10/06/2003

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Edição de Marinilda Carvalho

O destaque desta edição do Caderno do Leitor é o tratamento dado pela imprensa ao governo, com 10 cartas, à própria crise da mídia, aqui e lá fora, com seis mensagens, e ao futebol, com cinco.

A leitora Neusa Maria Bongiovanni Ribeiro, professora de Jornalismo, defende, para os futuros profissionais de mídia, uma formação para a cidadania, "segundo a realidade do país, de grandes contrastes culturais, econômicos e sociais".

O leitor Sidney Borges lembra que a salvação dos jornais brasileiros está no aumento do número de leitores. "Leitores que exigem qualidade e reflexão estão se tornando raros e, se não vão desaparecer, certamente perderão o significado", diz ele.

Para o leitor Luis Fernando Hermann, que comenta brevemente o papel da mídia na quase crise gerada pelo golpe dos cartolas contra o Estatuto do Torcedor, "a imprensa é um meio direto de apoio à sociedade, e sempre precisa ficar atenta".

Os três iluminam, aqui, espaços infelizmente relegados em nosso país: a formação do leitor e do jornalista. Em resumo, a educação. Pauta hoje em dia praticamente desprezada nas redações.

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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MÍDIA & GOVERNO
Caráter e olhar diferenciado

Concordo quando Dines diz que Duda Mendonça é um marqueteiro político sem maiores preocupações com a comunicação para o desenvolvimento, mas há detalhes do texto que merecem reflexão um tanto maior, por exemplo, a crise mundial por que passa a mídia, principalmente os veículos impressos europeus, conforme cita em outro artigo, desta mesma página, o jornalista Pedro de Souza, de Paris. É evidente que o governo Lula até agora não adotou uma sistemática no campo da comunicação governamental, como muitos de nós esperávamos.

É claro que está faltando muita coisa, talvez, para os comunicadores da assessoria governamental empreenderem um projeto de mudança como muitos de nós aguardávamos. Mas, reduzir ao corte de verbas de publicidade do governo a crise dos jornais brasileiros é, no mínimo, questionável. Todos sabemos que as empresas de comunicação do mundo inteiro estão sofrendo mudanças profundas, fundamentalmente econômicas, por conta de uma crise instaurada pelo sistema vigente, que vai ao exagero do consumo, das falsas "realidades", das manipulações gerais para o reforço das ilusões, que provocam mudanças graves no comportamento humano. Não vamos ser ingênuos, nem, como o autor mesmo diz, "adeptos das teorias conspiratórias" em relação ao governo Lula. Mas que isso também faz parte de um novo processo instaurado no país certamente faz.

Claro que muita coisa está sendo feita sem muito cuidado... certamente, os grandes empresários brasileiros, vão querer crucificar o governo, por estarem enfrentando problemas financeiros. Mas e daí? Eles não são os poderosos? Quem sabe se se eles voltassem a falar da vida dos brasileiros aos brasileiros essa situação não mudaria? Está na hora de alguns setores da sociedade, como jornalistas, professores e pesquisadores, assumirem o papel que a eles sempre coube, de participação e formação de um saber que é de todos e para todos, que não fique nas mãos de poucos, como os grandes empresários da comunicação.

Acho bem interessante o que afirma o jornalista Pedro de Souza, mesmo mandando um artigo de Paris, sobre os diários brasileiros: "Jornalistas, políticos, eleitores e governo deveriam se debruçar sobre essas questões. Para que voltem a existir bons jornais não basta que estejam em mãos de brasileiros, e que os jornalistas sigam rigorosos códigos éticos. É sobretudo necessário que haja empenho, consciência da importância da imprensa para a sociedade, e grandes editores de talento. Alternativas de investimento e controle aparecem, quando há vontade de ir ao seu encontro".

Como jornalista/doutoranda com mais de 30 anos de experiência, e professora em dois cursos universitários no Rio Grande do Sul, não posso, hoje, apenas falar em formação para o mercado profissional das grandes empresas de comunicação aos estudantes que me acompanham. Mais do que nunca, a formação mais importante, com tanto reforço contrário dos maiores veículos do mundo inteiro, é a que se baseia na formação da cidadania. E no Brasil precisamos, sim, ainda disso. Formar para a cidadania... pela realidade do país, de grandes contrastes culturais, econômicos e sociais. Se um estudante não receber essa formação e apenas se detiver no aprendizado técnico, para cair na rede do mercado, vai sucumbir juntamente com a empresa a que estiver atrelado. Claro que entre essa formação e a de meramente um técnico há o aprendizado das relações humanas, e das técnicas, para que lhes sirvam de instrumento de trabalho. A diferença estará sempre numa boa estrutura de caráter e num olhar diferenciado para o outro, de que tanto se fala nos processos de comunicação, nos estudos teóricos.

Neusa Maria Bongiovanni Ribeiro, Porto Alegre

 

Balas de borracha

É incrível como o povo brasileiro tem cobrado do novo governo. Se pensarmos bem, esse é um aspecto altamente positivo, tendo em vista a alienação política que a população incorporou desde a escravidão, o militarismo, de que até hoje vemos vestígios. A mídia, por sua vez, não perde tempo. Começa de uma forma muito poderosa, embora perigosa, a veicular conceitos e "verdades" que serão mastigadas pela audiência. Penso que um governo que foi pilhado, vendido e entregue de braços abertos aos interesses externos, que perdeu seu respeito com inúmeros desvios de verbas importantes, que perdeu suas raízes culturais em detrimento do avanço esmagador do imperialismo cultural americano, não pode ser consertado da noite para o dia. Como então cobrar mudanças de um governo que tem apenas seis meses de trabalho? Como cobrar em seis meses a transformação do que foi arruinado há décadas, há séculos?

Ah, é muita pretensão da imprensa, muita pretensão dos formadores de opinião, "criar" na cabeça dos brasileiros uma rejeição tão pré-matura. Com todos os desacertos, o governo Lula vai bem, trabalhando, buscando, a gente vê. O marketing provocado pelo Duda Mendonça (e que deu certo nas eleições) também foi usado por outros partidos políticos, outros candidatos. Por que analisar só o PT? Porque sempre foi um partido que nunca se ligou nesses detalhes? Pois é, mas, coincidentemente, desta vez deu certo e estamos no governo. É preciso mais paciência, é preciso mais prudência ao povo brasileiro. E à imprensa é preciso mais responsabilidade e consciência de saber que as palavras emitidas por ela são um peso na formação de opinião das pessoas. Seus discursos são repetidos nas esquinas e nos botecos por gente que às vezes nem sabe o nome do locutor da rádio. São pais que passam aos filhos (futuros eleitores deste país) a opinião reproduzida da imprensa.

Avaliar o governo de Lula, hoje, é como fazer uma análise crítica do filme Matrix sem ver toda a trilogia. É necessário perceber estratégias e objetivos, e não ficar como cangaceiros à espreita, para ver qual vai ser o próximo despercebido que será acertado pela bala de borracha atirada pela imprensa em busca de prestígio e ibope.

Aline Tavares, estudante de Jornalismo

 

Nada a ver com Duda

A vitória do Lula nada tem a ver com Duda Mendonça. Se o poder não quisesse, Lula não teria ganho, com ou sem Duda. A mídia é o próprio poder, e ela só faz o que interessa a ela, não importa quem seja o governo. Se o governo for a favor do que está estabelecido, então, ela será favorável ao governo. Vide o (des)governo do FHC, que vendeu nossa mãe e a mídia o apoiou, o tempo todo. Li o artigo de Nelson Hoineff nesse mesmo Observatório que corrobora, a meu ver, o que estou dizendo agora.

Não nos esqueçamos de que o "mago" da marketologia quase sempre prestou serviços aos governantes de direita. Tende-se a creditar a essa "ciência" (marketologia) um poder e uma importância que ela, a meu ver, não tem, não deve ter e nem pode ter.

Nedi Carlos da Rosa, São Paulo

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