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Edição de Marinilda Carvalho

O leitor Fernando Campos percebeu, muitos pais e professores provavelmente perceberam também: a forma como a imprensa trata a volta às aulas, todo santo ano, é superficial, descomprometida e inconsistente. Neste fevereiro vimos matérias idênticas às de 2002 ou de 2001: vazias, sempre vazias.

Diz ele: "O grande problema é que as reportagens referentes à volta às aulas não passam ao público o principal assunto a ser tratado: como anda a educação no país? Na escola pública, o que se faz?"

Durante as aulas é a mesma coisa: escolas só aparecem no noticiário nas páginas policiais. O ministro Cristovam Buarque pode ir tirando o cavalinho da chuva, se estiver contando com a mídia para a difícil tarefa que tem pela frente.

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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VOLTA ÀS AULAS
Visão engraçadinha e inofensiva

Volta às aulas. Eis um assunto do qual a mídia adora tratar. E tome "reportagens" inócuas, que vão desde o comportamento dos adolescentes (tratados como "seres estranhos" pela imprensa grande) ao batido clichê que pais já conhecem: "Tem que pesquisar preço de material escolar". Nada contra as matérias chamadas light. São interessantes, sim, as reportagens que alertam pais e estudantes sobre a alimentação ou o peso da mochila, reportagens sobre pesquisa de preços dos materiais escolares. Nada disso. O grande problema é que as reportagens referentes à volta às aulas não passam ao público o principal assunto a ser tratado: como anda a educação no país? Na escola pública, o que se faz?

A escola pública estará presente nas páginas policiais de qualquer periódico – "drogas na escola", "aluno agride professora". E as escolas privadas estarão presentes em "cadernos dois" ou "especiais vestibular". A mídia perde uma grande oportunidade, neste período, de realizar trabalhos que instiguem a reflexão acerca de muitos problemas educacionais.

Ora, alunos de oitava série da rede pública são incapazes de ler um texto simples e interpretarem-no; na Bahia – estado que se vangloria de cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal pagando salários de R$ 278 a professores licenciados – os alunos fazem uma espécie de supletivo: em dois anos terminam o ensino fundamental. São as "tele-salas" ou "telecursos", onde o professor é reduzido a um simples "apertador de botões" dos aparelhos de TV e vídeo. Escolas fechando, alunos em bairros carentes não encontrando vagas em escolas próximas (muitos sendo matriculados em bairros distantes), altos índices de evasão, índice baixíssimo de aprendizagem, professores mal remunerados, sem condições de trabalho, percorrendo a cidade em jornadas de 60 horas semanais (ou seja, manhã, tarde e noite – ainda não inventaram o "corujão").

Isso é a Bahia. Mas acontece em todos os estados brasileiros. E a mídia trata a "volta às aulas" com essas reportagens e chamadas engraçadinhas e inofensivas, pois assim há a oportunidade de entrevistar o secretário de Educação e este fazer propaganda gratuita: "Estamos fazendo uma revolução na educação!". E a criançada e a juventude vão à escola, fazer número para o Banco Mundial.

Fernando Campos, Salvador

 

MÍDIA ESPORTIVA
Corinthians goela abaixo

Quem assistiu à transmissão do jogo entre Corinthians e Botafogo-SP, sábado, dia 1º, válido pelo campeonato paulista, na Record, deve ter sentido o mesmo enjôo que eu – claro, se não for torcedor do Timão. Durante o jogo o "comentarista" José Luiz Datena, corintiano roxo, não teve o menor pudor, senso profissional, ético, o que seja, ao torcer descaradamente pelo Corinthians. Lá pelas tantas da partida, quando um jogador do Botafogo chutou a bola na trave do Timão, Datena sapecou: "Quem sabe esse lance acorde o Corinthians...". Mais na frente, soltou outro comentário: "O jogo vai melhorar depois que o Corinthians fizer um gol... tomara que faça logo!"

Por causa de atitudes como essas do Datena, em nome de todos os torcedores não-corintianos quero protestar contra a postura daqueles "profissionais" do jornalismo esportivo que são descaradamente tendenciosos, num comportamento que avilta a isenção da informação, a imparcialidade nas análises, sendo mesmo uma tentativa de tirar do telespectador o sagrado direito de não ser ele discriminado, como manda a Carta Magna, em sua opinião e em sua paixão.

Que o Datena seja o mais fervoroso torcedor do Corinthians é um direito legítimo, desde que ele o exerça quando estiver sentado em frente a um aparelho de TV; porém, quando essa paixão extravasa do lado de dentro, com microfone e câmera à disposição, isso configura um tremendo abuso de autoridade, digno mesmo de ser contestado nas cortes judiciais por descumprimento do Código do Consumidor e da Constituição Federal: Datena quis nos empurrar o Corinthians goela abaixo.

Clovis Luz da Silva

 

Paixão pelo sensacionalismo

Proponho para discussão no Observatório a seguinte manchete: Milene diz que está ‘apaixonada’ por Zidane. Saiu assim mesmo na capa do UOL no sábado, com essas aspas esquisitas impostas pelas linhas de programação mal resolvidas. Pois bem, a manchete pertence ao portal Pelé.net e só pode ser lida pelo assinante UOL. Claramente o texto induz ao erro. Imagina-se logo um escândalo para o futebol, afinal a esposa do Ronaldo Fenômeno está apaixonada pelo seu colega de trabalho Zidane. Quem não é assinante do UOL, como eu, não pôde confirmar e entender o conteúdo da notícia no exato instante da leitura da manchete, pois o clique me remeteu diretamente à página de assinatura. Se quer ler, assine, essa é a ordem. Somente fui descobrir que a garota se referiu ao belo futebol do jogador (inegável) quando saltei para o portal iG e para outros internacionais, que inclusive colocaram as brincadeiras do próprio Ronaldo com o colega, dizendo que o entrosamento com Zidane é tamanho que poderia se apaixonar por ele.

Não discuto aqui o jornalismo de caserna fofoqueiro que alguns veículos fazem, pois vejo que é chover no molhado, uma vez que as práticas deles não mudam e não mudarão devido às exigências do mercado. Contesto diretamente a indução ao erro de interpretação imposta aos leitores e a invasão direta na vida do casal em troca de alguns cliques a mais e de uma assinatura, que eles acreditam com a fé de um monge que terão imediatamente. A ética jornalística para os portais, em tese, é a mesma que todos os veículos de responsabilidade com a notícia devem usar. Será que o poder financeiro da vida digital está acima disso?

Emerson Luis, São Paulo

 

Capitalismo sem concorrência

A análise é necessária, mas acho que ela fica limitada à mídia. Ocorre que a mídia não é tudo. As vezes fico pensando que paixão é essa que move o torcedor. Vejo a camisa do clube: a propaganda é maior do que o escudo. Vejo o novo jogador: ele beija a camisa do novo clube, dizendo que sempre o amou, mas na próxima temporada vai falar o mesmo do próximo clube para onde se transferir...

Não entendo como é que essas pessoas se sujeitam a um horário determinado pela TV Globo: 21h40! Como alguém consegue assistir a um jogo depois da novela das 9? Imagino que o cara saia do trabalho às 18, 19h... E vai fazer o que até a hora do jogo? Beber? A família que se dane – o horário determinado pela Globo vai fazer o cara chegar em casa de madrugada. Mas o torcedor não diz nada?

Sim, é ridículo a gente só conhecer o futebol carioca e paulista. Por isso, quando o Flamengo vai jogar na Bahia a torcida do Flamengo é maior que a torcida local! Então, a questão é cultural.

O pior, sim, é esse monopólio. A gente ser obrigado a engolir Galvão Bueno e iguais é uma agressão à liberdade humana. A Globo trabalha com isso, com o monopólio. Se há concorrência a gente compra a concorrência. Não pode haver concorrência. Mesmo que a gente compre o concorrente para jogá-lo no lixo. Isso é capitalismo?

Dioclécio Luz

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