ROBERTO MARINHO
Profundas afinidades
A nota abaixo revela as íntimas e profundas afinidades entre a direção da Rede Globo e do Grupo Folha quanto ao papel desempenhado por ambos na história brasileira recente. Dr. Frias e Dr. Marinho, ao serem coniventes com a ditadura militar, um mais do que o outro, certamente o fizeram pois se pautaram pelo que lhes pareciam "ser o melhor interesse do país e da comunidade"...
Caio Navarro de Toledo
Grupo Folha envia condolências
Prezados Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto, recebam nossas sentidas condolências pela perda irreparável. Seu pai foi um empreendedor de extraordinária visão que transformou o panorama das comunicações em nosso país, contribuindo de maneira decisiva para integrá-lo e modernizá-lo. Sua influência na difusão e na preservação da cultura brasileira, desde as vertentes do entretenimento às da arte erudita, foi marcante.
Como jornalista, deixa relevante legado expresso na trajetória de êxitos de O Globo. Como cidadão, teve atuação proeminente na vida pública nacional durante mais de sete décadas, pautando-se sempre pelo que lhe parecia ser o melhor interesse do país e da comunidade. A lembrança do homem cosmopolita, do competidor leal, do entusiasta das artes e dos esportes, do líder generoso e do empresário inovador ficará para sempre com aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Vocês são o testemunho mais eloqüente do grande pai que ele
também foi. A melhor homenagem que lhe podem prestar é prosseguir
na fidelidade ao exemplo admirável que ele legou ao Brasil. Com a
amizade e o abraço de Octavio Frias de Oliveira, publisher
da Folha; Luís Frias, presidente do Grupo Folha; Otavio Frias
Filho, diretor editorial do Grupo Folha.
Amnésia nas redações
É ridícula e absurda a mitificação e a mistificação que a mídia brasileira, em especial a Rede Globo, obviamente, está fazendo do ex-todo-poderoso Roberto Marinho. De repente, ele transformou-se em "paladino da educação e da cultura", "porta-voz da democracia", "paradigma de empresário consciente de sua responsabilidade social", enfim, a amnésia parece ter tomado conta das redações e das emissoras. A propósito, esse senhor deveria ser o tema do próximo Observatório na TV.
Não podemos esquecer que nos anos 80 o senhor Roberto Marinho proibiu no Brasil a exibição do documentário Além do cidadão Kane, uma produção da BBC londrina que analisa de maneira corajosa e inédita a relação intrínseca e estratégica que houve entre a Rede Globo e a ditadura militar desde o seu surgimento em 1965, as ligações do seu proprietário com ACM, Sarney, Maluf e Collor, e o incomensurável desserviço que essa instituição prestou e ainda presta à educação e à cultura desse país. E não há Criança Esperança que apague isso. Gostaria de ver se os senhores, em particular, o jornalista Dines, teriam coragem para tratar de um tema tão comprometedor e delicado quanto este.
Paulo Jonas de Lima Piva, doutorando em Filosofia,
USP
Brasil mais pobre
A morte do jornalista Roberto Marinho praticamente extingue uma geração de profissionais que, através da garra, do talento, da competência e da coragem formaram os conceitos da imprensa brasileira, da qual faziam parte Júlio de Mesquita, Assis Chateaubriand, Barbosa Lima Sobrinho, David Nasser, Carlos Lacerda, F. Pessoa de Queiroz etc. Feliz foi o homem que, mesmo morrendo aos 98 anos de idade, ainda conseguiu fazer com que a notícia do seu falecimento gerasse surpresa em toda uma nação. Esse é uma claro sinal de permanência com o absoluto controle de suas atividades intelectuais, cívicas e laborativas, fazendo questão de, até o fim dos seus dias, manter-se útil para toda a sociedade. O Brasil está mais pobre!
Júlio Ferreira, Recife