DESASTRE EM ALCÂNTARA
A mídia não viu
o alcance
Lamento profundamente que a imprensa só tenha se preocupado
com o projeto espacial brasileiro após o desastre, com 21
mortos, bem trágico como gosta a mídia. Será
que até agora nenhum jornalista tinha vislumbrado a importância
e o alcance do projeto de caráter civil e principalmente
econômico-militar, chamando atenção para a sociedade
civil? Quando vai se interessar pelo Programa Nuclear da Marinha,
principalmente o desenvolvimento do combustível para nossos
futuros reatores atômicos, quando não houver mais combustível
fóssil no mundo? Desculpe, mas lembrar não custa que
o submarino atômico brasileiro, que em 1989 estava previsto
para 2003, não se sabe mais quando ficará pronto.
Não tem a mínima importância, não é?
Lembro que o gerador elétrico que propulsiona o motor do
submarino é o mesmo que pode ser usado nas nossas termoelétricas,
variando apenas o tamanho, mas a tecnologia é a mesma.
Cabe lembrar que o submarino não é uma arma atômica,
apenas usa a energia atômica do combustível físsil
no reator para produzir o vapor usado na turbina que aciona o gerador
elétrico. Pode vir a ser uma arma atômica se portar
mísseis balísticos com ogiva nuclear, em vez do convencional
torpedo, mas, como já se percebeu, o problema não
é fabricar a bomba, e sim seu Veículo Lançador.
Estamos muito longe de ser uma potência nuclear como a Índia
– que tem a bomba e o principal – um foguete que leve a bomba até
o Paquistão e não possa ser interceptado pela sua
defesa aérea. Podemos tranqüilamente assinar qualquer
tratado de não-proliferação, pois estamos longe
de ter um lançador de bombas atômicas. A bem da verdade,
não estamos nem em condição de jogar pedra
no inimigo, ainda bem que até agora não o temos. Isola.
Paulo Marcos Gomes Lustoza,
capitão-de-mar-e-guerra da reserva
O assunto vai morrer?
Parabenizo-os por serem os guardiões dessa profissão
que pretendo seguir. Esta matéria está no jornal Vale
Paraibano, da cidade de São José dos Campos, desta
sexta-feira 6/9/03. Outras mídias não mencionaram
o assunto.
Aeronáutica já fala em sabotagem
São José dos Campos – Da redação
O comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro-do-ar
Luiz Carlos da Silva Bueno, disse ontem durante a audiência
pública do Senado que o governo ainda não descartou
a possibilidade de sabotagem no acidente com o VLS-1, em Alcântara
(MA). Segundo ele, no dia do acidente havia navios estrangeiros
próximos à base militar em Alcântara, que
foram monitorados pela Marinha e pelo Exército, que sobrevoou
o local.
"Posso quase afiançar que não houve no local
(base militar) nenhuma interferência externa que pudesse
ter causado o acidente", disse o comandante. No entanto, ele
não descartou possibilidade de sabotagem. Neste ano,
a segurança da campanha de lançamento do VLS foi
reforçada porque o governo já desconfiava de sabotagem.
Cada pessoa que entrava na base era revistada. Também
foi mantido sigilo sobre o dia do lançamento.
Um ex-diretor da AEB (Agência Espacial Brasileira) afirmou
ao ValeParaibano que a segurança em Alcântara
foi ampliada porque nas duas tentativas anteriores de lançamento
do VLS-1 teriam ocorrido sabotagens, que nunca foram admitidas
pelo governo. Na primeira, em 97, foram encontrados fios cortados
e, por isso, um dos ignitores do foguete não teria funcionado
após falha na rede de pirotécnicos, que aciona
os motores. Na segunda tentativa, em 99, teria ocorrido uma
alteração no sistema que transmite as 'mensagens'
entre os estágios do foguete. Como conseqüência,
um dos estágios não 'obedeceu' à ordem
de separação no momento correto <http://jornal.valeparaibano.com.br/sjc/fog2.html>.
Entre os observadores dos acontecimentos globais esta hipótese
foi a primeira a ser levantada. A imprensa estará se omitindo?
Parece estar mais preocupada em desacreditar o governo e condená-lo
pela verba restrita destinada ao programa espacial brasileiro do
que apurar e olhar todos lados dos acontecimentos. Uma sabotagem
estrangeira no lançamento do VLS tem significados muito importantes
no cenário mundial. Pode modificar muita coisa, muitos rumos.
Será que este assunto vai morrer como tantos outros que a
cada dia vão perdendo espaço para novas manchetes?
Alcântara cairá no esquecimento? Estará a mídia
(ou o governo, ou ambos em conformidade) com medo de trazer um conflito
mundial à tona?
Simone Colombo Lopes
Hipóteses para uma investigação
O leitor Leão Milnitsky escreveu neste Caderno um comentário
que eu gostaria de responder. Disse ele, a propósito de meu
artigo "As lições ocultas de uma tragédia"
(remissão abaixo):
"É uma análise apoiada em tecnologia, bem fundamentada,
mas, a meu ver, de risco. A prova é a base para formatar
qualquer acusação. A França é uma
nação pouco confiável. Não sou político,
sou auditor."
Trata-se de um comentário que sugere estar o referido artigo
fazendo acusação. O artigo está analisando
hipóteses, com o objetivo de subsidiar dois atores distintos.
Um, a quem caiba investigar, apontando onde podem ser encontrados
indícios que, existindo, juntos e com muita sorte, possam
constituir prova de que houve sabotagem. E que, existindo, juntos
e com algum bom senso, possam independentemente constituir prova
de que houve negligência.
Dois, em auxílio ao público, oferecendo-lhe elementos
de juízo sobre a competência e eficácia dos
que vierem a desempenhar a tarefa de investigar o incidente, na
que tange à execução da dita tarefa. Para encontrar
indícios, quem procura precisa, antes, querer encontrar.
Doutra feita, um auditor deveria saber melhor que palavras como
"suspeita", "provável", "hipótese", "alerta" falam
antes de risco ou de trilhas investigativas do que de autoria ou
de responsabilidade por crime. Não há, portanto, razão
para se insinuar laconicamente tratar-se de peça acusatória.
No mais, não vejo no que a França seria diferente
doutras nações no tocante à confiança
que possa inspirar. Vejo, outrossim, sinais de vassalagem ou peleguismo
na tentativa de se querer destacá-la pela pouca confiabilidade.
Pedro Antonio Dourado de Rezende
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