MÍDIA & RELIGIÃO
Ainda o ateísmo – I
Não sou ateu porque tenho motivo definido para acreditar na existência de um poder natural superior ao do homem, sem conceito fixo e de concepção livre. Não sigo uma religião, pois como Marx considero-a uma droga contrária à consciência da humanidade, e por convicção pessoal não leio a falaciosa imprensa burguesa, o odioso veneno do povo. O objetivo desse comentário é outro, mas julguei necessário formular esses esclarecimentos. Declaro aqui, baseado na minha experimentação, que entre fé e razão existem diferenças, mas não incompatibilidades.
Lendo e analisando os artigos de Daniel Sottomaior neste Observatório, passei a admirar seus argumentos racionais e convincentes, qualidades que faltam aos escritos dos preconceituosos, principalmente de jornalistas limitados por uma atrofia religiosa que impede o pensamento universal e livre de dogmas, e os enclausura dentro do seu labirinto de ilusões. A religião foi instituída pelo homem para subjugar os semelhantes crédulos, portanto não tem vínculo com Deus, porque a mentira e a engabelação não são atributos divinos. O que o ser humano inventa a fim de tirar proveito pertence somente ao mundo. Porém, pior que ser obra dos espertalhões é afastar completamente a criatura da divindade, uns porque se tornam ateus, devido às banalidades pregadas, e a grande maioria pela hipocrisia, o preconceito e o fanatismo demente que a consome. As igrejas são a causa do ateísmo.
Agora faço uma ressalva acerca das faculdades fé e razão. Elas são dignas de andarem juntas a fim de proporcionarem ao ser o entendimento total. Dos escritores lidos o que mais se aproxima desse ideal é Eliphas Levi, do qual recomendo a leitura das obras.
Francisco Assis de Freitas
Ainda o ateísmo – II
Prezado Daniel Sottomaior, seu artigo "Sem deuses" chegou até meu escritório aqui em Knoxville, Tennessee (EUA), então acho correto mencionar que a separação de religião e Estado não teve como objetivo nesta terra manter a religião afastada do Estado, mas de manter o Estado longe de qualquer controle da religião. O país foi fundado por aqueles que, além de lutar contra religiosos fanáticos na Europa, lutavam contra fanáticos que tinham o Estado a seu lado. Fugiram para cá sob enorme perseguição. As lutas destes peregrinos não foram com armas, mas com o ensino.
Seus comentários sobre a Bíblia dando apoio às coisas que hoje odiamos também mereceriam reflexão, não com o objetivo de argumentar, mas de dar ao prezado algumas idéias de alguém que tem sido grandemente ajudado pela palavra de Deus na vida pessoal. Deixarei estes pensamentos para outra oportunidade ou pessoa que não comete tantos erros na língua portuguesa.
Calvino Taylor
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Sem deuses – Daniel Sottomaior
Preconceito idiota
Concordo com o leitor Daniel Fernandes. Francamente, criticar alguém como Salman Rushdie, apenas por sua aparência? Que preconceito idiota... Não esperava que um jornal de grande abrangência como o Estado tivesse a capacidade de permitir a publicação de um texto no qual se prega a discriminação de um grande escritor. Dessa forma, idolatrem então Zeca Camargo, Pedro Bial, Gilberto Barros, Marcia Goldsmith etc. Não têm conteúdo, mas estética. Acho que isso basta, não? Sou ateu também, e quero meu direito respeitado. Lembrem-se de que muitas guerras (das mais sangrentas) foram e são travadas em nome da religião: a Inquisição, homens-bomba, "Deus nos deu a missão de conquistar os territórios de leste a oeste" (teoria do destino manifesto), a Guerra da Bósnia etc. Sangue derramado em nome da fé. Fé em quê? Onde estão as respostas? Quem sabe em um novo texto no Estadão.
Roberto Wagner
Erro de lógica
Mantive-me, até agora, a uma prudente distância do debate "mídia e ateísmo", porquanto não sou ateu, mas respeito de modo incondicional o direito de os ateus crerem na inexistência de algo transcendente. Daí, considero justa a indignação do leitor Daniel Fernandes em relação a texto ateófobo, do mesmo modo que sou contrário a quem quer que pretenda empreender cruzada em nome de um "crê ou morres" (inclusive se a cruzada for no sentido de "não creias ou morres"). Um primeiro erro, que salta aos olhos, é de caráter lógico: se eu não creio em centauros, como é que alguém me poderia imputar a condição de inimigo dos centauros? Para eu ser inimigo seria necessário que eu tivesse alguma possibilidade de interação com o objeto de minha inimizade.
Do mesmo modo o ateu não pode ser qualificado como inimigo de Deus simplesmente porque não acredita em Deus. Talvez o objetivo fosse a demonização de um determinado segmento dentre os ateus, dadas as convicções políticas do autor (Gilberto Mello Kujawski) do texto que tanto indignou o leitor. Um segundo erro grave é o de considerar que o ateísmo é sintoma de pequenez intelectual, porquanto além de isto traduzir uma verdadeira ofensa a homens da estatura do marechal Rondon (que, como positivista, necessariamente, era ateu), Stendhal (autor de um célebre chiste a respeito da existência de Deus), parece olvidar, outrossim, que em se tratando especificamente de Salman Rushdie, perseguido por motivos religiosos, a frase fica mais do que justificada: afinal, foi uma visão fanatizada do islamismo – que não é, em sua essência, intolerante, como o pode comprovar quem quer que se debruce sobre a história da Península Ibérica durante o período da dominação moura, onde um Averróis preserva e comenta Aristóteles e onde o Califa al-Ma’mun promove um debate acerca da melhor hermenêutica para o Alcorão, chegando à conclusão de que todas as escolas podem estar certas, sem que nenhuma se possa arrogar o privilégio de ser a dona da verdade, como se lê no precioso livro de Odim Brandão Ferreira intitulado Laiaali – A universalidade do problema hermenêutico, Porto Alegre, Sérgio Antônio Fabris, 2001 (a intolerância viria depois, com a instalação da Santa Inquisição, já no período cristão) – que determinou sua condenação à morte.
Repito: não sou ateu, assim como não o eram nem Spinoza nem Einstein (evidente que não me estou a comparar, em termos de grandeza, com estes dois monumentos do pensamento ocidental, mas apenas a dialogar com proposição posta por Humberto Crivellari, em "Mistificação avança").
Ricardo Antônio Lucas Camargo
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