2/6

Envie para um amigo  Procure no arquivo

A MORTE DE TIM LOPES
Meu vizinho também morreu

A morte de Tim Lopes é triste. Respeito a dor da perda de um amigo. Mas onde foi parar a imparcialidade, imperativo dogmático? Um vizinho meu foi morto na porta de sua casa. O que diferencia o tratamento dado a estes dois homicídios? Não vejo outra resposta que não o coração dos senhores, muito mais tocado pela morte do jornalista Tim. O discurso objetivo do interesse público pautando a ação dos meios de comunicação não é efetivo. Desta forma, temos um problema, pois a ação informativa parte de pressupostos altamente questionáveis. Tais como interesse público, imparcialidade, justiça. O dogma não é utilizado em quase todas as áreas do conhecimento, seria hora das posições se aclararem, na imprensa.

Sidarta B. Martins

 

A morte do cão-de-guarda

O diretor da Central Globo de Jornalismo, Carlos Henrique Schroder, publicou no Jornal do Brasil de quinta-feira, 5/6, artigo revelador dos pressupostos e diretrizes que norteiam a prática jornalística da empresa dos Marinho.

Foi preciso que um profissional da casa desaparecesse numa favela carioca para que caísse por terra a polidez "objetiva" do discurso dominante acerca do jornalismo (e de tudo). Indignado, Schroder desclassifica os "bandidos dos morros do Rio" (?) como interlocutores, e faz desfilar boa parte das adjetivações comumente empregadas para se referir aos tais ("bárbaros", "criminosos", "facínoras") e, assim, reproduzir e reforçar a redução do senso comum.

O diretor da Central Globo de Jornalismo desclassifica os "bandidos dos morros do Rio" como interlocutores, agentes sociais, e diz com todas as letras que a apuração da dinâmica da realidade dos "bandidos dos morros do Rio" deve se resumir ao registro puro e simples da ocorrência criminosa (ato contrário à lei que protege os "homens de bem deste país").

Tudo para legitimar a prática da câmera oculta, e desconsiderar as condições de trabalho. Como o jornalismo da Globo (mas não apenas da Globo) declarou guerra aos "bandidos dos morros cariocas", enviar um de seus "soldados" (cão-de-guarda dos "homens de bem deste país") ao front, sozinho e desarmado ("armado da tecnologia, verdade e coragem", dirão alguns) não poderia ser classificado como uma péssima condição de trabalho? A Rede Globo sai em defesa da câmera oculta simplesmente por acreditar no bem da câmera oculta ou o faz para resguardar a imagem da empresa?

O jornalismo, assim, abre mão de sua função histórica, ao mesmo tempo em que a mascara, quando prefere trabalhar com o senso comum. O senso comum trabalha com certezas, frases feitas e palavras de ordem (daí, talvez, a negação em perguntar e o apreço por registrar). O senso comum é o senso comum da classe média, para quem a Globo vende jornal, faz novela e passa o terno do William Bonner. A classe média apavorada com a epidemia fabricada pela novela de Glória Perez, que trata de saúde pública para a classe média "assolada" pela cocaína, mas não por desnutrição.

Desnutrição embrulha o estômago cheio da classe média que janta depois do Jornal Nacional e antes do Osmar Prado.

Não deveria soar escandalosa a recusa do diretor de Jornalismo da Globo em cumprir a função da mediação exatamente no que concerne à problemática da criminalidade? Não deveria haver uma reação contra sua disposição de tratar "os bandidos dos morros do Rio" como pessoas geneticamente predestinadas ao mal, ou aberrações sociais que devem ser objeto de processos de depuração?

Mas o noticiário transita entre o louvor ao trabalho "investigativo" de Tim Lopes e o registro (...) das manifestações de indignação com o seu sumiço, passando pela justificativa para a reportagem em "questão" (filmar meninas sendo aliciadas por traficantes para participar de cenas de sexo explícito no famigerado baile funk – como se na Globo...).

E os "homens de bem deste país" estão assustadíssimos, revoltadíssimos e sedentos de punição. Os bárbaros mataram o seu cão-de-guarda!

Hugo R C Souza, editor do site Parto de idéias <www.partodeideias.com>

 

Ataques à profissão

Estudantes de Jornalismo no Brasil costumam ter, como uma de suas principiais características, a revolta. Contra o sistema social, os poderes públicos e demais instituições, o que, aliás, é justo, principalmente se levarmos em conta a idade em que um estudante freqüenta uma faculdade de Comunicação. Preocupante é o fato de não serem opinativos quanto a um problema que cada vez mais atinge a profissão: a violência contra jornalistas, ato simbolizado nos últimos dias pelo desaparecimento e a morte cruel de Tim Lopes, repórter da Rede Globo. Não apenas não têm posição sobre o assunto quando, na maior parte dos casos, mal sabe o que está acontecendo.

Desde o desaparecimento de Lopes, no começo da semana retrasada, aguardo ansioso por comentários de meus alunos sobre o caso. Eles, os comentários, não vieram. Nos corredores e nas salas de aula, fui interpelado sobre como serão as provas, quando começarão as férias, sobre a necessidade de ter mais direitos na instituição e pelo interesse na preservação dos valores democráticos, entre outros tópicos menos votados. Sobre o jornalista assassinado, nada. É bem provável que a situação vivida por aqui seja um resumo do que ocorre com centenas de outros professores de cursos de comunicação no país.

O fato de a Rede Globo ter dedicado 30 minutos do Fantástico de 10/6 para relatar a trajetória de Tim Lopes pode contribuir para alterar esse quadro nos corredores e salas de aula. O drama é que a maioria dos estudantes deve ter ligado a televisão não em busca de notícias sobre ele, mas sobre o programa Big Brother, por exemplo. Mais triste ainda é concluir que, muito provavelmente, os alunos terão desligado o aparelho de TV e terão iniciado a semana sem uma opinião firme sobre o assunto.

É possível que não parem para pensar nas ridículas palavras da governadora do RJ, Benedita da Silva, e do presidente Fernando Henrique Cardoso, que mais uma vez apenas souberam dizer que lamentam o ocorrido e que é hora de dar as mãos para combater o crime, em vez de reconhecer em rede nacional que o sistema de segurança do estado faliu. Ë possível ainda que não pensem na barbárie impetrada pelo traficante Elias Maluco. É possível também que tenham ido dormir domingo à noite sem lembrar que 51 jornalistas foram mortos em ação pelo mundo em 2001, o dobro do ano anterior. É possível sim que não tenham anotado as palavras ditas pelo narrador da Globo, quando disse que a civilização perde seu sentido e seus sentidos quando um repórter se cala.

Por fim, é possível que não tenham percebido a gravidade da declaração emitida pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que se disse preocupada pelo fato de delinqüentes estarem, no Rio de Janeiro, definindo os limites da liberdade de expressão.

E todos esses esquecimentos são tão graves para a profissão de jornalista quando a morte de Tim Lopes.

Márcio Fernandes, jornalista e professor universitário no Paraná

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe