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AUTÓPSIA NA TV
Melhor pensar desde já

A propósito da matéria do professor Antônio Brasil sobre o programa estrangeiro Autópsia na TV, eu é que me pus a matutar na sua frase final: "E se a moda pega no Brasil? Melhor nem pensar." Mas é justamente isso que acontece em nosso país! "Melhor nem pensar", parecem dizer todos. Não seria mais prático fazê-lo antes do que se horrorizar depois? "Ver" a médio e a longo prazo, para ser mais explícita. A TV brasileira – que a tudo copia – já deve estar "começando a pensar"... Depois, em nome da "liberdade de expressão", quem é que tira a dissecação do cadáver do ar? A banalização da morte, no Brasil, nos entra goela a baixo – ou sala a dentro, para quem preferir – há muito tempo! Só falta mesmo é começar a destrinchar os mortos na hora em que são descobertos, seja na favela, seja no asfalto! Ou, em cima de um palco.

Marli Ribeiro

 

Abusos na internet

Sou médico e concordo inteiramente com os comentários do autor do artigo sobre a necrópsia-show na TV inglesa. Entretanto, gostaria de chamar a atenção para as porcarias, muito mais graves, que, via internet – afinal, trata-se de um meio de comunicação – nos alcançam diariamente. Recentemente, pondo à prova meu interesse na internet, recebi as imagens do bárbaro degolamento de um repórter americano no Afeganistão. Assim, enquanto analiso e decido se me afasto de tal meio, não seria descabido pedir que alguém viesse a escrever sobre a internet e seus abusos, frutos de mentes doentias, sádicos frustrados e afins.

José Maria Leitão

 

Aqui também, por que não?

Fica difícil julgar o programa sem saber das reais intenções da produção. Se for mais uma forma de obter audiência, só temos que lamentar. Entretanto, se for para desmistificar a morte e o corpo humano, dando cunho educativo à autópsia, por que não? Talvez haja uma pequena dose de preconceito do articulista. Será que a postura seria a mesma se o programa fosse exibido num horário alternativo na TV Cultura ou Canal Futura?

Arquimedes Pessoni

 

Com pipoca e coca-cola

O artigo "Autópsia na TV", de Antonio Brasil, me fez lembrar uma frase de Eugênio Bucci em Sobre ética e imprensa: "As pessoas têm pouco em comum, exceto seus interesses lascivos e seus medos e ansiedades mórbidas." Esta afirmação vem ao encontro das idéias e percepções do autor do artigo ao descrever as cenas vistas por 1,4 milhão de telespectadores. Não é por acaso que os produtores de TV, profundos conhecedores da natureza humana, estão sempre inovando na programação no sentido de fomentar cada vez mais a curiosidade doentia e o lado irracional das pessoas. E o que é lamentável, com sucesso garantido. Em janeiro de 2003 o público brasileiro será agraciado com mais um Big Brother!

Está se vivendo uma época de transparência, em que tudo é exibido sem qualquer pudor ou constrangimento. Não há limites. Cenas de sexo explícito, de violência, de execuções, de guerras, tudo é mostrado e, quanto mais chocar, melhor, pois, quando não espelham a realidade espelham o futuro, aproximando-o mais do presente. Afinal, se a mídia mostra é porque está acontecendo, é natural e faz parte da vida. Com isso, tudo se banaliza e a sociedade acaba perdendo seus valores e seu rumo. Como conseqüência, tudo é permitido, até mesmo, queimar índios, planejar a morte dos pais, matar garçons por motivo fútil, esquartejar repórteres, matar avós e empregadas, enfim, a vida perde o sentido. Com a vida sem sentido, resta mostrar o que existe, materialmente, após o seu fim, enquanto ainda despertar curiosidade e conquistar audiência. Daqui a pouco também não terá mais graça.

O autor manifestou preocupação sobre a possibilidade "dessa nova moda pegar no Brasil". Caso aconteça, o que é bastante provável, o público vai se deliciar e se horrorizar ao mesmo tempo com o "após morte" no famoso "microondas". E quando chegar à telas de cinema, ao sabor de pipocas e coca-cola.

Jussara Moraes, estudante de Jornalismo

 

Medo do futuro

Ao acessar o site do Observatório para um desabafo, um pedido de socorro, deparo-me com a entrevista do jornalista Antonio Brasil, preocupado com o que nos reserva a TV após a exibição do programa Autópsia na TV. Senti-me aliviada, mais fortalecida, por saber que não estou sozinha. Como mãe de um menino de 12 anos, como cidadã brasileira, como habitante deste maravilhoso planeta Terra cruelmente destruído por mentes doentias, quero dizer-lhes que estou literalmente em pânico com tudo o que está acontecendo. Tomei pavor da imprensa. Ela me passa um gostinho pelo terrorismo. Assusta-nos com notícias muito fortes em primeira página. Mas, hoje, quero falar sobre um programa a que assisti até o fim para melhor poder me explicar e entender. Por não poder pagar TV a cabo como opção para outros programas e ter que ficar em vigília para atender meu pai, que sofreu mais um AVC, fico assistindo à TVE até o momento em que se encerram as programações (nesta emissora, tenho chances de encontrar uma linguagem mais adequada e inteligente).

A partir daí, fico deslizando meus dedos no controle trocando de canal. É difícil encontrar em programa inteligente, um bom filme (mesmo com a horrível dublagem). Na madrugada de sexta para sábado (6/7 deste mês) estava o programa Noite a fora, da apresentadora Monique Evans. Fiquei estarrecida com a desinibição de uma jovem com apenas 21 anos, atriz pornô, contando e representando algumas cenas. Dizendo que seus pais apóiam seu trabalho. Dentro do tema, passa uma cena (que contam ser real) de uma mulher caminhando nua, acorrentada e em seguida amarrada ao tronco de uma árvore por sua "dona", que lhe dá várias chibatadas. Fiquei em estado de choque por várias razões. E a que mais me atemorizou e atemoriza é saber que esse programa é visto por amigos de meu filho e muitas outras crianças que têm em seus quartos o aparelho de TV. Fiquei imaginando o que pode passar na cabeça dessas crianças. Onde está a poesia do amor? Onde está aquele mistério em que tantos poemas, tantas melodias se inspiraram?

Falam em violência. Mas o que chamam de violência? Para mim, a pior delas é a violência silenciosa, lenta, revestida como cordeiros. Ouvimos falar sobre a criança é o futuro. Que futuro? O dinheiro está corrompendo as pessoas, levam-nas à insanidade, levam-nas ao poder e chegando a esse poder não há muita esperança. Temos programas com pegadinhas cruéis, assistidas como entretenimento; temos a Rede TV! com programas de baixíssimo nível: temos o Otávio Mesquita com o programa intitulado A noite é uma criança, onde são mostradas cenas do submundo; temos o Didi chamado de embaixador da Unicef com seus pastelões embrutecidos, em que há sempre armas e cacetadas como divertimento; temos o apresentador João Kleber, com Te vi na TV, que é chocante; temos a overdose dos pastores que brincam e enriquecem com a dor alheia.

Por que não se criam limites? Eu sei: o dinheiro, a audiência é o que conta. A profissão das meninas é ser modelo e capa de revistas pornográficas (em nome do nu artístico). Por favor, respondam-me: o que será de nossas crianças?

Heloiza Helena Bemfica

 

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