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LÓGICA JABORIANA
Salada de Menem e Lula
Que a nossa grande imprensa é golpista, de fato já não se tem dúvida. Triste mesmo é ver que aqueles que poderiam usar o bom senso ventilam "opiniões valiosas" sabe-se lá baseadas em quê! Digo isso por não entender os comentários que faz Arnaldo Jabor para a Rádio CBN, todas as manhãs. Na segunda-feira, 25 de fevereiro, ele usou de todos os eufemismos possíveis para desqualificar o candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva. Até o dizer, numa dialética bem montada, que se o PT assumir pode ocorrer no Brasil o mesmo que na Argentina. Engraçado é o senhor Jabor não perceber que a Argentina só está do jeito que está não por culpa de "radicais" como Lula e o PT, e sim, por obra exclusiva de neoliberais como Serras e Roseanas, que ocupam o poder há anos no Brasil.
Afinal, o PT nunca esteve na Presidência, esteve? Como explicar que o Brasil se encontre nessa situação? Qualquer economista sensato atestaria o que estou dizendo. Querer comparar Raúl Alfonsín, Carlos Menem e Fernando De La Rúa com Lula é patético, típico de pessoas tendenciosas que usam sua posição na mídia para tentar influenciar os incautos. O que aconteceu na Argentina foi obra de gente que não tem o menor apego ao próprio povo e "cedeu" graciosamente o país aos interesses externos, ganhando em troca Ferraris e contas polpudas em bancos suíços, bem ao contrário do que prega a cartilha do PT. Mas a metralhadora do non sense jaboriano também comparou Lula ao presidente venezuelano Hugo Chávez, por causa da crise que vive aquele país. É mais ou menos como dizer que uma pessoa é corintiana e palmeirense ao mesmo tempo. Chávez e Menem são opostos diametralmente. Um tenta proteger o país dos especuladores internacionais (e por isso está sendo sabotado pelos grandes empresários e pela classe média, que é manipulada como no Brasil, e faz panelaço nas ruas pedindo sua renúncia), e o outro entregou a pátria aos que vêm de fora.
Na minha opinião, a intenção de Jabor é clara: "Deixa eu atirar pra todos os lados. Não precisa ter coerência no que digo, a maioria do povo é boba mesmo, não sabe distinguir o certo do errado. Basta eu associar o PT a algum país que esteja em crise, qualquer um, que o povo começa a morrer de medo de votar na esquerda. Mais ou menos como em 1989, quando se dizia que se ele assumisse todos iam ter de rachar as casas no meio pra dividir com os outros. Brasileiro é bobo mesmo, fácil de manipular..."
Parece ser essa a lógica jaboriana... que Deus nos ajude, pois com esse nível de imprensa o Brasil não melhora nunca. Ou será que Arnaldo Jabor tem alguma coisa pessoal contra a esquerda?
Pedro Ceto, Curitiba
LEITURAS DA FOLHA
Piruetas numéricas
Há muito que venho denunciando a constante manipulação de dados e informações feita pela cultuada Folha de S.Paulo. Agora temos um artigo que comprova a pirueta numérica e o contorcionismo circense usado pelo jornal para criar uma imagem ainda mais negativa da economia. Como diz o autor: "Mas o que mais me motivou é que vejo no Brasil uma tendência de carregar nas cores negativas, no jornalismo, na política, na academia e em outras esferas." Existe uma linha, que não é respeitada, entre a realidade (muitas vezes ruim) e o quadro que é necessário pintar. E, no caso, só pode haver duas razões. Motivos políticos que levam a Folha a exagerar no ruim quando se trata de governo federal ou no sensacionalismo. Exagerar no ruim apenas para dar maior destaque e vender mais. As duas opções são deletérias.
Renato Lima
Fazendo do ruim o pior
Roberto Macedo
Surpreendi-me ontem com a manchete principal da Folha de S. Paulo: "Renda do brasileiro cai pelo 3.º ano seguido." Ao lado, havia também um gráfico mostrando que, descontada a inflação, essa "renda do brasileiro" havia caído 5,5%, em 1999, 0,6%, em 2000, e 3,9%, em 2001. Minha surpresa veio do fato de que esses dados contrastam com os números da variação do Produto Interno Bruto (PIB) do País, que podem ser tomados como medida bastante aproximada da evolução da renda do País e de seus habitantes. A fonte é a mesma, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para ficar apenas nos últimos dois anos, também descontada a inflação, o PIB cresceu 4,2%, em 2000, e há a estimativa de que teria crescido cerca 1,8%, no ano passado, já sustentada por levantamentos preliminares do IBGE. Ambas as taxas superam a do crescimento populacional, hoje em torno de 1,4% ao ano. Nessas condições, o PIB por habitante teve crescimento positivo nesses dois anos.
Este jornal colocou também a notícia na primeira página, ainda que sem lhe dar o mesmo destaque. Contudo, a matéria interna seguiu essencialmente os mesmos termos da inicialmente citada. A ficha começou a cair quando vi referência a dados mensais, pensando comigo mesmo: não seriam dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que o IBGE realiza mensalmente nas seis regiões metropolitanas mais importantes do país?
Essas regiões, em torno das grandes capitais estaduais, são as de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife. Na Gazeta Mercantil, encontrei a confirmação de que estava na pista certa, reafirmada pela consulta ao próprio "site" do IBGE (www.ibge.gov.br). O mesmo jornal, contudo, também extrapolou, ainda que só na manchete, nestes termos:
"Desemprego no Brasil sobe para 6,8% em janeiro." Concordo que usar "nas seis regiões metropolitanas mais importantes" em lugar de "no Brasil" seria menos chamativo, além de difícil colocação no limitado espaço das manchetes.
Mas, tirando-se o "no Brasil" da manchete, ela poderia ser criticada como incompleta, mas não incorreta pelo que mostra a matéria.
O que houve, portanto, foi que uma notícia relativa a um determinado contexto – essas seis regiões metropolitanas – foi indevidamente extrapolada para o país como um todo. Tal extrapolação não se sustenta. Segundo o IBGE, nessas seis regiões havia em janeiro de 2002 uma população economicamente ativa, de gente ocupada ou desocupada, mas neste último caso procurando trabalho, de 18,6 milhões de habitantes, dos quais foram obtidos dados de rendimentos, entre outras informações.
Assim, da renda desse grupo extrapolou-se para a "renda do brasileiro". Esses brasileiros, segundo a mesma fonte, somaram 169,8 milhões no Censo de 2000. Mesmo que o interesse fosse só na PEA total, esta é muito maior que o conjunto da que vive nas regiões metropolitanas. O último dado que vi, o de 1999, mostrava uma PEA – só a ocupada – de 71,6 milhões de pessoas. Para este total ou para o conjunto da população, o PIB continua sendo um indicador mais adequado da evolução dos seus rendimentos.
Entre outras possíveis explicações para a diferença entre a variação do PIB por habitante e a do rendimento médio observado na PME e suas regiões, podem estar o diferente comportamento dos rendimentos fora delas, ao lado de tecnicalidades ligadas aos conceitos e procedimentos adotados no levantamento de dados num e noutro caso.
Se estou descendo a todos esses detalhes, uma razão vem do ofício. Já lecionei sobre essas tecnicalidades, e é inevitável o seu uso. Mas o que mais me motivou é que vejo no Brasil uma tendência de carregar nas cores negativas, no jornalismo, na política, na academia e em outras esferas. Vez por outra tenho mostrado isso nos meus artigos.
Longe de ver tudo cor-de-rosa. Ao contrário, a crítica ocupa boa parte de meus textos. Só acho que não é preciso exagerar no "baixo-astral". Como economista, lembro que isso contribui para agravar as próprias condições da economia, cujo desempenho é essencial para o bem-estar da população.
A economia roda com gente produzindo bens e serviços, de um lado, e consumindo e investindo, do outro. Por exemplo, uma escassez de energia na indústria ou de chuvas na agricultura pode atrapalhar as coisas pelo lado da produção ou da oferta. Já o lado do consumo ou do investimento, ou da demanda, é muito influenciado pelas condições psicológicas dos consumidores e investidores. O quanto vão investir e consumir, essencial para manter a economia em movimento, depende muito do quadro que contemplam no momento e da visão que têm do futuro. Diante de notícias ruins, tendem a reagir negativamente nas suas decisões, prejudicando a produção via retração da demanda.
Tanto assim é que há índices que procuram medir a confiança dos consumidores e as expectativas dos investidores. Ainda ontem, este jornal deu a seguinte notícia: "Cai a confiança do consumidor americano." Nos EUA, há um índice que a avalia e que ocupa grande espaço na imprensa quando é divulgado. A matéria diz que entre os fatores explicativos da queda estariam o caso Enron e o medo do desemprego. Com base nessa notícia, alguns analistas estão dizendo que é indicativa de que o fim da atual recessão nos EUA pode ser adiado.
Devagar, portanto, na escolha das cores dadas às notícias, a qual deve vir do exame preciso do que dizem números e fatos em que estão baseadas. O que já não é bom pode ficar pior, o que não convém, efetivamente, para todos os brasileiros e toda a sua renda. (Roberto Macedo, economista, é pesquisador da Fipe-USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. E-mail: roberto@macedo.com)
GLOBO NEWS
Roseana, a vitoriosa
Sou observador da imprensa e não pude deixar de perceber, a partir da nota publicada pela Globo News, transcrita abaixo, que o grupo Globo parece ter engrenado de vez na campanha em defesa da Roseana. Vejamos a matéria, de texto é incoerente: o título leva a entender justamente o contrário do que acaba por revelar o conteúdo: que Roseana obteve uma vitória apenas temporária.
"Roseana consegue primeira vitória na Justiça
Brasília e Palmas – Os advogados da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, conseguiram uma liminar no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (Brasília), que impede que os documentos apreendidos no escritório particular de Jorge Murad, marido da governadora, sejam remetidos a Tocantins, onde seriam examinados. O presidente do TRF, juiz Tourinho Neto, determinou que todos os objetos e documentos apreendidos ontem pela Polícia Federal (PF) sejam encaixotados e lacrados até uma decisão final do tribunal. Na prática, a liminar paralisa temporariamente as investigações do Ministério Público contra Murad.
A busca e apreensão no escritório particular de Jorge Murad, marido da governadora do Maranhão e pré-candidata do PFL à Presidência, Roseana Sarney, foi determinada a partir de uma investigação do Ministério Público (MP) sobre supostas irregularidades na utilização de recursos da Sudam para o projeto Nova Holanda, em Balsas, no Maranhão. O projeto foi orçado em R$ 32 milhões e as suspeitas são de superfaturamento. A empresa Linus, da qual Jorge Murad era sócio, era a proprietária da Nova Holanda, de acordo com a apuração do MP. Os procuradores também continuam a investigar a empresa Usimar, da Linus. (Ana Paula Macedo e Jaílton de Carvalho (enviado especial), do Globo)"
Por que primeira vitória? O Globo, provavelmente, tem certeza de que esta é apenas a primeira, pois outras virão... O repórter esquece, provavelmente, que existem suspeitas fortíssimas acerca da origem do dinheiro dos Sarney. Esquece também que existem denúncias, amplamente divulgadas, que dão conta de que Jorge Murad é testa-de-ferro para os Sarney, especialmente nos negócios escusos. Esquece-se também o desmemoriado repórter de que o juiz-plantonista que concedeu essa medida é o mesmo que decretou a libertação de Jader Barbalho, segundo a Folha Online. De qualquer forma a decisão do juiz é temporária, como a própria matéria acaba por reconhecer: "Na prática, a liminar paralisa temporariamente as investigações do Ministério Público contra Murad."
José Augusto M. de Andrade Júnior
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