07/10/2003 4/14

Envie para um amigo  Procure no arquivo

LIÇÕES DO CASO GUGU
A mídia se aproveita

É mais do que motivo de questionamentos o que a televisão faz com a sociedade. Talvez seja possível fazer isso porque a população não tem conhecimento sobre a mídia. E tem? Não. A única coisa que tem é a informação divulgada por esses mesmos veículos de comunicação. Conhecimento de verdade a maior parte não tem. A mídia então se aproveita da situação para transmitir qualquer coisa. Nada é alvo de questionamento. Ninguém mais sabe o que é real e o que é ficção. Notícias são direcionadas pela pauta e pela edição. Ficção e realidade se completam, são as duas faces de uma mesma moeda, e que mesmo querendo não se pode separar.

Michelle Nascimento Melo, estudante de Jornalismo, Vitória

 

A mídia é pornográfica

O sexo ganha mais abertura na propaganda, na mercadoria erótica e explícita. Pouca gente nota a mídia pornográfica nas entrevistas, nas tendências da moda, nos novos atores e atrizes, diretores, filmes. Isso merece debate!

Benjamim José Neto

 

Concordo, ma non troppo

Concordo com a matéria intitulada "Este debate não pode parar" no que diz respeito ao perigo que uma decisão como a que suspendeu a apresentação do programa do Gugu pode causar à sociedade brasileira. Entretanto, dizer, ou deixar subentendido nas entrelinhas da matéria, que a suspensão do programa é censura é muito mais agressivo ao princípio da democracia e uma ofensa à inteligência de todos os leitores.

Há, sim, o temor de que a punição imposta à emissora e ao apresentador sirva de fundamentação, de pano de fundo, por algum ditador de plantão que futuramente queira proibir a veiculação de determinadas matérias contrárias a seus ideais políticos e econômicos. Todavia, o paralelo traçado pelo jornalista Alberto Dines entre a ditadura que culminou no AI-5 e a sentença que penalizou Gugu e SBT não existe. É totalmente descabido. Não se pode comparar a decisão do Poder Judiciário – legitimamente constituído e que, na prestação da tutela jurisdicional do Estado, representa o absoluto estado democrático de direito – com atos institucionais impostos pelos ditadores das décadas de 60 e 70.

Vale lembrar que o Ministério Público não agiu em obediência a nenhum chefe do Executivo, nem do Legislativo ou de quem quer que seja, nem sequer agiu pelo clamor social, por mais arrepio que o programa Domingo Legal pôde causar a quem teve a infelicidade de o assistir. O MP apenas cumpriu a lei, idem o Judiciário. A única solução imediata de que estes órgãos dispunham para fazer frente a tamanha ilegalidade posta diante das câmeras. Outra coisa é tolher manifestações de pensamento contrárias a ideais políticos, religiosos e econômicos, como ocorre em alguns países e como semelhantemente ocorreu aqui, no passado. Não se pode considerar censório o ato emanado do Poder Judiciário legitimamente constituído que teve por fim coibir a apologia ao crime organizado e punir os responsáveis por isso. Responsáveis estes que visavam unicamente à audiência, ao lucro a qualquer custo.

Será que toda vez que o Judiciário, após ter sido regularmente invocado, tiver que punir alguém pela prática de um crime de imprensa ou de um crime comum mas que, direta ou indiretamente, tenha relação com a restrição de liberdade de expressão, deverá consultar um jornalista? Os brasileiros precisamos de menos pragmatismo. Temos que parar de idealizar órgãos reguladores, ou algo semelhante a isso, que não saem do papel justamente para favorecer a mídia eletrônica, que se cala diante desse debate e, enquanto isso, aproveita-se da fácil acessibilidade para ganhar trocados à custa da baixaria desenfreada e, agora, de mentiras que, além de fazerem apologia ao crime organizado, constituem crimes de imprensa. Que idéia foi subvertida? A sentença supostamente travestida de censura? Ou a matéria publicada no Observatório, travestida de debate?

Civaldes Pereira de Souza, funcionário público, São Paulo

 

Arbitrariedade antiga

Queria que vocês abordassem, até para alertar a sociedade que a nossa democracia não é lá tão democrata assim, o que aconteceu em setembro de 2000 na Universidade do Grande ABC, em Santo André. A edição número 8 do Jornal do Campus teve sua distribuição interrompida pela Reitoria e, se não bastasse, os exemplares foram queimados. Prática nazista, inquisitorial, não? A grande imprensa não tomou conhecimento do fato, como se ações arbitrárias só interessassem à sociedade se atingem apenas grandes instituições.

Gabriel Arcanjo Nogueira

 

Jornalismo mondo cane

Prudentia, a prudência é um ato virtuoso. O virtuoso age nem antes nem depois, mas naquele preciso momento. O ato prudente cria, portanto, um antes e um depois, justo como o autor observa. A prudência parece se encontrar desse modo do lado da ética, da ação, antes do que dos mores, da moral. Deve haver um tratado em algum lugar sobre o jornalismo mondo cane, posto que a película existe. Mesmo que não exista tal coisa, a literatura do Marquês de Sade e de Sacher Masoch exprimem a miserabilidade da existência humana, decerto não sua dramaticidade. A esta última reserva-se a antiga tragédia grega Édipo Rei.

O jornalismo mundo-cão contém boa dose de perversão. É que os usos e costumes da jovem democracia e da republica permitem que os limites do privado invadam o domínio do público sem nenhum pudor. Parece que uma das mais civilizadas civilizações, a italiana, passou e passa por momentos semelhantes aos que vivemos cá, nesta banda tórrida. De modo algum um evento televisivo ou jornalístico, mas a derrocada da Lei, o abandono ao mais nauseabundo jogo da mais-valia – em duas palavras, a violência e a corrupção no sabor da mais primitiva acumulação de capital.

Selvageria, rapinagem, pirataria seriam práticas miúdas frente à virulência dos grupos econômicos agindo como deveriam agir onde a Lei se afirma como destituída da... lei dos homens. Acordo simbólico, pacto fundando a sociabilidade na delimitação de fronteiras que, negando, afirma possibilidades outras. Linguagem gravada na escritura das Tábuas.

O imaginário televisivo detém, é certo e sólido, capacidade inimaginável de deformação de caráter, condutas, hábitos e desejos. Orbita em torno da TV todo o aparato para iniciar a cobiça, mover os desejos, por si próprio glamourizado. Ingenuidade crer que o jornalismo que, por definição é escrito, o jornalismo televisivo, que por definição é imagem, tornasse visível outra coisa senão a banalidade do mal que se encontra no núcleo da coisa pública: a corrupção dos corpos e espíritos.

Uma geração deverá se passar para que aconteça a concordância da Lei com a lei. De tal sorte que os filhos da experiência ditatorial concordem que a negação é necessária para quebrar, fraturar, furar as experiências imaginárias e suas aventuras editoriais, rompendo a lógica perversa. Nem mais nem menos legado do processo avassalador de introdução à modernidade onde antes havia o feudo coronelista e reinado dos bacharéis. Convivemos, parece, com ambos os mundos. Veremos.

Juan P. Pereira

Leia também

Tesoura togada ataca outra vez – Alberto Dines

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe