MÍDIA & GOVERNO
Falta coragem e imprensa
A bola de neve de indignação que está se formando no país vai começar a rolar em breve. Ao descer a montanha levará consigo o pouco que resta de esperança num país perplexo. O governo transformou os bancos brasileiros nos mais lucrativos do mundo! É isso mesmo, hoje é melhor ser banqueiro no Brasil do que na França! Cabe à imprensa divulgar isso. Mesmo recebendo anúncios do governo, é tarefa da imprensa informar. Chega de toma lá dá cá, estamos no século 21, embora o país se comporte como se estivesse no século 19.
Qual a razão de o setor bancário ser beneficiado num jogo em que todos os demais estão perdendo? Quero saber quando e como esta situação vai mudar, se é que vai. Duvido que alguém da cúpula governamental tenha coragem de "peitar" os banqueiros. Eles já ganharam muito, está na hora de colaborar um pouco. E se nada for feito, o país como se fosse um corpo assolado por infecção viral morrerá. No caso de seres humanos os vírus assassinos morrem também, no caso do Brasil, eles se mudarão para Mônaco, onde gastarão felizes os muitos dólares que têm guardados na Suíça. Ainda há como consertar isso, só é preciso coragem! E imprensa!
Sidney Borges
Telefone sem fio
Sobre o artigo "Duda atrapalha lua-de-mel de Lula", de Alberto Dines: vários jornalistas estão inconformados porque Lula não tem falado diretamente com a imprensa, e começam a atacar o governo sem bom senso algum. Estão sentindo que são realmente descartáveis, pois quando tentam se colocar como intermediários, na maioria das vezes, fazem igual à brincadeira do telefone sem fio, mas sem a intenção de apenas brincar.
Eduardo Zanete
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A imprensa atiça
Em relação ao artigo do professor Muniz Sodré, concordo em que o PT sempre se pautou pelos princípios do diálogo e da democracia de idéias, mas neste momento a situação é muito séria. O PT governa o Brasil. É necessário conjunto nas decisões do governo. Caso contrário, é o deleite das oposições, que enxergam no partido falta de objetividade e intrigas. A imprensa atiça e os políticos "radicais" parecem adorar quando aparece uma câmera ou microfone.
Luis Fernando Herrmann, São Paulo
Adaptação à ordem
Não tenho dúvida sobre o estigma lançado pela mídia sobre as figuras dos parlamentares petistas que se batem pelo ideário constitutivo do programa do PT. Antes, lançavam-no sobre todo o conjunto petista. Agora, quando querem provocar, à guisa de não emplacarem seu próprio ideário, referem-se ao "governo do PT". Do que se verá, mais que o equívoco, a má fé. Também concordo com que tenha razão o pensador francês Alain Badiou, quando disse que "a participação em eleições é uma forma inevitável de adaptação à ordem".
Nunca uma observação foi tão pertinente. De fato, mesmo que o PT lograsse a vitória com base única e exclusivamente em seu programa partidário, teria de passar pelo crivo do parlamento, representação formal do complexo e assimétrico jogo de forças que envolvem a nação e o mundo. Participar do processo institucional significa uma "inevitável adaptação à ordem". Pois não se trata de uma revolução, com quebra de paradigmas.
Mas as circunstâncias são ainda mais dramáticas. Não foi o PT o vitorioso, mas sim a coalizão encabeçada pelo PT. Essa coalizão reúne, esquematicamente, forças da esquerda (aproximadamente 1/3 dos votos) e forças de centro (mais 1/3), ambas, esquerda e centro, constituídas por amplo e variado espectro político-ideológico. E ainda restou o 1/3 derrotado, que também se articula e articula-se com aquelas, participando, como é inerente ao fenômeno social, de todo o processo.
Ora, fica absolutamente claro que o programa resultante não pertence a nenhum partido em particular. É, antes, resultado de um jogo de forças que pende para os protagonistas mais fortes, e estes estão situados no centro e na direita. Daí o forte viés conservador das medidas que se vão estabelecendo. Daí as reformas e o enfoque fiscal de que são objeto.
Depreende-se da experiência que todos vivemos nesse momento o aprendizado segundo o qual governo e partido são instituições diferentes, cuja identificação programática varia em função da composição governamental vitoriosa. Quanto mais dispersa a composição do governo, menos identidade haverá com qualquer partido.
Estas reflexões decorrem do fato de que também eu fiquei inicialmente chocado com a evolução dos acontecimentos. Talvez não tanto quanto ficaram os parlamentares hoje publicamente estigmatizados como "radicais", uma vez que, desde a assunção, pelo então candidato Lula, de uma postura aberta ao apoio de quem quer que fosse, bem como do compromisso assumido na "Carta aos Brasileiros", admiti a inevitabilidade de um programa de coalizão, bem como a insustentabilidade do programa partidário. Dentre as poucas alternativas, pareceu-me a única que poderia, sim, viabilizar a vitória, não do PT, mas da coalizão por ele encabeçada.
Tais circunstâncias não retiram de nenhum parlamentar petista o direito e o dever de perseguir o ideário do partido, também este sujeito à dinâmica do tempo e da história, sobretudo nesta quadra em que o partido coabita o poder. O que parece claro é que não houve, nas instâncias partidárias, debate aprofundado sobre a alternativa adotada e nela, da estratégia para alcançar um mínimo de resultados congruentes com o programa partidário.
Sintoma disso é que, de um lado, vemos os "rebeldes" insurgindo-se contra o que, na verdade, é resultante de múltiplos vetores representativos das forças díspares da coalizão governista, e de outro, a incapacidade dos líderes petistas no governo de tratarem com clareza o fenômeno em que todos estamos metidos.
Luiz Paulo Santana, Belo Horizonte
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