Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição de Marinilda Carvalho

Falta memória

É justo empurrar para as costas da população mais uma taxa, ainda que sob o argumento de que o sacrifício de se desembolsar, no mínimo, mais R$ 2,50 é para uma boa causa? Melhorar a segurança, com uma polícia de Primeiro Mundo. Vendo por esse prisma, pode-se assim dizer, de boas intenções o inferno está cheio. Quantas outras causas justificariam para o povão abrir mão de R$ 2,50 mensais, cobrados em sua conta telefônica? Possibilitar às crianças melhores condições de educação, saúde, vida; criar empregos, para que seus pais possam ter dignidade. Essas poderiam ser algumas das muitas respostas. Mas há, e nem poderia ser diferente, o contra-argumento.

Constitucionalmente, é dever do Estado – nas suas esferas municipal, estadual e federal – garantir ao cidadão saúde, segurança e educação, para ficar só nessa trindade, e os contribuintes já pagam – e bem – por isso.

A proposta do secretário estadual de Segurança Pública paulista, Marco Vinício Petrelluzzi, com a anuência do governador Mário Covas, é só mais uma maneira criativa (?) de se tirar dinheiro do povo. Até por isso, a proposta, sabiamente colocada via imprensa à apreciação dos paulistas, como um balão de ensaio, não encontra respaldo entre os contribuintes. É o que aponta pesquisa feita na semana passada com leitores do jornal A Tribuna e ouvintes da Rádio Cultura. A maioria esmagadora deu um sonoro não à "boa intenção" do governo. Entre as justificativas para a negativa em arcar com mais esse ônus sabiamente apontaram as dúvidas sobre a efetiva utilização do montante que seria arrecadado. E justificaram a desconfiança com a irresponsabilidade do Governo, que desviou os recursos arrecadados com a CPMF, criada para melhorar a qualidade (?) da saúde.

Ao defender a criação do chamado imposto 190, o governador Mário Covas argumenta que se tal proposta não for aprovada a segurança continuará como está: "A melhor polícia do país, mas nunca será de Primeiro Mundo". Esta não é a primeira vez que o governador tenta impingir à população a conta de um serviço público. Recentemente, tentou sobretaxar as contas de luz para custear a TV do governo. O chacoalho dado pela população deveria servir para o governador reavaliar a situação e resolver os problemas de seu governo, ajustando suas próprias contas.

Paulo Reis Aruca, jornalista, Jales/SP

 

Caderno do leitor (alheio)

E-mail enviado a Zero Hora/Porto Alegre, sobre a "imparcialidade" do veículo.

Marco Mendonca

"Os dois socos da Zero Hora

Dentro da proposta publicitária da Zero Hora de se mostrar um veículo isento, gostaria que vocês comentassem o seguinte: 1) Recentemente, em resposta a uma provocação, um militante do PCB agrediu com um soco um filiado do PMDB na esquina democrática. Este fato foi noticiado na capa de ZH, na coluna do Barrionuevo, e rendeu inclusive um box da Rosane Oliveira, que começava assim "Quem bate perde a razão...", além de comentários durante dias em diversas rádios; 2) Ontem, um militante do PTB ou PMDB (?) agrediu com um soco um militante do PT na Câmara de Vereadores. Por que não houve nenhum comentário, nenhuma chamada na capa?! Por que nenhum radialista inconformado se manifestou? Qual a diferença jornalística entre os dois episódios?

Marco Mendonça

Resposta da jornalista

Prezado Marco,

Não tenho nenhum problema em te explicar nossos critérios para o espaço dado à agressão. Antes, porém, gostaria de lembrar que somente Zero Hora noticiou esta agressão e publicou a foto do rapaz agredido. Poderíamos ter optado pela foto das pessoas votando, do plenário cheio, da mesa composta de vereadores etc. A menos que Correio do Povo, Jornal do Commercio e Gazeta Sul tenham publicado a notícia em parte da edição (nos que eu recebo não vi uma linha), creio que somente ZH valorizou o assunto.

Por que o espaço foi esse e não maior? 1. Não conseguimos identificar os agressores. Nossa repórter se preocupou em acompanhar os rapazes agredidos no registro da queixa e quando voltou à Câmara para tentar identificar os agressores não conseguiu. Você supõe que são do PTB ou do PMDB. Pode ser do PPB, do PFL, do PSDB... Ou um mal-educado sem filiação partidária, talvez. Não podemos fazer suposições no jornal. 2. O episódio aconteceu tarde para os nossos padrões de fechamento. Quando a foto chegou, a primeira edição já estava rodando. Substituímos a foto da reunião de Candiota por essa, que era mais atual e mais interessante. 3. Estávamos com o jornal bastante apertado hoje. Tanto que assuntos que eu considerava merecedores de mais espaço, como a conclusão do IPM do Riocentro, com o indiciamento do general Newton Cruz, e a aprovação do aumento do Imposto de Renda, que entraram tarde, acabaram sacrificados. 4. A minha coluna eu normalmente escrevo sobre o assunto da abertura. E isso tem que ser cedo. Se não escolhi abordar essa reunião na abertura foi por achar que ela não tem a importância da contribuição dos inativos – e a pesquisa que mostra a rejeição da sociedade me parecia muito mais relevante. 5. Não posso responder pelas emissoras de rádio da RBS, nem pela Página 10. Minha área de atuação aqui se limita à editoria de política e aos meus próprios textos. Espero ter esclarecido as suas dúvidas. Um abraço,

Rosane de Oliveira

PS. Pra você ver como é árdua a tarefa de editar e definir espaços: você me cobra porque acha que demos pouco destaque à agressão. Encontrei o deputado Cézar Busatto num seminário hoje pela manhã e ele me cobrou por dar pouco destaque ao Fórum Democrático. Disse que reuniram mais de 600 pessoas na Câmara para discutir o orçamento do Estado pela primeira vez "e a Zero Hora só deu destaque à agressão de um militante". Vou guardar as reclamações de vocês de recordação."

xxx

Enviei o e-mail abaixo à Folha.

Lúcia Mendez

"Sempre estou aporrinhando-a com observações de "tropeços", porém agora é para indagar da veracidade ‘ou se entendi direitinho’ a notícia publicada no domingo, dia 17/10, fls. A8: "A atriz acompanhou quase toda palestra do ex-ministro na Universidade de Harvard, sentada no chão, na frente da primeira fila de cadeiras" – não que eu duvide da Folha, porém há que se considerar que pode haver dedos sagazes bailando sobre teclados inescrupulosos. Que elegância fenomenal da pré-canditada a primeira-dama! Quem diria?! Quem, no mundo, poderia imaginar que o Brasil poderá ter uma primeira- dama desse naipe?! Tão desbravada! Será o estilo "Quem Tem Globo Tem Tudo" fazendo escola até no mais alto escalão do Planalto?! Creio que não há na história uma primeira-dama que se expôs de corpo e alma no vídeo nem que tenha tanto agregado o espírito de uma sua personagem. Há?! Houve?! Perdão. Desconheço. Quiçá nem a "sem terra desnuda" tivesse tal vulgar comportamento.

Resposta da jornalista

Agradeço suas críticas à reportagem da Folha. Entretanto recebi a confirmação de que, de fato, a atriz acompanhou a palestra da maneira relatada. Atenciosamente,

Renata Lo Prete – Ombudsman"

 

A demissão de Katia Suman

Não existe nada mais contrário à plena liberdade de imprensa do que um órgão de imprensa; qualquer órgão de imprensa. Com a mesma garra com que divulgam detalhes da vida e dos problemas de pessoas físicas e jurídicas envolvidas em qualquer questão de interesse público, jornais, rádios e TVs fecham-se sobre seus próprios problemas. Nem falo, aqui, sobre as grandes crises econômicas, como a que levou a Caldas Júnior original à bancarrota, ou, há menos tempo, fez um importante executivo de outro grupo local (gostaram do eufemismo?) jogar um relógio de ouro contra a parede, depois de ter sido reduzido de tubarão a lambari por um grande grupo internacional. Nem falo disto. Fico, como exemplo, no caso, menor (em termos de repercussão econômica, salvo para o envolvido), da demissão de profissionais. No dia 8 de abril de 1981 eu mesmo protagonizei um caso destes. Trabalhava, então, no Correio do Povo. Tinha mais de 14 anos de casa, era subeditor de variedades (dizia-se "artes", na época), escrevia crônicas, críticas de cinema, de música, comentários sobre discos, trabalhava, enfim, como um condenado.

Naquela manhã, estava na redação quando, às 10h, fui chamado ao setor de recursos humanos (dizia-se "departamento de pessoal", na época) e comunicado por um colega morto de vergonha que, a partir daquele momento, estava dispensado, demitido. Estava sendo posto na rua. Sem explicações, nem comentários.

Assim, a partir do dia seguinte, meus leitores – e eu tinha alguns – não me acharam mais nas páginas do jornal. Sem qualquer explicação, sumi. Passei a não existir. A série de reportagens sobre agrotóxicos que estava publicando ficou interrompida, os lançamentos seguintes de cinema não tiveram minha opinião, e o leitor não foi informado de nada. Pelo menos até doze meses depois, quando fui reintegrado pela Justiça do Trabalho e voltei para as mesmas funções. Mas não vem ao caso. O que se discute, aqui, é a postura de evidente desrespeito jornalístico do veículo de então a seu público. Nem falo do respeito devido ao profissional dispensado, mas ao público.

Algo muito parecido aconteceu quando em outubro a Ipanema FM, rádio do grupo Bandeirantes, demitiu Katia Suman. Parecido, porém mais grave, já que Katia era, há 16 anos, a cara e a voz da Ipanema. No caso, houve até um aviso, lido por uma colega tão encabulada quanto aquele que, há 18 anos, comunicou minha demissão. Mas foi só. A ninguém, da direção da Bandeirantes, pareceu incomodar a verdadeira comoção que se criou nos circuitos jovem e cultural da cidade à medida em que a notícia se espalhava, meio em tom de boato, meio em tom de fofoca, sempre seguido de espanto: a Ipanema demitiu Katia Suman.

Como assim? Pode a Igreja demitir o papa? Pode o governo demitir o presidente? Podem? Até podem, mas vão ter que explicar muito bem explicadinho o porquê. Porque existem certas coisas tão entranhadas que não podem ser dissociadas a fórceps sob o risco da morte de ambas. Katia e a Ipanema eram uma coisa só, para o bom e para o ruim, nas qualidades e defeitos. E a rádio, até onde eu saiba, não operava no vermelho, o que, nos dias que correm, é muito mais do que a maioria pode dizer. Então, para romper este vínculo, é preciso apresentar razões muito fortes. Nos programas esportivos da Bandeirantes especula-se, e muito, sobre as razões da saída de qualquer jogador de futebol de um time de segunda categoria. A vida do jogador, as razões do clube, a situação de ambos, tudo é bisbilhotado até os limites da inconveniência, e o que não é sabido, é especulado. Como, então, a diretora de uma das mais populares rádios de Porto Alegre é defenestrada sem que o público saiba as razões? Não pode. Por que a transparência jornalística vale para o mundo, menos para os jornais, rádios e TVs?

Não é caso único. Um ex-diretor de um jornal da cidade, certa vez, mergulhou nas águas fétidas do arroio Ipiranga, com carro e amante, e ninguém divulgou nada. Caia você, lá dentro, para ver se no dia seguinte sua foto não estará nos jornais. E alguém ficou sabendo quais os critérios usados por Augusto Nunes, quando assumiu a editoria de Zero Hora, para demitir um monte de gente? Ou, tempos depois, por que Zero Hora resolveu demitir Augusto Nunes? Por que Flávio Alcaraz Gomes foi demitido da Gaúcha? Por que Tânia Carvalho, durante o governo Collares, passou longa temporada escondida das câmaras da TVE, onde trabalhava? É comum, este pacto de silêncio dos veículos sobre os problemas dos seus – como dizem – co-irmãos.

A própria Katia Suman, na tarde de domingo, estava tranqüila ao comentar o assunto por telefone. Disse que a demissão faz parte do jogo em qualquer empresa privada, que contrata ou demite quem quiser. Confessando-se comovida com as manifestações de solidariedade, disse que estas, em grande parte, devem ser creditadas ao fato de que, ao longo dos 16 anos em que trabalhou na Ipanema, sua identidade ter se misturado muito com a da rádio, e vice-versa. Lembrou, ainda, que a Ipanema é uma rádio caracterizada pela alegria e a espontaneidade do pessoal que lá trabalha, todos livres para se expressar e, no caso dos apresentadores, montar suas próprias programações, livres de grades pré-estabelecidas. Lembrou que, numa faixa (as rádios FMs) onde o que predomina é a mesmice, a Ipanema é uma alternativa marcante.

Sem rancor e sem agressividade, contou que na quinta-feira, quando saiu do estúdio, foi chamada para conversar com "um gerente". Este, após um rápido discurso, no qual explicou haver planos de mudança para a rádio, comunicou-lhe que estava dispensada. Chocada, ela só conseguiu perguntar "quando", ao que ele respondeu: "A partir de agora."

Ela foi até sua sala, juntou suas coisas, e só quando já estava no carro, saindo do estacionamento, percebeu que não sabia o porquê da dispensa. Voltou e falou com o gerente por telefone. Depois de mais um rápido discurso (exigência dos cursos de qualidade total, o comentário é meu) ele informou apenas: "Contenção de despesas."

Bobagem, é claro. Ninguém será ingênuo para ignorar que uma rádio como a Ipanema, completamente alternativa, dona de um público fiel cuja sintonia, sem chegar ao primeiro lugar, incomoda muito às FMs da mesmice, pode ser facilmente enquadrada numa empresa como a Bandeirantes. Na tarde de sábado, houve uma festa do Dia da Criança na empresa. Quase nenhum diretor apareceu. Entre os presentes, o ambiente era de medo. Conta-se que baixou de São Paulo um novo gerente, que nada conhece (nem quereria conhecer) das características do Sul, e cuja função seria "enxugar despesas", ou seja, demitir gente. Independente das simpatias ou antipatias por Katia dos colegas presentes à festa, todos eram unânimes em reconhecer que, "se até ela foi", o pescoço de todos poderia estar na guilhotina. Em paralelo corria o boato, certamente infundado, de que por trás de tudo estaria a mão da RBS.

Procurado durante sábado e domingo, Bira Valdez, diretor da Bandeirantes no Sul, não pôde ser encontrado. Acusado por muitos de ter sido o mandante da demissão de Katia, Bira pode ter sido apenas o executor de uma ordem, ou nem isso. Não se sabe. Nada se sabe. O que nos leva de volta ao início deste texto: "Não existe nada mais contrário à plena liberdade de imprensa do que um órgão de imprensa; qualquer órgão de imprensa."

Enquanto boa parte da cidade discute o caso Katia, nas rodas de bar, nas conversas de amigos, no Bric da Redenção, nas salas de espera de cinemas e teatros, nas listas de discussão aqui na Internet, a Bandeirantes e os outros órgãos de imprensa calam. Daqui a uns tempos o Jornal do Sindicato certamente publicará a história, mas é um jornal para um público fechado, restrito.

Onde estão, nesta hora, os defensores da liberdade de imprensa? Onde estão, agora, os empresários, editores e repórteres que gostam de publicar as verdades e fantasias sobre o que acontece em outros lugares? Será que pelo menos o , ou o Jornal da UFRGS, independentes, tocarão no assunto? A demissão de Katia Suman, goste-se ou não dela, ouça-se ou não a Ipanema, é um assunto de primeira hora para o Rio Grande do Sul. Mexe com a rádio que é um dos ícones da juventude não-babaca e da contestação nos últimos anos.

Estão nos devendo uma explicação. Estão nos devendo matérias, reportagens e opiniões. O Baguete está, modestamente, fazendo a sua parte. Esperamos agora que, quem for jornalista, nos siga.

Ney Gastal

 




Continuação do Caderno do Leitor

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