07/10/2003 14/14

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"MEDICINAS" ALTERNATIVAS
Resposta ao médico – 1

Agradeço os comentários e o tom elevado das críticas do Dr. Celio Levyman, em seu artigo sobre medicinas alternativas, a respeito das considerações que fiz à matéria do Dr. Francisco Wechsler. Embora reconheça que tenha me excedido em algumas passagens, não pretendi de nenhuma forma, em meu texto, aviltar a inteligência da categoria médica como um todo. Embora não seja um radical militante alternativo, não poderia aceitar passivamente as críticas assacadas contra as chamadas medicinas alternativas, particularmente da forma pejorativa como foram formuladas, tendo como alvo a homeopatia. Em relação ao artigo do Dr.Levyman, também não poderia deixar passar em branco algumas colocações que me parecem equivocadas e enumero a seguir:

1) Quando me referi às práticas mercadológicas dos grandes laboratórios multinacionais, que gastam mais em ações promocionais de seus produtos do que em pesquisa científica (matéria publicada pelo Wall Street Journal e reproduzida na Gazeta Mercantil), não mencionei "canetas ou bloquinhos de anotações" – os tais "afagos" ou brindes a que graciosamente se refere o Dr.Levyman – mas, sem faltar à verdade, poderia citar o verdadeiro cerco que essas grandes corporações farmacêuticas promovem a consultórios, clínicas e hospitais para reforçar a marca de seus produtos, com regalos que vão desde cursos de línguas para os filhos dos médicos, jóias para suas mulheres e até viagens a lugares paradisíacos, quando se trata do lançamento de um novo produto.

Como bem pondera o Dr. Levyman, o mínimo que se espera do médico é que saiba discernir entre o investimento promocional feito pelos laboratórios e a real eficácia dos medicamentos que ele vai receitar. Como não vivemos exatamente numa sociedade de anjos, mas que se move por interesses bem concretos, não seria exagerado inferir que os laboratórios que mais investem na promoção de seus produtos têm maior probabilidade de vender seus medicamentos. Contrariamente ao Dr.Levyman, acredito que precisamos politizar ainda mais essa discussão. (...)

2) O próprio Dr. Levyman reconhece que "em variadas universidades e instituições hospitalares do Hemisfério Norte há centros de estudo das chamadas terapias alternativas e complementares". Esse interesse se deve a algum poderoso lobby alternativo ou ao crescente interesse dos pacientes por tratamentos alternativos? O tal conforto psicológico maior a que se refere o Dr. Levyman talvez seja, apenas, em sua abalizada opinião, uma variável extremamente secundária a ser levada em conta no tratamento dos doentes.

3) O princípio bioético da autonomia ou, de forma mais explícita, o direito que tem o paciente de escolher o médico e a forma de tratamento, foi muito bem conceituado pelo Dr. Levyman. Mas, como já afirmei em meu comentário anterior, os médicos homeopatas, ao menos aqueles com quem convivo, não apenas respeitam esse princípio basilar da ética médica, como se mostram muito mais abertos à discussão, com outros médicos e com seus próprios pacientes, do que os especialistas alopatas. Coincidentemente, como no exemplo do Dr. Levyman, sofri um infarto, mesmo sem apresentar sintomas de doença coronariana, e o primeiro a me aconselhar a procurar um cardiologista foi meu médico homeopata.

4) Não tive o intuito de iniciar uma polêmica ao citar os dados sobre o número de pacientes que se tratam por métodos alternativos na Alemanha. Mas, não posso aceitar que o Dr. Levyman tome isso como pretexto para dizer que tanto lá como na Suíça "campeiam médicos que promovem charlatanismo sem precedentes". Não conheço o caso do cantor Bob Marley, portanto não posso opinar. Porém, o Dr. Levyman, até então educado e contido, diz com sarcasmo: "E o jornalista faz o favor de dizer que Hannehmann era alemão..." Por que esse questionamento? Ser alemão é um defeito? O formulador da homeopatia foi um sábio em seu tempo. Os princípios éticos pelos quais pautou sua vida, sua existência serena e modesta, servem até hoje de exemplo a todos os que pretendem exercer a medicina. Sua obra científica e sua biografia são altamente recomendáveis, sobretudo a esses que se dizem representantes de uma tal medicina responsável.

5) A insinuação de que "muitos médicos alemães ainda na ativa não compartilham das opiniões morais e éticas de seus colegas ocidentais" é de uma grosseria inominável. Como se houvesse hoje, nesse mundo tão conturbado, um único padrão moral universalmente aceito. Talvez o Dr. Levyman, em seu confortável e refrigerado consultório, ignore o que ocorre na periferia de São Paulo e de tantas cidades brasileiras, nesses verdadeiros depósitos de gente em que se transformaram os hospitais públicos e privados. Ou, ao contrário, talvez esteja tão consciente da natureza desses problemas que prefere encerrar-se ali, para se sentir mais protegido na companhia de suas certezas e da sua ciência.

Tive a experiência traumática de perder três entes queridos em hospitais. Não tiveram sequer a mínima chance do tal "conforto psicológico" de um tratamento alternativo. E confesso que as explicações oficiais que obtive dos médicos me deixaram moralmente ofendido. A Folha, na semana passada, relata casos de neurocirurgias para alteração de comportamento, realizadas em hospitais de Goiás. O repórter, ao entrevistar médica do setor neurocirúrgico no Hospital das Clínicas da USP, descobriu que existe ali "uma enxurrada (sic) de pedidos para cirurgias desse tipo". Lobotomia, em pleno século 21. Caro Dr. Levyman, talvez o senhor não precisasse exercitar sua acuidade buscando exemplos tão longe. O ovo da serpente não é privilégio da Alemanha nazista e por aqui mesmo há novos Mengele, alguns até brandindo códigos de ética. (...)

Ao enviar meus comentários não esperava provocar polêmica ou ofender a categoria médica, ou qualquer médico em particular. Diferentemente do que afirma o Dr. Levyman, não critico os céticos que não acreditam nas terapias alternativas. O que critico é a forma grosseira, até chula, que muitos desses céticos utilizam para atacar os métodos de tratamento alternativos. Na verdade, acho até que o foco da discussão deveria ser outro. Desarmados, despidos de preconceitos ou prevenções, deveríamos conversar civilizadamente sobre como as novas formas de conhecimento poderiam convergir para minorar o sofrimento humano. No entanto, confesso-me derrotado. Não pela argumentação que vem do outro lado, mas pela absoluta impossibilidade de diálogo, por essa necessidade de brandir títulos, diplomas, privilégios corporativos.

Orlando Maretti

 

Resposta ao médico – 2

O Dr. Bandarra mal esconde em suas palavras a nostalgia de seus antepassados, que provavelmente compactuavam com os severos inquisidores ibéricos, celebrantes de autos de fé que, invariavelmente, terminavam com a imolação dos que ousavam professar outras verdades que não aquelas aprovadas pelo império vaticano. Em nenhum momento, em meus escritos publicados neste sítio, pretendi saber mais medicina do que qualquer médico ou mais ciência do que qualquer PhD. Apenas me insurgi contra a forma grosseira e leviana com que a homeopatia foi atacada pelo engenheiro agrônomo Francisco S. Wechsler.

Aprendi com um amigo – também de origem lusitana e, coincidentemente, de nome Bandarra (Manoel) – que a busca da verdade prescinde de diplomas ou títulos enquadrados nas paredes de academias ou consultórios suntuosos. Dizia ele que assistíamos a uma interessante e grave transição, em que o culto religioso se transmutava no culto científico. Os celebrantes já não trajavam batinas ou sotainas, mas alvas batas e aventais; em lugar do crucifixo, as reluzentes logomarcas das multinacionais farmacêuticas, patrocinadoras da nova ordem religiosa. Em seu exercício de intolerância, o Dr. Bandarra falseia a verdade e faz afirmações absolutamente infundadas. O reconhecimento da homeopatia como especialidade médica não ocorre apenas no Brasil. O crescente interesse científico pela homeopatia faz com que muitas escolas de Medicina, em todo o mundo, incluam o ensino dos fundamentos descobertos pelo Dr. Samuel Hannemahnn em seus currículos. Se não houvesse comprovação científica dos conceitos homeopáticos, por que tanto interesse? Haveria um lobby internacional da homeopatia?

Porta-vozes enrustidos das multinacionais farmacêuticas, os seguidores desse estranho e obscuro movimento Medicina Responsável – um novo nome para o corporativismo trajado de branco – deveriam medir suas palavras em vez de tentar cercear a liberdade de expressão daqueles que defendem opiniões diferentes das suas.

Orlando Maretti

Leia também

Entre a autonomia e o paternalismo necessário – Celio Levyman

Nivelando por baixo – Paulo Bento Bandarra

Cinco falácias e um funeral – Francisco Stefano Wechsler

Arrogante – Caderno do Leitor

 

PÉSSIMO MARKETING
Os "prêmios" de Seleções

Seleções do Reader’s Digest tem feito ultimamente propaganda "quase enganosa": tudo não passa de um sorteio com ares de "sorte grande" – desde que o incauto faça a assinatura da revista. Enviei à revista a carta abaixo.

Rogério Camboim Silva de Almeida, Porto Alegre

Exclusão do cadastro de mala direta

Senhores, pela segunda vez recebi correspondência da Seleções do Reader’s Digest, oferecendo prêmios mirabolantes e fantásticos. Se não me falha a memória, no ano passado recebi correspondência semelhante em meu endereço profissional (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), o que causou-me embaraço adicional. Além do prêmio de 300 e poucos mil reais, entre os "prêmios especiais" eu concorreria a três prêmios-surpresa (a "raspadinha" que recebi, que supostamente poderia ter um, dois ou três prêmios, veio premiada com três prêmios). Além disso, o automóvel a que eu concorreria, entre as três opções possíveis, era por coincidência o mais caro (Audi). Quisera eu ter um décimo desta sorte quando apostasse na Mega-Sena !

Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e inteligência percebe que estas ofertas induzem pessoas desavisadas a acreditar que estão numa "maré de sorte". Isso é um duplo desrespeito. Primeiro, a quem recebe tais correspondências de qualidade duvidosa. Segundo, a vossos leitores, já que fica a impressão de que apenas débeis mentais lêem as Seleções, o que evidentemente não é a verdade. Respeito o conteúdo da revista, ainda que não concorde com ele. Contudo, discordo radicalmente da estratégia de marketing adotada.

Estava disposto a redigir uma imensa carta criticando as Seleções desde a estratégia equivocada de marketing, até a ideologia esperada de uma publicação oriunda da direita conservadora norte-americana (tive contato com Seleções em minha infância e, mesmo naquela época, eu já discernia características da linha editorial das quais eu discordava radicalmente). E, o mais importante, questionaria como os senhores obtêm nomes e endereços para envio de propaganda não-solicitada – a versão em papel do spam eletrônico. Como os senhores devem saber, não há nada mais irritante para um internauta do que spam. A atenuante, a vosso favor, é que eu poderia simplesmente jogar no lixo a propaganda em papel, ao contrário do que fiz.

Por sorte, pesquisei na internet sobre a revista, para que pudesse basear-me em argumentos sólidos para a redação de meu protesto. Encontrei dois sites que refletem em parte, embora não com a veemência que eu desejaria, minha opinião sobre a Seleções. Tomo a liberdade de transcrever parte dos sites abaixo, com os devidos links, para que eu não perca muito tempo em minha crítica. Isto posto, solicito a exclusão de meu nome e endereço residencial e profissional de vosso cadastro de "mala direta". Gostaria de não mais receber ofertas por parte da Seleções do Reader’s Digest. Grato pela atenção,

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