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GOVERNO LULA
A lógica da simplicidade
A lógica da simplicidade e franqueza utilizada por Lula e seus assessores mais próximos mostram uma nova maneira de informar à população sobre os verdadeiros problemas que o país e o mundo enfrenta, mas que os chefes de nação com auxílio dos meios de comunicação tratam com muita sofisticação e palavrório vazio e confuso. A conseqüência é imediata: revela que o rei está nu quando se tira o biombo dos discursos complicados e obscuros. Vejam três exemplos:
1) Durante a primeira visita aos EUA, já como presidente eleito, ao ser questionado sobre como seria seu relacionamento com os países comunistas, Lula surpreendeu e arrancou risos e aplausos dos representantes da mídia internacional ao responder que não conhecia muito a China, até os EUA a elegeram como seu mais importante parceiro comercial. Xeque!
2) Ao responder aos comentários da oposição da Venezuela – que, com apoio explícito dos EUA, quer porque quer tirar o presidente eleito, Hugo Chaves –, que o condenou por ter concordado em enviar meio bilhão de barris de gasolina àquele país amigo: há qualquer garantia de que as forças políticas, econômicas e militares, que hoje se enfrentam, acatarão o resultado de uma nova eleição, conforme exigência do grupo de oposição a Hugo Chaves? Os tribunais condenaram a estratégica greve dos petroleiros, mas a oposição não cumpre a sentença judicial e desafia o poder constituído. A Constituição da Venezuela prevê uma nova eleição extemporânea em nov/2003, mas a oposição não aceita. Quer a renúncia de Chaves. Conclusão: aceitará o resultado de nova eleição presidencial, desde que o eleito seja o seu candidato... E na imprensa ninguém consegue ver isso.
3) Ao comentar a repercussão do discurso de Palocci criticando o governo FHC: se a situação do país fosse boa, se tudo estivesse às mil maravilhas o povo não nos teria elegido! Fomos eleitos porque a situação atual, que vem sendo construída durantes oito longos anos, não é aceita pela maioria dos eleitores. Óbvio, não?
Os comentaristas e jornalistas precisam escrever menos e dizer mais.
José Renato M. de Almeida
Plenitude democrática
O locutor oficial da posse de Lula afirmava, pomposamente, como exigia o momento, que aquele evento era a constatação de que estávamos vivendo a plenitude democrática. Em nada este fato destoava das palavras do presidente do Senado e das do presidente empossado, bem como dos comentários de profissionais da mídia que cobriam o evento. Não me foi possível assistir a todos os canais de TV simultaneamente, mas seria uma grata surpresa se algum deles tivesse alguém capaz de ir além da repetição mecânica daquela superficial abordagem. E, a própria insistência neste fato pode significar que as evidências, por si só, não são capazes de convencer a população da veracidade desta tese, exigindo a aplicação de recursos quase hipnóticos para conseguí-lo.
Seria ainda mais surpreendente se um único jornalista apenas percebesse o contraste dos louvores à democracia atual no discurso do senador Ramez Tebet e a citação do sociólogo de verdade, Herbert de Souza, o Betinho, com a qual ele o encerrou: "Democracia e miséria são incompatíveis." Pois muito bem!... Se estamos vivendo a plenitude democrática, com base no próprio pensamento divulgado pelo senador, não deveria existir miséria neste país. Mas, por outro lado, se há miséria, não há democracia. Quem está com a verdade? Betinho ou outros? Há raciocínios dotados de uma plenitude de incompatibilidade com a lógica jornalística.
Por exemplo: se estamos numa democracia, a qual, por definição é o governo do povo, como ela pode gerar miséria para este mesmo povo? Seria o povo masoquista e teria como sua suprema e soberana vontade passar fome? Por que nossos comentaristas políticos jamais enfrentam tal paradoxo? Por que não geram alternativas possíveis sobre o tema, para demonstrar ao povo, esclarecendo a realidade dos fatos? Por que não demonstram claramente que não temos eleições, mas leilões, onde, geralmente ganha quem recebe mais dinheiro em sua campanha? Por que não explicam que, assim sendo, não são todos iguais perante a lei, já que numa democracia todos deveriam ter os mesmos direitos, e este é negado aos mais pobres? Por que, em vez de repetirem, maquinalmente, que houve lisura nas eleições, não divulgam as idéias de expoentes intelectuais como Osny Duarte Pereira, que defendem a tese de que, por estes e outros motivos, a lei eleitoral é inconstitucional, fazendo com que as eleições não sejam realmente livres da influência do poder econômico? <http://geocities.yahoo.com.br/ditaduracivil/pluto.html>
Não encontrei outra resposta além desta: porque são pagos para desinformar e manter este povo na ignorância, consolidando a atual concentração de renda, o que nos coloca como medalha de bronze nesta modalidade esportiva há duas décadas. (Ver referência em <http://jbonline.terra.com.br/papel/economia/2002/04/20
/joreco20020420005.html>)
Mesmo assim, a ONU, servindo aos interesses da elite mundial, premia FHC como alguém que tenha feito algo significativo pelo social, sem considerar que ele aumentou o número de pobres no país, conforme notícia encontrada no endereço acima. Também não tomei conhecimento de que algum representante da imprensa tenha feito esta correlação de fatos...
Torço para que o PT esteja apenas fingindo acreditar que estamos em uma democracia, para não ofender a ditadura do poder econômico, a qual consentiu em que a oposição chegasse ao poder, talvez por estratégia, ao prever (ou para promover) a falência da nação, de tal forma que ela ocorra nas mãos de seus adversários, permitindo-lhes voltar, triunfantes, ao poder, declarando a incompetência daqueles. Mas, se o PT, sua Direção Nacional, seus ministros e a mídia estão realmente acreditando ingenuamente nisto, continuarão levando o povo a comprar gato por lebre, plutocracia e cleptocracia por democracia. Aliás, se fizermos um teste nos ilustres integrantes da política e da mídia descobriremos quão poucos conhecem estes termos, e quão pouco os que os conhecem utilizaram-nos para designar o sistema de governo vigente no país até ontem.
Digo "até ontem" na esperança de que, com o PT, a história possa ser mesmo diferente, apesar de considerar também que ele não detém parcela de poder suficiente para impor sua ética, nem a infalibilidade capaz de permitir uma resistência absoluta às tentações que o poder proporciona, especialmente diante das alianças que fez e da origem dos recursos que recebeu para sua campanha. Enquanto a posse dos meios de comunicação não estiver democraticamente distribuída pela população mais pobre, esta jamais deixará de ser apenas massa de manobra política e econômica de uma ditadura do poder econômico, a qual, momentaneamente, tem uma parcela de seus beneficiários apoiando a composição de forças que orbitam em torno do PT.
Democracia não existe sem liberdade de expressão eqüitativa para todas as camadas sociais. Além da fome física, há uma fome de alimentar-se pela verdade. A mídia tem contribuído fundamentalmente para esta dupla inanição do povo brasileiro.
Heitor Reis, engenheiro civil
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