VAZIO E PRECONCEITO
Segredinhos sujos
Andei lendo alguns questionamento à novela Mulheres apaixonadas. Creio que a crítica ao lesbianismo ou ao caso da professora com o aluno se trata, na maioria das vezes, de questões preconceituosas. Por que não mostrar o homossexualismo na TV? Quando duas pessoas se encontram e se amam, sejam do mesmo sexo ou não, é uma situação que diz respeito somente a eles e a mais ninguém. Se as novelas têm compromisso com a realidade, por que não mostrá-la? Escondê-la como um segredinho sujo embaixo do tapete, como a sociedade se acostumou a fazer, não faz com que a questão desapareça. Tal situação só produz marginalizados. Já não bastam os marginalizados pela fome, pela falta de saúde, pela falta de educação, de emprego e de dignidade?
Quanto à questão do aluno com a professora, só tenho uma ressalva a fazer. É analisar o quanto uma mulher mais madura e experiente poderia estar utilizando essa experiência para colocar um aluno em situação de risco. Além do mais, o interesse da professora em questão poderia ser mais pelo fato de poder dominar uma situação com um menino, já que não consegue fazê-lo com um homem. Servir bolo ao aluno enrolada numa toalha e dizer que quer mantê-lo afastado? E quem ela espera que consiga mantê-lo longe? Papai Noel? Afinal, até agora não entendi como uma mulher independente e inteligente pode se deixar levar por tal situação, demonstrando uma submissão que beira a imbecilidade.
Isso me leva a outra questão. A do machismo. Fiquei abismada quando num capítulo da novela o médico mais velho diz a César que despediu uma enfermeira por sentir-se atraído por ela. Num país como o nosso, uma mulher perder o emprego porque seu chefe a achou atraente? E pior, não vi ninguém se manifestar contra isso. Ou na questão do médico "tarado" que não pode ver um "rabo de saia", pedindo a sua assistente que lhe faça massagens? E se ela se recusasse, perderia o emprego? E no caso de se sentir forçada a realizar o ato, até onde poderia seguir? Jantares? Romance com o patrão? Até que ponto poderia haver uma recusa sem risco de perda do emprego? E, mais incrível, parece que todos acham normal.
Outra questão: o núcleo pobre da novela pode seguir apenas dois caminhos – ou almeja uma vida melhor e se torna mau caráter ou é o tipo de pobre conformado com o destino e se torna bonzinho. É uma maneira de colocar o "pobre" espectador no seu devido lugar. Quem é pobre que se conforme, pois pode até arrumar um casamento rico se for "certinha' como a Edwiges. Se não se conforma é porque é um mau caráter em potencial. Por tudo o que posso perceber, é uma novela como todas as outras. Sob a capa precursora de questões "modernas", segue o caminho do machismo e da alienação do público. Continuar ditando as mesmas regrinhas hipócritas, conformistas e imbecilizantes, capazes de manter o status quo da classe detentora do poder.
Alda Solon Curiale
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Basta o botox
Pedi para meu irmão olhar uma pauta de telejornalismo que fiz sobre síndrome do pânico. Ele é jornalista formado. Olhou e disse que estava bom e não precisava mexer em nada. Eu brinquei com ele: faculdade pra quê? Ele nem respondeu. Lá pelas 20h, ele me ligou pelo celular e disse: Luciana, faculdade pra quê? E explicou que duas modelos, ex-participantes da Casa dos Artistas, estavam apresentando um telejornal do SBT. Ele estava louco da vida. Além disso elas estavam usando minissaia, e a mesa era vazada. Aprendi que nem podemos usar roupas e bijuterias exuberantes porque não podemos aparecer mais que a notícia, ou seja, não podemos tirar a atenção dos telespectadores. Mas elas estão lá, e duvido que sejam jornalistas. Daí eu pensei: investir em formação é pura burrice. O negócio é investir em botox, plástica, chapinha japonesa, personal trainer. Roupa nem tanto porque quanto menos melhor. E tinta para o cabelo também não, porque pelo jeito nem precisa ser loura. Desculpem o desabafo.
Luciana Vaz, ex-estudante de Jornalismo, por falta de dinheiro e não por falta de vontade
Luta dos sem-tudo
Na lógica, qualidade na TV seria exibir os acontecimentos para que as pessoas de bom senso vejam a situação dos outros, que não têm como se libertar da miséria, nem estudos para procurar um bom emprego e ter uma vida social adequada. O cidadão tem que ir à luta sem emprego, sem cultura, sem apoio, sem conhecer nada, e não chega a lugar nenhum.
Maria José M. Furtado
Tardes entediantes
Se as TVs educativas têm verbas públicas e as comerciais temem ficar sem dinheiro estatal, então o bolo está bem dividido. Acho que a TV educativa merece a captação de recursos, apoio cultural e patrocínio incentivado. Tanto é que as educativas são uma boa opção para driblar a programação (em sua grande maioria) banal, corriqueira das comerciais, do ibope maior. Aliás, da alienação ainda maior, logo via digital. Até Roberto Marinho vai revirar no túmulo, principalmente nas tardes entediantes faustianas de domingo .
Beijamim Ribeiro