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Edição de Marinilda Carvalho
JN vs. FARC
A Globo se aprimora
Nunca assisto ao Jornal Nacional da Rede Globo, mas quando soube que seria apresentada uma série de reportagens sobre as FARC [o maior grupo guerrilheiro da Colômbia], e como tenho interesse no assunto, resolvi assistir para ver no que dava. Num dia, antes de exibir a reportagem, o(a) apresentador(a) dizia algo como: "E veja ainda hoje como as FARC são financiadas pelo narcotráfico." Porém, ao passar a tal "reportagem", em algum momento, bem discretamente, eles diziam que não era bem assim, que a guerrilha apenas cobrava um imposto sobre a droga.
Em outro dia: "As FARC mantêm soldados do Exército num campo de concentração...". Isso foi dito mais de uma vez antes de a "reportagem" ser exibida. E novamente durante a "reportagem", bem tímidos, diziam que os soldados eram mantidos numa "espécie de campo de concentração". Intrigado e curioso para saber o porquê dessas diferenças entre as chamadas e a "reportagem", enviei e-mail à Globo, fazendo uma crítica a tudo isso que pude observar. A resposta me surpreendeu:
"Prezado Eduardo, é muito importante a sua participação, agradecemos o seu comentário para aprimorarmos cada vez mais os nossos serviços. Atenciosamente, A Equipe GLOBO.com."
Portanto, minha primeira sugestão para que a Globo aprimore cada vez mais os seus serviços é que respondam de acordo com o conteúdo os questionamentos de seus telespectadores. Assim, quem sabe, um dia poderei assistir a algum programa desta emissora sem ficar com os dois pés atrás.
Eduardo Zanete
LAÇOS DO CARTEL
FHC assim com a Globo
O poder da mídia não tem fim. O jornal Folha de S.Paulo estampou, em 24 de novembro de 2000, em primeira página, fotografia em que aparecem caminhando, lado a lado, o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e atores e diretores da TV Globo. Em matéria de Wilson Silveira e William França, no caderno Brasil, sob o título "Polêmica da novela Laços chega a FHC", ficamos sabendo que o presidente saiu de seus afazeres para ir almoçar, na residência do diretor-executivo da Rede Globo em Brasília, Antônio Drummond, localizada no Lago Sul. Fico imaginando o presidente indo almoçar na casa de um líder sindical, na periferia, para tratar do aumento do salário mínimo. Como diz Alberto Dines, a Globo quer provar, e vai acabar provando mais uma vez, que comigo ninguém pode.
E pode? Acho que não. Já dá pra ver o que vai acontecer com o juiz Siro Darlan, da 1ª Vara da Infância e da Adolescência do Rio. O importante é saber até aonde esse poder da Globo irá, a impressão é de que não terá fim, ou melhor, o fim será aquele de todos os impérios, a queda. Mas até lá muita coisa foi feita contra os destinos de nosso sofrido povo.
Substrato desse mesmo poder da Globo foi visto esta semana. Trata-se do reajuste salarial dos militares. Num Jornal Nacional da Globo esta semana foi feita uma matéria para dizer que a pensão de filhas solteiras de militares estava sendo extinta. Na matéria, ao final, aparece o ministro da Defesa, Geraldo Quintão, em corte rápido e seco, como que justificando a extinção. Palmas para a coragem do ministro, diriam os telespectadores menos atentos.
Parece que nem isso vai acabar acontecendo. É bom ler a respeito a coluna do excelente Janio de Freitas, na mesma Folha, caderno Brasil, página A-5. O que se quer demonstrar é que aquela matéria do Jornal Nacional estava preparando o campo para o que viria depois, ou seja, o reajuste salarial, reajuste esse que a gente então vai ter de engolir com prazer e ainda ficar com pena dos militares, já que eles pretendiam 30% e só receberão 25%! Enquanto isso, os funcionários públicos estão há cinco anos sem reajustes. E quando os funcionários falam nisso a Globo faz matéria para mostrar que é impossível dar aumento, a não ser que se cobre desconto dos pensionistas da Previdência, ou seja, uma miséria tal que o sujeito resolve ficar mesmo sem aumento e ir chupar um picolé de limão, sentado ao meio-fio (com a água do esgoto sob os pés descalços), chorando a sua sorte. É isso aí, com a Globo ninguém ainda pode.
José Rosa Filho
Falso controle
Parabéns a Alberto Dines pela precisão de raciocínio e conceituação da Globo, coitadinha, versus a "censura". Esse papo de que não há limite para nada já me encheu o saco. É uma ladainha mentirosa, manipulada, e acintosamente manipulada. Mas como o país está assim de zé mané, e muitos jornalistas bobocas prontos para puxarem o saco da Globo (de repente, arrumam uma boquinha lá), o fato é que criaram uma efervescência de sal de fruta num copinho de água. Eu que vivi como universitário o período de 68/72 repleto de Obans e Doi-Codis, e cansei de ver versos de Camões no Estadão e receitas de bolo no JT, posso dizer que censura nada tem a ver com uma determinação judicial que busca, no mínimo, estabelecer parâmetros, limites, como há em tudo na vida.
Sou publicitário, e nós mesmos criamos o Conar para nos auto-regulamentar. Ou seja: traçarmos nossos próprios limites. Mas pensa que foi indolor? Não foi, não. Na época estava assim de criador medíocre, daqueles que criam comerciais que vendem sopa para emagrecer e tônicos para crescer cabelo, reclamando que seus comerciais foram tirados do ar pelo "órgão de censura chamado Conar". Quer maior imbecilidade? Os carinhas queriam continuar mentindo, enganando. A gente pisou no freio para jogar uma linha ética, e os babacas se fizeram de vítimas da censura de outros publicitários. A mesma coisa que a Globo fez com seus funcionários, colocando a boca na sua orquestra de trombones. Eu fico muito p. da vida com isso porque uma novelinha xexelenta, sem talento, sem conteúdo (que saudades do Dias Gomes, que dava show de bola) que se segura com tramas sem inspiração, sai pela tangente quando alguém sinaliza que não se deve mijar na piscina, não se pode transar no banco do jardim etc.
Os carinhas da Globo e outros paspalhos (meu avô falava "paspalho" , é ótima a palavra) acham que são produtores de cultura, grandes romancistas e, em função disso, estão fora de qualquer limite. Realmente, só pode usufruir a liberdade plena e a ausência total de limites quem não tem ética. Só quem não tem ética pode se considerar realmente livre. Mas, fora os subletrados autores de novelas, quem mais quer ter a liberdade sem ética e sem limite?
Nélson Machado
Ignorância e bobagens
No feriado de 15/11 eu assisti a um pouco de televisão (canal aberto), e fiquei tonto com tanta bobagem. Uma pessoa disse na Rede TV! que o Ministério da Justiça era para prender o Lalau, e não censurar novela. A pessoa não só não conhece o papel do Ministério da Justiça, como também ignora que prender é com a polícia. Na mesma estação outro apresentador perguntou a um bispo-auxiliar da Arquidiocese do Rio por que a igreja não concorda com o que a sociedade quer [a propósito da proibição do cardeal-arcebispo de uso da capela da UFRJ, onde foram gravadas cenas de um casamento da novela da Globo].
Como é que pessoas sem informação sobre como funciona o Ministério da Justiça e o que é a igreja se acham no direito de falar de liberdade? Um terceiro invocou a Constituição e disse que a liberdade de expressão é garantida por lei. Ora, a lei restringe a liberdade de expressão, porque determina que racismo é crime. Se há limites para a liberdade de expressão, então não há liberdade total.
Não que eu queira que o racismo exista – e também não quero o nazismo e outras coisas. Em 23/11, um escritor num programa disse que em Portugal era proibida a pornografia durante o regime salazarista. Com a volta da democracia, após dois anos as pessoas já não se importavam.
De toda essa confusão penso que algumas coisas devem ser revistas, principalmente sobre sexo e violência. Vale lembrar que por causa de um desenho várias crianças no Japão. Em nome da liberdade de expressão (e porque essas coisas são reais), numa novela podem entrar temas como incesto, pedofilia, estupro, exploração infantil – e tudo isso acabar banalizado. O povo brasileiro aceita tudo muito passivamente, é parte de nossa cultura, e frases do tipo "rouba mas faz" nos dão um certo alívio frente à corrupção.
O escritor disse que a moral é maleável. Então eu posso perguntar, segundo esse raciocínio: por que roubo, assassínio etc., que existem desde o começo da história da humanidade, são considerados errados até hoje? Como exemplo de como o meio influi na formação cito dois fatos.
1) Uma criança numa sala de aula roubou um lápis de um coleguinha. Quando repreendida, disse: "Meu tio rouba e não vai preso."
2) Um menino de 11 anos conversando comigo disse um palavrão. Eu reclamei, e ele teimou que não era palavrão, porque todo mundo diz (talvez no convívio dele).
Quando a gente via cenas de violência, fome, exploração e outras coisas desse tipo nos jornais havia uma indignação, hoje tudo isso é normal e a maioria das pessoas comem com o prato diante da televisão. Essas cenas já não causam nada.
Mudando de assunto gostaria de comentar certas manias da imprensa em relação a pesquisas.
* No esporte: no início das Eliminatórias, alguns jornalistas diziam: "Se a competição terminasse agora..."; mas só vai terminar no ano que vem, e ainda é cedo para prognósticos;
* O mesmo vale para pesquisas eleitorais. Essa mania de dizer "se a eleição fosse agora"... mas a eleição seria em outubro, e no caso de segundo turno, em novembro. Não vejo razão alguma para este condicional. Por que não se limitar a dar os números e deixar o povo pensar por si só?
Claudio Aguiar Silva, Jacareí, SP
JORNALISMO ESPORTIVO
Melodrama e estatísticas
Jornalismo esportivo não combina muito com o melodrama. Mas parece que os meios de comunicação não entendem isso. Talvez eles achem que o público que acompanha o esporte é o mesmo que assiste às novelas mexicanas.
O melodrama, que sempre parece ridículo, nas coberturas esportivas fica pior ainda. Os exemplos mais tristes vemos na televisão, principalmente na Globo, pouco antes dos jogos ou no intervalo, mostrando como era tal jogador quando criança, a mãe emocionada dizendo como ele é bom filho. Tem sempre um jogador conversando com a mãe, tudo com muito choro e "eu te amo muito". Lembro de um jogo transmitido este ano, na véspera do Dia das Mães, em que no intervalo o zagueiro Kleber (que joga no Cruzeiro) conversava com a mãe ao vivo, de fone de ouvido e microfone. Uma choradeira danada. "Eu te amo muito"... buááá... "Você me ensinou" ... buááá... "Deus te ajude muito"... buááá...
O zagueiro, conhecido por seu porte físico de "quarda-roupa", foi usado pela mídia nesse espetáculo lacrimejante. E o canal de TV nem se lembrava que o jogador estava em meio a uma partida, e precisava estar concentrado.
Outra coisa de que o jornalismo esportivo precisa se livrar é da "síndrome das estatísticas". A mídia parece encantada com as pesquisas, e abusa principalmente no futebol. Futebol (com as paixões que ele representa) e estatística é uma mistura estranha. A Globo apresenta números do tipo "50% dos gols do time X foram feitos depois dos 20 minutos do segundo tempo". Entre os jornais, a campeã em estatística no futebol é a Folha de S. Paulo.
Jairo Faria Mendes
MST vs. FOLHA
Concordâncias e discordâncias
Meus cumprimentos pelo grande serviço prestado à cidadania. Vigiar quem nos vigia é tarefa necessária e difícil. Sou leitor assíduo do Observatório, e vibro com os textos bem escritos, especialmente os de Alberto Dines e Claudio Weber Abramo. Não sou do ramo, mas assim mesmo escrevi para manifestar minha discordância com a posição do Sr. Luiz Antônio Magalhães. Talvez tenha sido um pouco sarcástico na minha comparação (TRT e MST). A minha intervenção foi no sentido de alertar que o editor deixou transparecer uma simpatia pelo MST a pretexto de criticar a Folha. É claro que todos têm o direito de defender qualquer opinião, mas um editor-assistente do Observatório não pode dissimular sua real intenção. Deve ser claro e pronto. Quer defender o MST? Pois que o defenda. Agora, em pleno tiroteio sair com esta conversa de que é relevante para o leitor saber que o veículo utilizado na reportagem pertencia ao Incra é desviar-se do essencial.
Afinal, houve ou não malversação de recursos públicos? Ficar ciscando em volta do assunto só favorece o pretenso infrator. Não é possível que o leitor seja tão tolo em achar que a Folha produziria uma reportagem eticamente irrepreensível e, portanto, isenta se usasse um transporte próprio. Seria necessário descer a tal detalhe numa reportagem? O que dizer das grandes reportagens pacifistas durante a guerra do Vietnã em que a imprensa recebia todo apoio logístico dos americanos para poder alcançar o "front" e ainda assim denunciava as atrocidades cometidas pelos americanos?
Precisava publicar que o helicóptero, o hotel, a comida, a roupa etc. pertenciam à US Air Force? Convenhamos que seria um exagero. A cobertura jornalística deve navegar entre os acessórios e buscar o essencial. Cobrir um crime de esquartejamento dando ênfase ao fabricante da faca é desviar-se do essencial. Pois foi isto que o editor fez. No episódio do esquartejamento fotografou a fábrica de facas. A intenção subjacente do editor ficou tão evidente que até seus apoiadores (outras cartas) desviaram-se do assunto para criticar o governo. A editora Marinilda Carvalho ainda saiu em defesa do colega e, na falta de melhor argumento, resolveu desqualificar a minha crítica taxando-a de odiosa e rancorosa "como nos anos de chumbo".
Pois nos anos de chumbo, se quer saber, embora muito jovem, eu torcia contra o chumbo. Também não sou contra o MST quando seus objetivos sejam de pressionar pela reforma agrária. Discordo dos seus métodos (assassinatos, invasões, utilização de crianças como escudo, doutrinação marxista de crianças e tudo o mais que mentes antidemocráticas insistem em usar). Entenda esta crítica como uma contribuição para aumentar ainda mais o respeito de que o Observatório já desfruta. Até mesmo o editor-assistente está perdoado, porque a dissimulação pode ter sido um ato falho.
Nelson Cunha
A palavra é transparência
É impressionante como qualquer órgão de imprensa no Brasil acredita estar acima do bem e do mal, principalmente após conseguir uma maior credibilidade perante a opinião pública. Não se discute neste caso os aspectos legais da reportagem, mas sim que é moralmente discutível fazer-se uma reportagem sobre um litígio quando se é financiado por uma das partes, ainda mais quando se esconde isto do leitor.
O jornalista Josias de Souza não é nenhum "foca", muito pelo contrário, já tem história no jornalismo brasileiro, por isso mesmo já deve estar se considerando um novo "coronel". É bom este senhor se conscientizar de que não é pelo valor do "seu preço" que se mede imoralidade e corrupção. Ou se é íntegro ou não se é. A maioria de nossos políticos tem esta frase na ponta da língua quando é flagrada em situações constrangedoras.
Não sou a favor de algumas atitudes tomadas pelo MST, mas não podemos como cidadãos e democratas aceitar atitudes imorais de um jornal. Transparência é exigida de todo e qualquer órgão. Humildade também.
Welley Rezende da Silva Júnior
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Incra, Folha e (falta de) ética – Luiz Antonio Magalhães
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