VIOLÊNCIA JUVENIL
Sociedade acuada
Este artigo de Alberto Dines, cuja sensatez e excelência na abordagem não causam surpresa, é um reflexo do que vem pensando, desejando e intuindo a sociedade brasileira, onde me incluo, claro, tanto amedrontada, acuada pelos bandidos na rua, quanto impotente e paralisada devido à falta de discussão, à falta análise da realidade e, até mesmo, devido à manipulação das mentes pela chamada "grande mídia". Também devido à falta de ação e de respeito aos princípios democráticos que marcam os sucessivos governos deste País, o que leva fatalmente a um ambiente de "cala a boca", como diz Alberto Dines.
Auricélia de Paula Rodrigues, professora de Redação e pesquisadora em Psicanálise.
O rabino sou eu
Do documento entregue ao presidente da República, assinado por 72 associações brasileiras de proteção dos direitos da criança e do adolescente, dia 1/12/2003:
"É falsa a idéia de que o Estatuto da Criança e do Adolescente não pune. Ele pune e, com rigor, o adolescente autor de ato infracional. (...)"
O brasileiro moço pobre é hoje mais vítima que culpado. Segundo a Associação Brasileira de Magistrados e Promotores da Infância e Juventude, menos de 3% dos crimes violentos são praticados por adolescentes.
Por outro lado, entre 1979 e 1996 o número de mortes violentas cujas vítimas tinham entre 15 e 24 anos mais que dobrou: de 6.943 para 15.228, segundo o "Mapa da Violência" elaborado pela Unesco e pelo Instituto Ayrton Senna. De 60 países analisados, o Brasil só fica atrás da Colômbia e Porto Rico, em número de moços assassinados".
Dines, portanto, presta excelente serviço à sociedade quando pergunta "Quem trava o debate?" Essa pergunta é indispensável e quanto mais cedo cuidarmos de respondê-la sem preconceitos, melhor. Infelizmente, não é igualmente bom o serviço que Dines presta à sociedade com as respostas que oferece.
Todas as monstruosidades que se cometem hoje, em todo o mundo, desgraçadamente – tanto o assassinato de moços filhos, filhas e irmãos, como o encarceramento de moços filhos, filhas e irmãos pregado por adultos jornalistas, pais e rabinos –, sempre podem ser ensinadas em parágrafos elegantíssimos, sobretudo em país de pais, mães, filhos, irmãos, carrascos e vítimas analfabetos.
Sinceramente: até parece que o rabino sou eu!
Caia Fittipaldi
Culpa dos pais e do Estado
Quero dizer que boa parte dos problemas de violência do país poderiam ser evitados se o Estado, com seus representantes governamentais, realmente visasse o bem do povo. O fato é que, pelo menos ao que parece, os que estão no poder só correm atrás daquilo que é do seu interesse. Os interesses pessoais são poderosos e infinitos e, portanto, não há quem queira "arriscar seu pescoço", de ambos os lados, pessoal, para não colocar a vida em risco, e público, para não queimar a imagem.
Acho que os pais de qualquer delinqüente, seja trombadinha, homicida, estuprador, pichador, assaltante, ou qualquer outro tipo, deveriam se responsabilizar pelas atitudes de seus filhos, independente da idade, pois acho que só assim poderia tocar o coração – se é que eles têm – dos malfeitores e passariam a sentir mais na pele. No caso de pichadores, além de responsabilizarem moralmente os pais, deveriam também arcar com os custos de limpeza da "obra-prima" de seus filhos. Considero que os pais deveriam ser responsabilizados juntos porque, com certeza, falharam na educação dos filhos, sendo que muitos deles não estão nem aí dando liberdade geral e não ensinando valores, ética, moral, etc. "Dá muito trabalho..." afirmam alguns.
A violência é um fato que deve ser de responsabilidade de boa parte dos Ministérios do Governo, Secretarias Estaduais e Secretarias Municipais e não está acontecendo. Onde está a ação em conjunto destes órgãos públicos contra a criminalidade? São gastos milhões de dólares por ano para manter estruturas que não funcionam e muito menos se pronunciam? Me sinto tão lesado pelo Governo, quanto um ladrão que venha tentar me roubar.
Haroldo Norishigue Teramatsu
Lógica perversa
Parabéns ao Dines pela lucidez com que pontuou os fatores que entravam a discussão sobre a criminalidade juvenil. Permita-me acrescentar apenas que um outro aspecto que contribui fortemente para esta situação é a ideologia perversa (no sentido de desviada de sua função normal) que prepondera em relação à criminalidade juvenil.
Ainda somos vítimas do trauma sofrido com os abusos praticados pelas autoridades policiais durante o período da ditadura militar. Foi neste contexto que surgiram as diferentes organizações em defesa dos direitos humanos, em defesa dos mais fracos, em defesa dos desvalidos.
Com o passar dos anos este ideal, absolutamente legítimo, cresceu e ganhou força em nossa sociedade, ao mesmo tempo em que, com muita justiça, centenas de entidades (institucionais, mas principalmente não-governamentais) se organizaram para fazer valer a nova ideologia, corolário dos belíssimos ideais defendidos por aqueles que combateram, com coragem, a ditadura militar. Esta foi a vitória! Uma vitória ideológica, da qual não podemos abrir mão!
Ocorre que esta ideologia padece de um problema epistemológico: a pressuposição de que o crime é resultado da miséria. Esta é a origem da lógica perversa. Todo desvalido é vítima da sociedade cruel; este criminoso é desvalido, logo, este criminoso é vítima da sociedade cruel.
Clamar pela punição de Champinha é visto, pelos defensores desta ideologia equivocada, como "vingancismo" da sociedade cruel, porque Champinha é pobre, miserável, desvalido. Ele não merece punição porque não é responsável por seu destino, uma vez que este foi traçado pelas condições miseráveis em que foi criado. Champinha não é culpado; é vítima da sociedade privilegiada. Se a culpa é da "sociedade privilegiada", forçosamente temos que Liana, filha de classe média, é responsável pela violência que sofreu! Eis o resultado da perversão!
Não deixa de ser instigante o fato de que enquanto centenas de associações, ONGs, etc, se organizam para manifestar repúdio ao "vingancismo" da sociedade contra Champinha, a jovem moradora do Morumbi, que articulou o assassinato dos próprios pais, desperta o horror e o clamor por punição por parte de todos. Isso me leva a perguntar: por que, neste caso, a punição nunca foi chamada de "vingança"?
Solange Silva Moreira, professora universitária – SP
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