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Edição de Marinilda Carvalho

As traçantes cortam o céu de Santa Teresa, disparadas pelos traficantes, os donos dos morros que cercam o bairro. Nesta triste Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro é impossível rezar por Tim Lopes. Até no adeus a um velho amigo só se consegue pensar em medo, desespero, ódio, revolta.

Que país...

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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A MORTE DE TIM LOPES
Repórter não é super-herói

O brutal assassinato do repórter Tim Lopes traumatiza a sociedade, mas está longe de surpreender, mesmo em seus absurdos requintes – julgamento sumário e execução a golpes de espada oriental. Não surpreende porque foi praticado num contexto de guerra não-declarada, onde não há códigos a respeitar, senão aqueles ditados pela bandidagem como sucedâneo de instituições que nunca tiveram existência efetiva naquelas latitudes.

Morto Tim Lopes, assiste-se a uma tentativa de canonização destinada a escamotear um grave aspecto do episódio: a despeito de sua bravura e experiência, não teria sido Tim suicida ao subir o morro naquelas condições? Indo mais fundo: tal atitude kamikaze não seria estimulada pelo vale-tudo em busca do furo de reportagem? Será que a imprensa não tem sua parcela de responsabilidade nesse caso?

Uma coisa é fazer jornalismo investigativo – atividade por si só arriscadíssima. Outra, bem diferente, é fazer um trabalho que caberia à polícia, sem o devido suporte para isso e num contexto de evidente tensão. Seria irreal esperar que, diante da descoberta de alguém munido de uma microcâmera em seus domínios, os chefes do tráfico se limitassem, por exemplo, a confiscar-lhe o equipamento.

Vale lembrar que os traficantes tinham conhecimento àquela altura da preparação em curso de uma ofensiva contra o crime organizado envolvendo os governos federal e estadual, o que sem dúvida ajudou a acirrar ânimos já normalmente turbinados. Elias Maluco e seus asseclas se sentiram desafiados e reagiram com a brutalidade com que estão acostumados a tratar quem os desafia, seja polícia, quadrilha rival ou jornalista. Ali não conta folha corrida de serviços prestados à sociedade. Ali não contam nossas leis, valores e conceitos.

Acusa-se, com razão, os donos do morro de terem assumido os espaços públicos na ausência dos poderes constituídos. Mas a imprensa, ao fazer da microcâmera escondida um olho que não conhece limites de qualquer espécie, não estaria também assumindo um papel que nunca foi seu? Quem nunca sentiu, diante de furos obtidos com esse expediente, o gosto da tragédia anunciada?

O fato é que está cada vez mais difícil saber o que é reportagem e o que é investigação policial. Na ânsia do furo e dos pontos do ibope, transforma-se a tragédia da criminalidade brasileira em reality show. Duro de agüentar é quando começamos a ser mandados ao paredão.

Fernando Abreu, jornalista, São Luís

 

Show da vida?

Assistiram ao Fantástico? O velho Cid Moreira como sempre, se prestando a ler os absurdos da Globo. Antes eram os textos da ditadura, agora são os textos da direção para se justificar. A frase final do editor-responsável, Carlos Henrique Schroder, "nós vamos cobrar", em tom ameaçador e em clima pré-eleitoral, é sintomática da arrogância da Globo. Pobre da Benedita e do Lula!

Nenhuma simples palavra de esclarecimento sobre o esquema de segurança montado pela empresa para proteger o seu funcionário em caso de algum problema. Qual teria sido a investigação minuciosa da denúncia dos moradores da favela para se evitar uma armadilha considerando que o Tim estava jurado de morte por vários traficantes (lembram da Cristina?) Degradação moral das famílias da favela Cruzeiro?

Não seria legítimo acreditar  e suspeitar  que muitos moradores, inclusive suas famílias, apóiam o tráfico na favelas e usufruem do poder econômico dos traficantes? Por que a polícia não foi avisada com antecedência ou minutos após o desaparecimento? É dever de jornalista, assim como qualquer cidadão, denunciar crime. Por que tanto tempo para perceber o atraso no encontro com o motorista da Globo? Qual era a equipe de apoio de plantão na Globo enquanto o repórter se arriscava tanto pelo ibope? Quem decidiu e autorizou a utilização de microcâmera numas das favelas mais perigosas do Brasil, considerando que a essa altura a identidade do Tim Lopes já tinha sido revelada em diversas ocasiões pela própria Globo?

De tudo o melhor foi ouvir a última do jornalismo "investigativo" da Globo.  Sobre a pergunta "onde está Tim Lopes? ", o repórter veio com uma declaração definitiva: "Deve estar no céu"! E a pergunta que fica é: onde estão os jornalistas que autorizaram a ida do Tim Lopes à favela Cruzeiro portando uma microcâmera que poderia ser considerada pelos traficantes como equipamento de mais um  informante da polícia?

Por que filmar baile funk com câmera oculta com tantos riscos, se já estamos cansados de ver e saber que os bailes funk estão "dominados" há muitos anos?

Antônio Brasil, jornalista

 

O fantástico cinismo global

O Brasil está chocado com a morte, em circunstâncias bestiais, do jornalista Tim Lopes, experiente repórter que no ano passado ganhou o Prêmio Esso. O triste episódio deve servir de reflexão para todos os jornalistas brasileiros e também para os proprietários de veículos de comunicação, que muitas vezes correm atrás do lucro fácil, tratando a notícia como se fosse mercadoria, esquecendo-se de que informar não é vender sabonete ou algo do gênero.

Não é preciso conhecer profundamente os bastidores da TV Globo para se chegar à conclusão de que o maior canal de televisão do Brasil tem sua parcela de culpa na história. Tim Lopes foi mandado a uma área de risco da qual diariamente se tem notícia de assassinatos cruéis, cometidos por delinqüentes de alta periculosidade. É muito estranho que as chefias da Globo não tenham se dado conta deste fato. Por mais amor à camisa que tinha Tim Lopes para completar uma reportagem sensacional, é mesmo de se estranhar que o repórter tenha aparecido quatro vezes na Favela da Vila Cruzeiro, sem segurança. Não teria sido o jornalista pressionado para terminar a reportagem sobre o baile funk que os marginais chefiados por Elias Maluco promoviam?

A nota oficial da TV Globo lamentando a morte do repórter é de um cinismo sem igual. É o caso de se perguntar: por que permitiram que o jornalista corresse risco, sozinho, num local controlado por um marginal de alta periculosidade? Por que a Globo só cobrou a omissão da polícia no caso na nota oficial lamentando a morte de Tim Lopes? Não seria o caso de, ao receber a denúncia da comunidade da Favela da Vila Cruzeiro, exigir que as autoridades tomassem imediatamente alguma providência? Ao pautar a reportagem, o que pretendia a TV Globo? Ajudar a comunidade ou apenas fazer sensacionalismo? Os diretores da Globo podem não admitir a segunda hipótese, ainda mais agora, depois do trágico desfecho do caso. Quem é ou já foi repórter sabe muito bem que ir quatro vezes, vale sempre repetir, sozinho, a uma mesma área de alto risco não é recomendável. Possivelmente, isso aconteceu porque Tim Lopes foi pressionado nesse sentido. É o tal esquema fantástico show da vida, em que o menos importante é a vida propriamente dita.

No ato público em solidariedade a Tim Lopes, realizado na sexta-feira (8/6) na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro, com exceção do jornalista Osvaldo Maneschy nenhum dos oradores, inclusive políticos da oposição, quis colocar em questão o comportamento da TV Globo no episódio. Na ocasião, foi denunciada também a omissão da Globo em relação à repórter Cristina Guimarães que, sob ameaças, está escondida e atravessando dificuldades. Ela participou da reportagem sobre a venda de drogas no Complexo do Alemão com Tim Lopes, que lhes valeu o Prêmio Esso no ano passado.

Um dos diretores da Globo, Ali Kamel, chegou mesmo a desqualificar a colega Cristina publicamente, ao afirmar, respondendo às acusações de Maneschy, que ela não teve participação importante na matéria em questão. Mentiu! Agiu de uma forma pouco ética e mereceria uma reprimenda do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, que também nada cobrou da Globo, da mesma forma que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Hoje, um grupo de jornalistas está se mobilizando para conseguir que a colega Cristina Guimarães consiga, no exterior, bolsa de alguma entidade ou trabalho. E isso precisa ser feito imediatamente, porque não se pode permitir que uma profissional de imprensa, menosprezada pela Globo, possa vir a sofrer alguma violência por parte de marginais de alta periculosidade. É dever de todos nós ajudar a preservar a vida de Cristina Guimarães e nos solidarizarmos com uma colega que passa por momentos de dificuldade, inclusive em termos de sobrevivência.

Nos, jornalistas, estamos de luto, como está todo o povo brasileiro. Mas não podemos tapar o sol com a peneira. Não podemos aceitar que a TV Globo aja com cinismo, como se não tivesse nenhuma culpa no cartório, com notas oficiais hipócritas, e continuar, como faz habitualmente, a vender falsas ilusões, posando de defensora dos interesses do povo. Em suma: não queremos outros Tim Lopes!

Mário Augusto Jakobskind, editor de Internacional da Tribuna da Imprensa

 

Lembremos Hugo Cabezas

O seqüestro, a tortura e o assassinato do jornalista Tim Lopes coloca o Estado e a sociedade brasileiros diante da necessidade de enfrentar um dilema: estão dispostos a permitir que o narcotráfico destrua seu país, sua família, seu futuro? Contem com este que lhes escreve, para levar adiante a luta pelo esclarecimento do assassinato de Tim Lopes. Lembremos Hugo Cabezas, jornalista argentino eliminado pelos narcotraficantes.

Rolando Lazarte


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