OLHA A LÍNGUA!
Mito e gramática
O livro, assim como as outras formas de arte, nasceu para retratar a vida, o mundo de sua maneira particular, ou seja, usando as palavras de modo que o tempo não as vencesse. A gramática, sendo um livro, é resultado de experiências reais e "teria", por função básica, ser espelho da língua usada no cotidiano de onde ela é fruto, certo? Errado! O Brasil, país de contradições e problemas sociais graves, até na língua resolveu mostrar que é podre e que antro de um preconceito novo, porém grave. O "preconceito linguístico". O homem, certo dia, resolveu passar para o papel aquilo que era falado no dia-a-dia pelos demais semelhantes. De um certa forma, foram estipuladas regras para que o uso da língua fosse melhor compreendido e repassado para gerações futuras. De fato isso ocorreu, mas não no Brasil, claro! Para começar nossa língua não é nativa. Ela foi emprestada, ou melhor, imposta a nós. "Engolimos" uma herança cultural diferente de nosso contexto, mas, como somos um povo "acolhedor", ora... a usamos até hoje.
A gramática que usamos, a qual teria que conter nosso retrato lingüístico, servir como espelho de nosso povo, ficou estagnada no tempo, retratando um período histórico e uma nação diferentes. As regras, as palavras contidas nela reproduzem uma outra realidade que nada tem haver com a nossa. Um cotidiano totalmente diferente nos é repassado ano após ano. Nosso ensino produz o analfabeto tradicional e um novo tipo, o "analfabeto que sabe a gramática". Ora, mesmo sabendo a gramática esse conhecimento nunca vai ser usado por total, pois a rotina diária exige um outro português, e não aquele que nos é passado.
Um país com tanta diversidade social e pobreza não se pode dar ao luxo de falar e escrever de forma homogênea e de ter uma gramática, quem diria, européia!! Aprendendo de um jeito e falando de outro, o brasileiro fica sem saber o que fazer, ou melhor, o que escrever, ou melhor, o que falar! Com toda essa confusão surge esse preconceito. Os que sabem a gramática são tratados como "mauricinhos", "pedantes" pelos que não sabem, pois estão fora do contexto. Aqueles que não sabem são "burros", "ignorantes", desprovidos de cultura.
Os mitos surgiram na história para explicar algo que o homem não conhecia. Nesse caso, o que nós não conhecemos é a gramática. Sabemos de onde ela vem, mas não a compreendemos. Em torno de nossa língua existem muitos mitos, e mitos são sinal de uma sociedade em dúvida, cheia de questões e problemas para resolver. Será que o próprio Brasil não é um mito por si só? Cabe ao jornalista resolver.
Bruno Enderson N. da Silva, estudante de Jornalismo, Fortaleza
Caminho alienígena
A propósito da matéria As viagens de IstoÉ, gostaria de lembrar que os redatores da revista nem mesmo se deram ao trabalho de redigir um texto original, preferindo traduzir alguma matéria em inglês. O termo "pavimentar o caminho" é tradução ao pé da letra da expressão "pave the way", comum no idioma saxão, pouco comum (ou inexistente) em nosso idioma, e amplamente difundido na imprensa nacional. Um bom redator traduziria "preparar o caminho". Mas um bom redator não chuparia uma matéria desta forma, certo? É um termo alienígena, assimilado por nossos aculturados repórteres, seja por acharem bonitinho adaptar anglicismos, seja induzidos pelas péssimas traduções de filmes dublados. Fazer o que, não é mesmo?
Alexandre Raposo
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