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Edição de Marinilda Carvalho
Alguns leitores – e até colaboradores – esquecem às vezes de que o Observatório da Imprensa tem um foco, do qual não abre mão: a crítica da mídia. Muitos nos enviam textos sobre política, religião, economia, esquecendo deste nosso diferencial.
Nesta edição, as duas últimas cartas não tratam de mídia, mas de assuntos específicos. Estão publicadas, em respeito aos remetentes, mas com cortes.
Um leitor até afirma que o Observatório publica tudo o que aparece. Não publica, não, amigo: rejeitamos artigos sem foco na mídia, com defesa do ódio e com ofensas pessoais.
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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.
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OI NA TV NO SUL
De que verdade estamos falando?
Tchê, há coisas que sem atravessar o Mampituba (o rio que faz a fronteira com Santa Catarina na altura de Torres) e se instalar pelos pagos por um bom tempo não dá para entender... Tomara que o Geraldo Canali tenha um tempo para dar uma tréplica ao Alberto Dines no seu desconsolo em saber que o seu rebento OI na TV não é mais retransmitido pela TVE-RS. Começa assim a resposta do Alberto Dines: "A nota oficial emitida pela Fundação Piratini é um coquetel composto por engabelação, ocultação e inverdades". Bonitos os três adjetivos, já orientadores da leitura da réplica, de início.
Vou ficar só com o quesito sobre a verdade, porque é o semanticamente mais carregado. Ele diz: "Entre 9/2/99 e 24/8/99 o programa Observatório da Imprensa na TV foi transmitido DEZ vezes ao vivo dos estúdios da TVE-RS, em Porto Alegre, numa média de dois por mês [veja a lista abaixo]". Segue a lista.
Programas do Observatório com convidados gaúchos e transmitidos ao vivo dos estúdios da TVE-RS, com datas e nomes:
05/05/98 – Antonio Brito
19/05/98 – Elmar Bones
09/06/98 – Elmar Bones
14/07/98 – Marcelo Rech
15/09/98 – Marcelo Rech
13/10/98 – Ruy Osterman
09/02/99 – Carlos Alberto Kotecza
09/03/99 – José Antonio Pinheiro Machado
06/04/99 – Ruy Osterman
04/05/99 - Ruy Osterman
18/05/99 – Otto Bender
08/06/99 – Paulo Gasparotto
29/06/99 – Julio Redecker
13/07/99 – Pedro Simon
27/07/99 – Eduardo Bueno
24/08/99 – Omar Ferri
Com uma lista dessas, como é que o maragato não vai estrilar... Até dezembro de 1998, o Bambi (como jocosamente Crestani chama o ex-governador Antônio Britto) estava governando (sic!) o RS. Foi ele o primeiro convidado, como se pode ver pela lista acima. Depois se seguiram outros funcionários da RBS: o Rech e o Osterman. Mudou o governo e o programa continuou a ser transmitido pela TVE-RS. Nesses oito meses com o governo Olívio Dutra, não mudou a participação gaúcha do OI na TV: um livreiro (o Pinheiro Machado, que também aparece na RBS, com seu Anonimous Gourmet, dando dicas de culinária), um comentarista de futebol (o Osterman, da RBS, que é mais que isso, mas assim aparece na imprensa; também foi secretário de C&T no governo Simon), um colunista social (o Gasparotto), um escritor de livros de divulgação histórica (o Bueno, que acho que pode ser considerado um simpatizante do PT), dois políticos (o Redecker e o Simon, que não são do PT), um jornalista de imprensa alternativa (o Ferri) e dois outros que eu não conheço (o Bender e o Kotecza; desculpem-me).
É certo que o OI na TV pode escolher os convidados que quiser, mas quem conhece as profundas divisões políticas que temos no estado vai achar estranha (dos tempos históricos de chimangos e maragatos, ou de antes) a composição dos convidados. Se se olhar, por exemplo, os convidados dos programas regionais transmitidos pela TVE-RS notaremos uma composição mais plural. Quem sabe os amigos da TVE-RS podem indicar as grades...
De que verdade é essa que se fala, afinal?
E se a intenção é debater as televisões públicas e o perigo de que elas sirvam de braço político aos governos em exercício, eu lembro que as transmissões da TVE-SP feitas na ocasião do Fórum Social Mundial II e nas semanas seguintes foram lamentáveis, acolhendo muito mais as críticas feitas pela grande imprensa do que divulgando o que fora debatido durante o fórum. Será porque SP é governado por outra coloração partidária?
A conclusão a que chega Alberto Dines: "Considerando o sucesso do programa, sua isenção política e sua preocupação em examinar a mídia pelo ângulo do interesse público, fica evidente que a TVE-RS não está interessada na despolitização da crítica da mídia."
Ora, mas essa despolitização é seguida pela TVE-SP? Qual deve ser o papel de uma televisão pública em um governo de esquerda? Será o princípio da despolitização da crítica alguma coisa a ser seguido? O que existe de verdadeiro nesse princípio? Deixo as perguntas em suspenso para o debate.
Marcelo Eichler, Genebra
Os bicudos não se beijam
Tenho acompanhado muito tristemente a disputa de versões entre o OI e a TVE-RS sobre a não-veiculação do programa na estatal gaúcha. Penso que é muito raso, ao se anunciar o imbróglio, já se sair taxando o OI de "traidor da causa operária" e, ao mesmo tempo, do outro lado, de que o governo gaúcho seja "estalinista e autoritário". Parece que o nível dos debatedores não é este, mas no calor da disputa se rebaixam ao nível de seus verdadeiros inimigos – mútuo, diga-se.
O OI, me parece até aqui, tem tido postura limpa e faz o que ninguém faz por aí, e que é o sonho dos jornalistas românticos como eu: publica tudo o que aparece.
Na verdade, para nós que nos arvoramos de ter "a verdade", nos basta espaço para deixarmos nossas linhas, mesmo que compartilhado com nossos inimigos. Os argumentos se encarregariam de nos levar aos céus e os nossos inimigos, ao inferno. Penso, inclusive, ser muito salutar o OI publicar textos de gente que, sob aquela argumentação primorosa, se apresenta como vítima (Caso EJ), quando todos nós sabemos que isto não desvincula o referido cidadão das políticas neoliberais que privatizam, criam miséria e exclusão social. Este o verdadeiro crime de EJ. E para este o tribunal é outro.
O mesmo vale para Luís Milman, Jair Krischke & Cia. A propósito, belo xeque o de Milman na Fenaj. Estes questionamentos põem à prova nossos valores: os meus, os da Denise Mantovani, do Pedro Osório, do Garcez, companheiros de muitas lutas de ontem e de hoje. Milman, Krischke & Cia. têm postura positivista, na medida em que colocam seus interesses acima da luta de classes: defender os direitos humanos acima de cores partidárias, como quer Krischke, ou verdade jornalística sem cor ideológica, como quer Milman, é velho jogo da direita que esconde o verdadeiro furo da bala; tática que fragmenta a realidade e descompreende a totalidade, o nexo entre as coisas, a práxis conservadora ou revolucionária e a dialética da natureza.
Talvez esta disputa demonstre o quanto é dura a luta no terreno da institucionalidade, na sociedade oficial que o capitalismo nos impõe. Por isso vejam, amigos do OI, como é difícil aceitar um programa cujo principal convidado foi editor do principal jornal aqui no RS e que produziu este jornalismo execrável que combatemos aqui neste espaço. E, de posse da lista dos entrevistados fornecida por Alberto Dines, vejo que, em 13 programas, pelo menos oito trouxeram figurinhas carimbadas aqui no Sul. Sujeitos desde sempre comprometidos com aquela mesma política neoliberal de exclusão social. Alguns dos entrevistados não conheço e não quero cometer injustiças.
Bueno, entonces o que me parece é que o OI não é tão democrático assim na TV quanto o é na internet. Pelo menos é o que mostra a relação do Sr. Dines.
Amigos, aqui vivemos num cerco terrível. Temos a Prefeitura de Porto Alegre já há 13 anos, ganhamos o governo do estado em 98 e em 2000 ampliamos enormemente o número de prefeituras, vencendo em grandes cidades do interior, inclusive Pelotas, aquela com a qual Lula fez chacota e a mídia explorou à exaustão. Mas a mídia – toda ela – nos trata como se fossemos meia dúzia de malucos. E a mídia aí de cima faz coro com a daqui de baixo.
O que está em jogo, entendam, não é um site na internet ou uma estação de TV, mas um projeto para a humanidade. E este projeto exige a liberdade de crítica, o que às vezes acaba se voltando contra nós, expondo nossas fragilidades. De fato, a democracia é muito mais difícil de ser exercida do que a ditadura, o debate é muito mais cansativo do que o pensamento único. E a disputa de projetos vai muito além do jogo de palavras. Ela se processa na realidade, com homens e mulheres reais, que vivem e morrem por conta desta luta.
Agnaldo Charoy Dias, jornalista
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