabem, as novelas são para a Globo a razão de viver. Ou seja, se o Ratinho não atrapalhasse a Globo seu programa não estaria fazendo mal ao Brasil. Seria de péssimo mau gosto, mas não seria perseguido e fuzilado. O secretário parece ignorar que o emergente que vê novela é praticamente o mesmo que vê o Ratinho, só que ultimamente anda preferindo outras baixarias. Mera escolha entre o real, sem trocadilho, e o fictício.
Portanto, prezado Gregori, aplausos para a sua iniciativa mas, só para nos desmentir - comece as suas conversas a partir das novelas da Globo.
José Rosa Filho
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Que o Ratinho apresenta farsas não há como negar nem condenar. O que eu estranho são as iniciativas para retirá-lo do ar por parte da Justiça. Nunca vi nada igual. Por que só Ratinho é perseguido? Será que ele é o único mal da televisão brasileira? E as manipulações de informação patrocinadas pela Rede Globo de Televisão? E o jabaculê, prática tão comum na qual se paga para ter um cantor, cantora ou conjunto ter o seu trabalho veiculado em programas musicais? Por que nenhum dos baluartes do direito nacional age contra essas praticas também? Se é para tomar alguma atitude, que se aproveite para fazer uma "limpeza" geral na televisão. Do modo como a coisa vem sendo conduzida, fica parecendo perseguição de ordem pessoal e dá munição ao apresentador para contra-atacar.
Agora, essas pessoas que se ofereceram para aparecer no programa do Ratinho em troca de dinheiro não devem ser tratadas como vítimas. Elas venderam a sua dignidade e sabiam muito bem o que estavam fazendo. O grande problema é que vão continuar sendo usadas.
Rodney Brocanelli
Mídia sob tiroteio, a saga continua
Meu nome é Joaquim Marcos, sou estudante de Propaganda e Marketing da Universidade Paulista, e minha pergunta é a seguinte: a respeito de mídia impressa, mais precisamente a respeito do lançamento da revista Época, na qual mais uma vez se vê a neutralidade das Organizações Globo, como podemos encarar este novo veículo e como podemos qualificar este público, que a priori não é o mesmo de programas como Ratinho Show ou Leão Livre, mas está tão alienado quanto o público destes chamados programas de baixo escalão? E por último, como podemos encarar as redes ligadas à educação, como o canal Futura: é uma saída boa ou é apenas uma procura pelo politicamente correto?
Não sou telespectador freqüente, pois estudo no período noturno, mas pelo que acompanho, o programa está muito bem dirigido e serve de exemplo para todos os outros programas. Engraçado, no mesmo momento em que vocês estavam debatendo, na Globo passava um Você decide, sobre gravidez, entre o filhinho que todos achavam que era gay e a empregada sempre discriminada. Mesmo com minha pouca experiência, posso dizer que uma coisa óbvia, vocês devem ter perdido no ibope, mas enquanto existirem, mesmo poucas pessoas assistindo, ainda existirá esperança no desenvolvimento do Brasil, e num futuro com mais educação.
Joaquim Marcos
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Enviei o seguinte e-mail à revista Caros Amigos: "Há muito tempo que venho querendo escrever a esta revista, a título de crítica. Desde que puseram Susanna Werner na capa, com seus vulgares olhos azuis. Ou até antes, quando começaram a ficar constrangedoras as manifestações de adoração desmedida ao MST. A bem da verdade, quando da elevação de Stedile à condição de intelectual-mor deste país, fiquei seriamente decepcionado. Não agüentei mais: era hora de dizer alguma coisa. Autocrítica, eis a palavra-chave. Como pretensamente livre, Caros Amigos esqueceu-se de nortear-se nesta liberdade, que julgo, ainda que num arroubo de otimismo, liberdade assistida. A falta de uma unidade na revista é de seus defeitos menores, já que a convivência entre idéias e temas tão diferentes mensalmente chega até a ser agradável. E até preferível à promiscuidade de idéias contraditórias do que edições que nada mais são do que rapapés ao MST.
Comecemos com Leo Gilson Ribeiro, "dono" de duas páginas da revista, intituladas Janelas Abertas, onde, com o perdão do termo chulo, entra qualquer merda. Leo Gilson Ribeiro tem o defeito mais comum dos jornalistas culturais deste país (e, a bem da verdade, de toda pessoa que se pretende culta): é de um pedantismo insuportável. Suas expressões em alemão, francês, espanhol, inglês, somaliano, tibetano, enfim, qualquer língua que sirva para mostrar seu domínio sobre todas as formas de arte chega a causar asco. Escrevesse melhor em português, esqueceria os outros idiomas. Além disso, Leo Gilson Ribeiro parece estar lendo demais, ouvindo demais, vendo a DW demais, e, com tanta coisa assim para "analisar", falta-lhe tempo para julgar com maior objetividade os livros, discos e programas que consome.
Enfermaria, por Milton Severiano, precisa urgentemente de uma enfermaria, de preferência psiquiátrica. Sua nota Filas ideológicas, da edição passada, é um verdadeiro lixo mental! Retrógrado e moralista, é mais sensato Milton Severiano escrever cartilhas de catecismo ou coisa que o valha, nunca textos jornalísticos. Tenho de admitir, porém, que sobrou sobriedade no texto sobre a jornalistinha de piercing. O que aconteceu neste texto, Milton? Escreveu-o bêbado de Biotônico Fontoura para ter ficado, subitamente, tão lúcido?
Eu preferia nem comentar a coluna Ocaso do Milênio, por Gilberto Vasconcellos. Com seus neologismos infames, de um Guimarães Rosa urbano de quinta categoria, Gilberto Vasconcellos deixa claro que pretende iludir seus leitores (idiotas, como eu, que pagam R$ 4, na esperança de um texto, um só, que traga de novo o prazer da leitura de Caros Amigos nº 1) com frasezinhas de efeito e pontuação "de vanguarda", além dos já citados neologismos asquerosos. Claríssima falta de talento mascarada.
Caros Amigos, tão independente, como pode ser assim tão subserviente ao MST, personificado no neomaoísta Stedile, e, mais recentemente, à bioenergética, com esse tal de Bautista Vidal? Pelo que pude observar, Caros Amigos agora entra num novo filão: o rap. Racionais MCs como novos ídolos de uma massa ignara (ah, que saudades de Sérgio Porto!), com pose de bad-boys, falando um idioma que não o nosso (pensando bem, é bom que maltratem o inglês e deixem nosso bom português de lado), incitando à violência e não raro ao uso de drogas, transformando bandidos em santos-sociais. Racionais não diziam que jamais se apresentariam na TV? Não dou muito tempo para vê-los no Faustão, Caros Amigos. Ainda assim vou bancar o otário aqui e pagar R$ 4 para ler o Verissimo, Ignácio de Loyola, Ana Miranda e, vez por outra, Forastieri. O que dá, numa conta rápida, um real por texto. E, de brinde, quem sabe, acabo levando uma entrevista boa, como a do José Trajano, Juca Kfouri, Tognolli e Milton Santos.
Claro, sei que esta carta jamais será publicada. Oxalá seja respondida. Sei também que vai contra os interesses de uma patota neoesquerdista que tenta, talvez por nostalgia, mas talvez por imbecilidade mesmo, ressuscitar um ideal que se mostrou fracassado, e o que é pior: este ideal em sua mais grotesca forma: a guerrilha e o maoísmo. Putz, quando é que a imprensa brasileira vai aprender que não é porque o cara foi torturado que ele é um gênio?! Que pau-de-arara não é atestado de genialidade? Que oposição não é sinônimo de fanatismo maoísta? Que o pensamento de esquerda, hoje em dia, é tão-somente produto de consumo, do mesmo calibre do maldito neoliberalismo, da globalização, et al?
Caros Amigos, aquele bebê de um ano na capa corre o risco de morrer mais cedo e entrar para a estatística da nossa absurda mortalidade infantil. Para a alegria de Stedile e sua patota somoterápica.
Positivo Es Contábil
Nota do O.I: O site da revista Caros Amigos <www.uol.com.br/carosamigos/> continua em manutenção.
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Sou psicóloga e, por viés profissional, estou sempre preocupada com o superficialismo do que leio, assisto, vejo, ouço. Em meu entender, quando se é superficial, duas coisas podem estar acontecendo: ou a pessoa em questão não sabe do que está falando, ou a pessoa está tentando esconder o que pensa. Nos dois casos, matérias superficiais em órgãos da imprensa são duplamente preocupantes: atingem um numero enorme de pessoas e são tomadas como verdadeiras.
Assim, a falta de seriedade com que se analisaram e se analisam dados na imprensa é, no mínimo, desonesta com o consumidor. Um exemplo (para fugir das eleições): "O Relatório Folha da Sexualidade Brasileira", publicado em 18/1/98, fazia análises sobre a sexualidade brasileira com base em dados estatísticos que, quando analisados, mostravam incompatibilidade com as conclusões tiradas pelos autores da matéria. Escrevi à Folha discutindo aquelas conclusões, contudo, não sei se foram consideradas.
As conclusões que jornais, rádios e TVs tiraram das pesquisas eleitorais também contêm erros, porque mal analisadas. Pergunto: seria possível concluir que os jornalistas não sabem do que estão falando/escrevendo/editando? Ou é possível que estejam escondendo o que pensam?
As entrevistas, principalmente com figuras consideradas importantes, são feitas de tal forma que o entrevistado é quem conduz a entrevista. E ao longo das respostas, mesmo que estas estejam recheadas de incoerências e falsas relações, o entrevistador r a r a m e n t e procura pela clareza. Pergunto novamente: isto é ingenuidade ou é esperteza? O consumidor de notícias está sem defesa. Após 30 anos de ditadura, quando se desmantelou o sistema de ensino público, a população perdeu parte de seus líderes e professores e foi sendo ensinada a não pensar. O resultado é este que observamos agora. Quanto teremos de lutar para voltar a pensar?
Como moradora do Distrito Federal há 35 anos, estou lamentando que todo um trabalho de educação para a vida esteja sendo desmantelado por um político populista. Mas compreendo que nós, classe média formadora de opinião, ainda estejamos no estágio de descobrir nossas próprias opiniões, Quem sabe, se, quando o conseguirmos, possamos desempenhar nosso papel, ao invés de apenas agitar as bandeiras durante as eleições e durante os quatro anos seguintes apenas conversar com os nossos próprios umbigos?
Vera Silva
Máfia dos CDs, o retorno
Só gostaria de fazer algumas observações sobre minha escala de valores ao Sr. Rodney Brocanelli, sem querer estender demasiadamente a polêmica sobre a Máfia dos CDs: como comprador quase compulsivo de discos sei que o preço é alto - em muitos casos - absurdo. Sei também que isso é decisivo para tornar a pirataria lucrativa. Só que a pirataria e o preço alto são dois pecados bem diferentes. Um, é crime sujeito às leis, em que é possível apontar o culpado e seus cúmplices de forma clara. O outro, um fenômeno que envolve uma série de fatores, custos, impostos, em que fica difícil apontar os níveis de responsabilidade. A culpa é de artistas, gravadora, comerciantes, dos impostos altos, das limitações à importação, da defasagem tecnológica etc. Cada um desses elementos tem um peso na equação do preço dos discos e acho que é isso que torna a questão um pouco mais complexa do que dizer que o preço do CD é imoral. Ok, muitas vezes é, mas nesse caso, o problema não é tão preto e branco quanto o da pirataria, que é roubo, e sobre isso não há discussão. De qualquer modo, espero que ninguém leve essa história para o lado pessoal: agradeço ao Sr. Brocanelli pelo abraço e ao OBSERVATÓRIO pela oportunidade de praticar o saudável e democrático esporte do debate, que anda meio em baixa nesse país. Atenciosamente,
Carlos Vasconcellos
Repatriem Roberto Campos
Roberto Campos (brasileiro?), intelectual que estudou em várias universidades americanas e foi presidente de várias empresas, além de ministro etc. etc. etc., parece que não mora no Brasil. Comecei a notar isso quando li com mais atenção seus artigos na Folha de S. Paulo. No artigo do dia 11 notei que o Sr. Roberto Campos, talvez ainda revoltado com a derrota para a vaga do Senado, fez uma primeira leitura do resultado das eleições no Rio, onde trata como processo "masoquista" a vitória das esquerdas, pela incapacidade do povo de aprender lições da história.
Ele tem razão. O povo não aprendeu lição alguma porque não tinha informações relativas ao caos recessivo do neoliberalismo na década de 80, que tomou conta de países de Primeiro Mundo, como Inglaterra e Estados Unidos (produzindo muita fome e desemprego), e que é representado no Brasil pelos partidos que apóiam o governo, incluindo o Sr. Roberto Campos. Se o povo soubesse a verdade o Brasil agora tinha um novo presidente.
Campos prega em seus artigos também a liberdade para o mercado, um mercado livre com a ajuda indispensável das multinacionais. Mal sabe ele que as multinacionais não deixam o mercado livre, elas fazem grandes oligopólios e monopólios em escala mundial para controlar o mundo, como no caso da Vale do Rio Doce, que Campos ressaltava em seu artigo do dia 19/10, como um "mito mineral" desnecessário, que agora pertence a um consórcio controlado por uma das duas empresas que dominam a mineração no mundo e compõem cartel mundial - determinando o preço de um produto primário de que toda a indústria mundial de autopeças precisa.
Era um mito desnecessário? Será que as empresas multinacionais que adquiriram empresas brasileiras, como as de eletrificação, renovarão seus contratos com os antigos parceiros brasileiros de produtos primários, ou obedecerão às diretrizes da matriz, mantendo parcerias de compra internacionais com seus parceiros globais?
Muita gente ainda vai perder o emprego, e nossa balança comercial vai ficar ainda mais negativa com a chegada dos produtos encomendados pelas multinacionais de energia brasileiras aos seus parceiros globais.
Campos, em seu artigo do dia 11/10, enfatiza como o empresário é uma criatura maravilhosa. Eu, que já estava preocupado em saber se Campos era acionista de alguma multinacional ou se na verdade ele tinha se acostumado tanto às escolas americanas que pensava como defensor dos Estados Unidos, fiquei com mais dúvidas ainda. Ele falou que o empresário, além de ser a coisa mais importante do mundo econômico, não discordo, era também um inventor de produtos. Sinceramente não sabia que além de administrar empresas eles ainda iam fabricar produtos nas horas vagas. Agora, mais do que nunca os trabalhadores foram relegados ao papel de simples máquinas, e os empresários elevados ao papel de figuras mais importantes e gênios inventores.
Esse verdadeiro culto aos empresários e às multinacionais (vale salientar que a esmagadora maioria das empresas multinacionais se concentra nos países de Primeiro Mundo) mostra o caráter antipovo e antiBrasil do Sr. Roberto Campos. Se essas idéias fossem defendidas nos Estados Unidos (que já destruiu parte da cartilha do Estado Mínimo com a eleição de um democrata), ele não teria a votação que teve no Brasil.
Concordo com ele, o povo não teve até agora a capacidade de aprender as lições da História.
Gleydson P. Albano, formado em História pela UFRN, professor-estagiário do estado

Crise nas empresas 1,
Crise nas empresas 2
e Crise nas empresas 3
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