07/10/2003 9/14

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MÍDIA E TRANSGÊNICOS
Falso debate e medos

O paralelo com Marie Curie, no texto "Ciência e os limites da ignorância", de Maria Eugênia Carvalho Amaral, é interessante, mas inconclusivo. Ela morreu. Mas o que se conclui? Que ela não deveria ter trabalhado com radiação? Foi "punida" pela curiosidade, tal como o Dr. Frankenstein? Este paralelo também é interessante. No livro a criatura se torna um monstro não porque nasceu má. Ela era boa. Mas, abandonada pelo seu criador, se torna cruel. A questão no fundo para a sociedade é esta. A tecnologia dos OGM está aí. Rejeitá-la à própria sorte é que é deixá-la nas mãos exclusivas das grandes empresas. Adotá-la é que a tornará "controlável". E este é o grande dano da MP, que passa por cima de vários pontos como rotulagem, estudos ambientais etc. Aí é uma questão político-jurídica de legalizar o contrabando.

Voltando à Marie Curie, de fato ela morreu, como muitos outros morreram em decorrência de suas atividades. Na área de infectologia foram muitos que morreram lidando com o desconhecido. Mas o risco inerente à profissão existe em muitos casos: o médico está exposto a isso. Um piloto como Senna morreu em decorrência disto. Em compensação, os estudos com radiação salvam atualmente muitas vidas através da radioterapia. A proibição dos estudos com energia atômica teria impedido isto. Por outro lado pode-se argumentar que vidas teriam sido poupadas evitando-se a bomba atômica. Mas, infelizmente, as guerras teriam ocorrido de todo modo. Hiroxima e Nagasaki teriam ocorrido de outra forma. Pouco se fala, mas Tóquio foi devastada de modo equivalente com bombas incendiárias convencionais. Ser contrário à construção de bombas atômicas é uma posição mais do que razoável; é justa.

No caso dos OGMs se faz esta mistura e se cria um falso debate "científico". O único fato irrefutável é o de que, neste caso da soja, utilizar esta tecnologia para criar um alimento cuja única virtude é suportar doses maciças de herbicida vai na contramão do que se preconiza na área de segurança alimentar. Justamente se busca a produção de alimentos com o menor uso possível deste tipo de substância. Agora, há diversos usos desta tecnologia, mas também é certo que não é ela que solucionará a "fome do mundo", como dizem alguns. Usos mais razoáveis seriam o de melhorar o valor nutritivo de alimentos mais baratos e disponíveis destinados a certas faixas de população, alimentos especiais destinados à dieta de pessoas com restrições de alimentos, produção de medicamentos, soros e vacinas em volume maior e a custos reduzidos etc.

De algum modo, na medida em que a tecnologia vai resolvendo os problemas, a tendência da sociedade é esquecê-los e exigir garantias absolutas de segurança que são impossíveis de se oferecer. A vida é insegura e frágil por si. Há 60 anos, tempo de vida de uma pessoa, um corte no dedo, uma infecção de garganta poderia ser mortal. Morria-se de um corte infeccionado. Hoje, parte da sociedade esquece disso e se bate de forma histérica contra os antibióticos como se fossem monstros venenosos, quando a maioria deles, se causa algum problema, em regra é muito menor do que seu não-uso. Na realidade, a "medicina alternativa" existe justamente pela segurança oferecida pela medicina "ortodoxa". Porque, de um modo geral, estas terapias são utilizadas pelos que não têm problemas de saúde suficientemente graves ou por aqueles cujos problemas já são tão graves que buscam um último recurso.

Ernani Porto, professor-doutor da Esalq/USP

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Ciência e os limites da ignorância – Maria Eugênia Carvalho Amaral

 

Embrapa paralisada

"A atitude mais responsável, no Brasil, neste momento, é permitir que a Embrapa se envolva profundamente com a pesquisa de transgênicos". (Ulisses Capozzoli)

Prezado Ulisses, para que a Embrapa se envolva "profundamente" com a pesquisa de OGMs é necessário antes de tudo que o orçamento da Empresa volte aos patamares da época em que foi criada, em 1976. Hoje, com o corte de verbas para C&T e especialmente para a pesquisa agrícola, o que devemos esperar é o que dizem os 700 pesquisadores reunidos em Recife, transferindo porém a preocupação deles do campo jurídico para o econômico: "(...) Vem, desde 1998, paralisando o desenvolvimento científico e tecnológico da biotecnologia moderna no Brasil, levando à retração e ao redirecionamento, sobretudo, de pesquisas no campo da agrobiotecnologia." Isso é que acontecerá caso o governo Lula insista em cortar gastos justamente onde não deve: no desenvolvimento científico e tecnológico.

Eliana de Souza Lima, jornalista da Embrapa

 

"No confundas"

Esta interesante el articulo, toda una leccion de historia, pero no confundas biotecnologia con transgenicos. No juegues con nuestra inteligencia.

Hugo Carlos

 

ONGs xenófobas

A polêmica que criaram em torno dos transgênicos me sugere apenas duas questões: 1) Como as ONGs contrárias aos transgênicos evitarão que a própria natureza siga seu curso produzindo novas variedades de sementes mais adaptadas às mudanças climáticas que estão ocorrendo com ou sem a intervenção humana? 2) Como as companhias que vendem os transgênicos atualmente plantados (como a Monsanto, por exemplo) conseguirão deter a criação de empresas concorrentes ou evitar que as que já existem criem novas variedades de sementes para abocanhar uma fatia do mercado?

Acredito que a natureza é mais dinâmica do que imaginam as ONGs e os cientistas. Tenho a vaga impressão de que a concorrência econômica é seletiva e destrutiva o suficiente para evitar a formação de monopólios ad eternun et infinitun. Em razão disso não me deixo seduzir pela xenofobia que tomou conta dos defensores e detratores dos transgênicos. Os transgênicos fazem mal? Veremos... Enquanto isso não ocorrer tenho certeza de que muitos ongboys continuarão a correr de um lado para outro, apesar de as empresas petrolíferas serem monopolistas e de os combustíveis fósseis que movem seus carros e motos poluírem nosso meio ambiente.

Fábio de Oliveira

 

Sob os escombros

Sou muito a favor do desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil, e sem dúvida os transgênicos representam um grande passo para a implementação de ações mais efetivas na área. Mas ainda tenho dúvidas sobre a segurança alimentar que isso pode implicar. Talvez por ignorância, pois na verdade poucos sabem algo concreto sobre esses desconhecidos transgênicos; a exemplo de tudo que diz respeito a ciência e tecnologia no país, tudo está limitado à seleta comunidade científica. E quando a coisa toma relevância nacional transforma-se em aberração, como aconteceu com a Dolly e tantos outros novos experimentos. O importante é estarmos desarmados e desprovidos de conceitos pré-estabelecidos para estarmos abertos ao que pode ser benefício, e não simplesmente dizer não por fazer oposição. Acredito na verdade que deveríamos estudar mais um pouco sobre os transgênicos e, até que tenhamos certeza de seus efeitos (corrijam-me se já houver certezas quanto a isso), ficamos sob advertência para liberá-los para plantio no Brasil.

Mas contra sua utilização não sou, desde que estejamos cientes de seus efeitos. A questão é que a ciência deve estar mais ligada à sociedade para que conheçamos seus verdadeiros processos. Enquanto isso não ocorrer, eu, como milhões de brasileiros, vamos ou dizer não porque o senso comum o diz, ou ficar em cima do muro, que pode desabar a qualquer hora. E daí ficaremos nós aqui no subdesenvolvimento e sob os escombros, vendo o Primeiro Mundo com todo o seu desenvolvimento pela fresta de luz que nos restou. É pior do que olhar pelo buraco da fechadura!

Adyam Souza

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Agricultura, ciência e história – Ulisses Capozzoli

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