07/10/2003 11/14

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COBERTURA INTERNACIONAL
Uma dupla desastrosa

A "má-interpretação" de Andrew Gilligan, da BBC, sobre as informações de David Kelly não empanam a arrogância da dupla Bush-Blair em relação às catástrofes geradas pela "intervenção" no Iraque. As seqüelas que vêm vitimando a população iraquiana vão desde o não-reparo dos parcos serviços públicos básicos que se encontravam em estado crítico desde a aventura de Saddam no Kuwait e o ataque-resposta de Bush pai, referendado pelo mundo "civilizado" com os embargos que levaram à morte dezenas de milhares de crianças, como ocorre aqui em nosso país por "doenças da água", falta de medicamentos e vacinas, pois o Iraque foi jogado de volta ao século 17.

Os atores em cena, à exceção de Blair, são os mesmos: família Bush, Colin Powell, Donald Rumsfeld e seu inefável terno de listras, que o faz personagem perfeito da Família Adams, Dick Cheney, Condoleezza Rice et caterva, as empresas petrolíferas e agora sem qualquer pudor o saque da recuperação do pais em troca do petróleo feito pelas empresas capitaneadas pela Halliburton, que comporta interesses da alta cúpula governante.

Pouco importa se soldados que lá estão servindo se tornaram alvos da revolta popular e vêm sendo mortos aos magotes, um punhado a cada dia, pois os filhos da Casa Branca lá não estão. A exemplo do atual presidente que durante a Guerra do Vietnã foi confortável e discretamente colocado para servir à pátria na Texas Air Force, unidade de reserva da Guarda Nacional americana. A revolta dos soldados americanos e outros que lá estão e não têm voz é evidente e cada vez mais elevada pelo aumento do tempo de serviço que amplia as chances de virem a ser as próximas vítimas, e pelo número de feridos/mortos que cresce a cada dia.

Quando Orlando Letelier, ex-chanceler do governo Allende, foi assassinado em plena Washington pela Dina do regime pinochetista o assunto virou manchete, pois com ele foi vitimada sua secretária, Susana Moffit, americana, branca, e o atentado ocorreu em plena capital americana à luz do dia. Para surpresa dos investigadores, a conexão chilena era comandada por um agente americano; agora parece que a insanidade criada pelo sistema americano de dominação mundial se volta contra o criador, e o medo generalizou-se.

A generalização é de tal ordem que, ainda agora ao acessar a edição eletrônica do Washington Post, fui advertido de que meus dados seriam cadastrados no sistema de informações nacional; enfim criaram um verdadeiro inferno de dimensões planetárias onde muitos pagam pelas loucuras e ganâncias de uns poucos. Aliás, qual a novidade disso e qual a razão do meu espanto? Afinal de contas, que "suicídio" mais britanicamente conveniente, não?

Maximus Santiago

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O Gugu da Folha

Certos colunistas de jornal adoram adotar posição meio panfletária, com alguma defesa apaixonada de alguma ideologia ou teoria política. Alguns bradam verdadeiros manifestos estalinistas, outros escrevem discursos conservadores que lembram escritos da TFP. É um direito do colunista, apesar de muitos leitores não gostarem muito de abordagens mais radicais. Nelson Ascher, colunista da Folha, gosta de se encaixar no segundo time. Sionista ferveroso, adora demonstrar seu desprezo por árabes e esquerdistas. Nisso ele está em seu pleno direito.

O problema surge quando o sujeito passa a se valer de desonestidade intelectual para atacar desafetos. Em artigo do dia 29 de setembro, resolve atacar o palestino (radicado nos EUA) Edward Said, morto em 24/9. Said, professor de Literatura Comparada na Universidade de Colúmbia, era forte crítico de Israel e querido pela esquerda. Obviamente, não era infalível, como nenhum ser humano o é. No entanto, valer-se de sofismas e ataques sem nenhuma comprovação é sinal de jornalismo barato. Pior, de covardia, já que a pessoa a ser atacada está morta e não conta com parentes no país para processá-lo.

Ascher pinta o intelectual palestino como se ele fosse um anti-semita, que desejava a morte de todos os israelenses. Afirma: "Ainda assim, se bem que sua prosa evoque uma versão pós-moderna para o inglês de uma tradução desconstrucionista francesa dos delírios germânicos de algum epígono de Martin Heidegger, sua dança acadêmica dos sete véus, sobrepondo camadas de jargão marxista, antiimperialista e pós-colonial, jamais ocultou que seus objetivos eram idênticos". Heidegger, como se sabe, era simpatizante do Partido Nazista. Ou seja, afirma que Said era simpatizante do nazismo, que desejava a morte de todos os judeus, como os nazistas.

Em outro trecho, Ascher afirma que Said queria o extermínio de todos os israelenses. "E, embora sob eufemismos, como o da criação de um país binacional onde judeus e árabes convivessem democraticamente, ele continuasse acalentando o sonho maníaco de abolir Israel, exterminando-lhe os habitantes ‘não-nativos’, as verdadeiras vítimas de suas idéias foram antes seus conterrâneos, que ele ajudou a conduzir rumo a novos desastres". O que Ascher afirma nesses dois trechos do texto é sério, grave, deveria ser provado, coisa que o Sr. Ascher nem de longe consegue fazer.

Said estava longe de ser um anti-semita. Diz Robert Fisk em artigo publicado no diário britânico The Independent, no dia 26: "Ele (Said) freqüentemente apontava que estava recebendo um tratamento de excelência de um medico judeu e – apesar de todo o lixo que lhe é jogado por seus inimigos – ele sempre agradeceu a gentileza e a honra dos seus amigos judeus, entre os quais Daniel Barenboim (conhecido maestro e pianista israelense) era um dos maiores." Pobre Barenboim. Ele ainda não sabe que um dos seus melhores amigos (em vários artigos escritos pelo maestro Said é citado com as melhores palavras do mundo) queria matá-lo.

Muito se têm falado na farsa do programa do Gugu, que exibiu entrevista falsa. No entanto, será que inventar mentiras – com difamações irresponsáveis – como o Sr. Ascher faz é algo melhor do que isso? Será que a cobrança de ética deve ser exclusiva da TV? Que moral um jornal que publica um material assim tem de cobrar ética ou responsabilidade na televisão?

André Kenji de Sousa

 

Sucessão papal

A mídia agora está especulando sobre uma possível sucessão papal em breve, expondo preferências, possibilidades e tendências segundo os vaticanistas, ignorando entretanto, como sói acontecer na imprensa, o principal: as opiniões dos cardeais não passam de mera intenção de voto, pois, segundo o Magistério e a Tradição da Igreja, só quando os eleitores estiverem formalmente reunidos em Conclave serão inspirados pelo Espírito Santo a votar naquele que será o sucessor de Pedro, e não de João Paulo II.

Paulo Marcos Gomes Lustoza, capitão-de-mar-e-guerra da reserva, Rio de Janeiro

 

CRISE DE GESTÃO
Ineptos indispensáveis

Vão as empresas de mídia buscar dinheiro no BNDES e reafirmar sua independência em face de governos e partidos políticos, do mesmo modo que se ouvem na mídia as asserções acerca da inépcia governamental em face da eficiência da iniciativa privada que, entretanto, não abre mão da ajuda do governo incompetente mediante financiamentos obtidos em agências estatais de fomento. Não se trata da velha falácia conhecida como argumentum ad hominem, mas sim da demonstração da incompatibilidade da premissa da inépcia governamental se o inepto se mostra indispensável a auxiliar o presumivelmente apto. Somente isto, mais nada, é o que eu, como estudioso do tema, gostaria de compreender.

Ricardo Camargo

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