11/11/2003

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Edição de Marinilda Carvalho

Persiste na retina do leitor a crítica de Ricardo Setti ao uso da língua do B de bandido em páginas, ondas e telas da mídia. Por isso, as cartas que comentam o texto continuam, com muita justiça, destaque do Caderno do Leitor. O detalhe é que nesta edição os elogios são unânimes. Dois leitores fazem apenas uma ressalva: ambos militares, consideram que ser soldado no Brasil é motivo de orgulho, sim, ainda que as Forças Armadas tenham se envolvido em política. As cartas deles abrem a edição, como um gesto de boas-vindas ao Observatório.

Entre as demais cartas, três frases alegram o coração:

** "E foi nestas horas (longas!) de profunda agonia [com o blecaute em Florianópolis] que a imprensa local soube como ninguém apresentar seu companheirismo à população, quase de forma paternalista, mantendo-nos informados (a razão principal da imprensa, creio eu) e aliviando nossas expectativas frustradas, quando os órgãos oficiais de governo nos faltaram."

** "Consideramos a imprensa como uma instituição e como um quarto poder, pela relevância dos serviços que presta às nações e aos povos ao redor do mundo em qualquer tempo."

** "Batam forte nos seus colegas, porque se com ajuda da imprensa vai ser difícil melhorar alguma coisa, imagina sem ela."

Mesmo com as ressalvas, tal reconhecimento – e até apreço! – pela imprensa é gostoso de ver.

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. E se reserva o direito de solicitar ao remetente o número de seu telefone para eventuais checagens de informação. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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LINGUAGEM DE BANDIDO
Orgulho de soldado – 1

"(...) A mesma incorporação pelo jornalismo acontece com uma série de verbetes do vocabulário da bandidagem: "soldado" – palavra que, em países onde as Forças Armadas se mantiveram alheias à política, é um símbolo de orgulho nacional, alguém que combate para defender a pátria, ou colabora com a população em catástrofes naturais e outras emergências – aqui virou integrante de quadrilhas de traficantes (...)"

Particularmente concordo e compartilho de sua preocupação em relação à inversão de valores a que estamos sendo submetidos, porém discordo quando afirma que soldado é símbolo de orgulho nacional somente em países onde as Forças Armadas se mantiveram alheias à política. Como militar, integrante das Forças Armadas, servindo à Marinha do Brasil por 20 anos, sinto-me indignado ao verificar que ainda existe resquício de um período conturbado de nossa história, cujos responsáveis, uma meia dúzia de oficiais-generais das três Forças (talvez pessoas inescrupulosas, como aquelas existentes em todos os setores de nossa sociedade), a maioria dos quais já não existe mais, possam ter deixado como herança aos futuros soldados, aviadores e marinheiros tamanha responsabilidade pelo que fizeram.

Embora seus integrantes devam abster-se de política partidária, como instituições nacionais, as Forças Armadas estão inseridas no contexto político-social brasileiro, e portanto seus membros, nacionalistas que são, estão atentos e preocupados com os rumos da política nacional. Grandes democracias do mundo apresentam militares inseridos em seu contexto político, a exemplo dos Estados Unidos, onde ter servido às Forças Armadas representa praticamente um pré-requisito para o triunfo em pleito eleitoral. Lá as Forças Armadas não se mantêm alheias à política, e nem por isso deixam de ser símbolo de orgulho nacional.

Os militares brasileiros são cidadãos como outros quaisquer, são eleitores e podem ser eleitos; infelizmente, porém, não têm grande representatividade na política. Há que se reconhecer, entretanto, o sacrifício feito pelos integrantes de nossas instituições militares, na manutenção do adestramento de seu pessoal e da operacionalidade de seus meios, considerando os limitados recursos de que dispomos. As Forças Armadas de hoje são essencialmente técnicas.

Desde que entrei na carreira da Marinha o Brasil está redemocratizado. Nunca participei, militar que sou, de uma ditadura. Não acho justo ser excluído do orgulho nacional. Esta é a emoção que sente o povo brasileiro quando visita meu navio, o porta-aviões São Paulo – orgulho. São cerca de 50 mil brasileiros orgulhosos ao verem o capitânia de sua esquadra, com suas aeronaves estacionadas no convés de vôo, a cada porto em que atracamos. Este é o trabalho realizado por nós (povo brasileiro), integrantes das Forças Armadas. Você também é dono deste patrimônio e desde já é meu convidado a conhecer o São Paulo.

Preparamo-nos, diuturnamente, para defender a pátria, assim como estamos prontos para colaborar com a população em catástrofes naturais e outras emergências. Após 20 anos do fim da ditadura, continuam culpando as instituições militares pela conduta de alguns, dando destaque a coisas que foram ruins no passado, mas que hoje detêm somenos importância. Em contrapartida gastamos um tempo precioso voltando nossas atenções a marginais que já se tornaram celebridades. Por sorte deparamo-nos com um jornalismo sério como o seu, capaz de formular sua autocrítica. Infelizmente, no entanto, ainda há que se quebrar alguns paradigmas que se insiste em veicular como verdade. A mídia é fundamental como veículo formador de opinião e deve ser responsável ao fazê-lo. Para tal contamos com sua compreensão e a certeza de que a sociedade brasileira também pode orgulhar-se de seus soldados, aviadores e marinheiros. Desde já agradeço por sua atenção e coloco-me à disposição para maiores esclarecimentos.

Mario Luiz Piccirillo, capitão-de-corveta

 

Orgulho de soldado – 2

Achei seu artigo muito interessante, e creio que a banalização da violência gera este tipo de comportamento, levando as pessoas a se chocarem e se indignarem menos do que deveriam. Por outro lado, o uso deste tipo de linguagem por jornalistas está ligado, a meu ver, também, a interesses comerciais de público e ao nível de escolaridade do povo. Só discordo, no seu texto, do parágrafo seguinte:

"(...) A mesma incorporação pelo jornalismo acontece com uma série de verbetes do vocabulário da bandidagem: "soldado" – palavra que, em países onde as Forças Armadas se mantiveram alheias à política, é um símbolo de orgulho nacional, alguém que combate para defender a pátria, ou colabora com a população em catástrofes naturais e outras emergências – aqui virou integrante de quadrilhas de traficantes (...)"

Creio que, mesmo em nosso país, onde, num determinado período da nossa história, houve a intervenção das Forças Armadas na vida política, seus soldados são merecedores de todo o respeito e estão, neste instante mesmo, defendendo a pátria e realizando inúmeros serviços para a população brasileira, de maneira, muitas vezes, anônima. E são, acredito, motivo de orgulho para a maior parte dos brasileiros.

Antonio

 

Fernandinho e Vó Cotinha

E o que dizer da consagração dos codinomes dos bandidos? Fernandinho Beira-Mar se torna nosso íntimo, como a vó Cotinha, a tia Dedê. Não deveria ser chamado de Sr. Fernando de Tal?

Heidi Castejon

 

Desliga

Chamo atenção para um absurdo que já denunciei outras vezes, mas não adiantou. Trata-se do programa TeleCurso 2º Grau, de cunho educativo, que em determinado momento sai-se com esta pérola: "Se liga aí que agora teremos a revisão tal". Até onde eu saiba, "se liga aí" é linguagem de malandro.

Julio Cesar Cavalcanti

 

Audacioso ou covarde?

Que bom seria se todos os profissionais que têm compromisso com a informação da verdade tivessem essa preocupação de fiscalizar também um de nossos maiores patrimônios: o nosso idioma. Infelizmente há uma dinâmica, em qualquer população, de absorver o linguajar corrente dos fatos mais evidentes. Isso faz parte da (des)evolução do idioma. E o crime, hoje, é um assunto que está em todos (todos) os meios de comunicação.

Acho que se o crime for combatido com educação, saúde e cultura nas escolas esses vícios acabam por desaparecer. O que realmente me preocupa nos jornalistas é a forma com que se faz referência às atitudes criminosas. Usam adjetivos positivos, como "assalto audacioso!", "crime muito bem planejado!", "organização criminosa", e por aí vai. Aproveito para fazer uma sugestão: primeiro, mudar esses adjetivos. Em vez de assalto audacioso, colocar "assalto covarde surpreende a vítima"; no lugar de "crime muito bem planejado" usar "crime mal planejado provoca prisão de bando", e "organização criminosa" substituir por "bando de assaltantes covardes".

Esses meus exemplos podem não ser os melhores, pois não tenho o domínio total da língua nem conhecimento do assunto de crimes. Mas tenho certeza de que bons profissionais poderão elaborar um glossário pejorativo para que esses "ratos" de nossa sociedade não ganhem pontos entre seus iguais; que não cresçam na hierarquia de sua prole pelos feitos e elogios conquistados na mídia. Além disso, acho que o ideal seria que não se fizesse tanto alarde com o crime. Que fossem divulgados, sim, mas em pequenas notas, evitando assim que essas pragas se vangloriem diante do lixo social.

Paulo Fidelis

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