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CASO ABRAVANEL
Não viu, não leu, não entendeu

É como leitora e espectadora assídua que escrevo, mais para externar minha perplexidade, já que minha assiduidade se deve obviamente à admiração. Graças a esta última foi que me vi, espantada e até mesmo indignada, discordando de Alberto Dines (que sempre respeitei não só pela erudição como pelo cuidado ético e a lucidez de raciocínio de suas posições) quanto à sua posição na cobertura do seqüestro da filha do Sílvio Santos. Como poderia me empurrar a concordar com o secretário Petrelluzzi??! Mais espantada fiquei ao ler a coluna de Dines no JB, o que acabou me levando a escrever este email.

Incompreensível a posição irredutível, xiita mesmo, no programa Observatório da Imprensa que fez com que eu concordasse – muito a contragosto – com as palavras do secretário Petrelluzzi (que é um homem que considero incompetente e falacioso) sobretudo quando, com uma surpreendente semelhança a uma pontuação psicanalítica, ele disse: "Ninguém é dono da verdade", tentando conter o radicalismo quanto à absoluta liberdade de divulgar os fatos numa cobertura de seqüestro. A posição de Dines me pareceu insustentável pelo fato de não olhar a ótica do efeito que uma determinada informação pode gerar, e até mesmo sobre o nível de intimidade que expõe uma pessoa – ainda que pública. Se qualquer dado de um seqüestro deve ser divulgado pela imprensa, então por que também qualquer dado sobre as pessoas que ocupam cargo público não podem ser divulgados?

Neste caso, por que há uma espécie de acordo de cavalheiros, na imprensa em geral, de omitir informações sobre a vida privada (amorosa) de tantos políticos – inclusive de FHC? Não seria a mesma imprensa hipócrita em acatar tal acordo e depois se recusar a um acordo semelhante, quando se trata de uma situação de risco muito mais grave do que as meras indiscrições de alcova? Se determinadas informações quando das mudanças de planos econômicos eram tacitamente entendidas como sendo confidenciais até um momento estrategicamente oportuno, por que na estratégia de um seqüestro não se pode seguir o mesmo procedimento?

Não se trata de impedir o acesso à notícia e sua divulgação, mas sim de ter uma abordagem de prudência quando se tem uma realidade de risco. Gostaria de deixar claro que nunca me esqueço de uma das situações mais sórdidas e escandalosas que a censura de imprensa provocou, quando da epidemia de meningite na cidade de São Paulo, cujos dados foram propositalmente omitidos. Portanto minha posição não é de forma alguma a de quem concorda com a censura da informação. O que eu discordo é da rigidez de uma posição que não leva em consideração o contexto em que determinados fatos devem ser divulgados, principalmente se o adiamento desta divulgação não causar nenhum prejuízo. A rigidez de opinião me espantou no programa e, novamente, me espantou na coluna do JB: como, você – que tem um dos pensamentos mais límpidos e detalhados – pode afirmar que não há diferença nas situações do seqüestro da filha e do pai? Pois se justamente a diferença maior – e mais óbvia – era a de não haver nada a ser investigado?

Ora, no primeiro seqüestro estava presente o desconhecido: buscar e identificar os criminosos, procurar o cativeiro, conhecer o "modus operandi", procurar não prejudicar a vítima – enfim, havia a necessidade de uma investigação meticulosa e uma ação sigilosa. O trunfo mais precioso era justamente a informação. No segundo, tudo era já conhecido: o criminoso, o local, a exigência e, sobretudo, a estratégia a ser adotada. Não havia informação a buscar, não era este o trunfo. Não havia o que investigar, mas sim a decisão de quando intervir. Esta, a meu ver, a diferença básica, e por isto fiquei tão perplexa com a conclusão de que eram situações absolutamente iguais.

Continuo, claro, sua leitora fiel e espectadora atenta, mas senti que não podia deixar de manifestar minha surpresa diante da situação insólita em que você me colocou: concordar com o Pettreluzzi contra você!! Impensável! Um abraço,

Ana Lucia Mac Dowell Gonçalves

Alberto Dines responde: Pelo visto, a leitora não viu o programa do dia 28/8, nem o do dia 4/9, não leu o artigo no JB ou os do Observatório online. Mas se aceita a argumentação do secretário de Segurança de São Paulo, o problema não é meu. Eu não aceitei, embora tenha apreço por ele. A.D.

 

Cuidado, conteúdo sensacionalista

A imprensa em geral está cada vez pior! Desculpem-me pela generalização, é lógico que há exceções, como a TV Cultura (e outros), que cobriu menos ostensivamente o recente caso do "duplo seqüestro", pai e filha Abravanel. A exaustiva cobertura da imprensa televisiva foi muito sensacionalista e, por que não dizer, desinformativa. Desinformativa sim, pois o exagero de comentários e suposições, na maioria infundados, levam a um bombardeio de informações. nas quais a essência do problema se perde em inúmeras discussões paralelas de duvidosa relevância. Mas, levadas ao ar como foram, parecem de igual importância ao fato principal, obscurecendo-o, confundindo, portanto prejudicando a boa comunicação, a correta informação. Daí, "desinformando".

Na minha opinião, a essência teria sido algo do gênero: "O seqüestrador de Patrícia Abravanel voltou à casa de seu pai, para, acuado pela polícia, com natural medo de ser morto em confronto, depois de ter assassinado dois policiais ontem em Alphaville, possivelmente (óbvio), pedir garantias de vida para se entregar"; "Há um experiente negociador do Gate em contato com o seqüestrador e o refém, negociando as condições de rendição. A experiência diz que, com a casa cercada e com pouquíssimas chances de fuga, é provável que o meliante se entregue após tal negociação"; "Normalmente tais negociações demoram pois o seqüestrador é vencido pelo cansaço."

Pronto! Só isso já bastava! Já se informou a situação, diz-se que isso é o que geralmente acontece, ajuda a mostrar que tais crimes chegam a um fim e normalmente os seqüestradores são identificados, presos e até alguns mortos (acho que 80% dos crimes de seqüestro são resolvidos no estado de São Paulo) dessa forma, não tornando o fato um espetáculo e, por que não dizer, um incentivo para os regicidas que querem aparecer no próximo seqüestro de um "outro Silvio Santos".

Sem falar no absurdo que ouço em todas as televisões e rádios e vejo nos jornais e revistas que esse Fernando é um cara inteligente... Isso é a coisa mais absurda, que todos repassam sem refletir! A imprensa toda está cega ou eu que estou muito exigente? O cara pode ser ousado, destemido, enfim. mas inteligente? Alguém que faz um rastro de cal em uma estrada por quase um quilômetro para indicar o local do pagamento do dinheiro é inteligente? Lógico que não! Não por acaso guardas passaram por lá, e por curiosidade a seguiram e até acabaram trocando tiros com os irmãos bang-bang! E pior: o cara recebe o resgate, se hospeda num flat, deixa o dinheiro lá, armas idem, e sai para fazer compras num shopping? Será que ele nunca viu TV? Camareiras entrando no quarto para arrumá-lo? Isso é ser inteligente???

Para "manter a bola no ar" por 7 ou 8 horas apela-se para inúmeras suposições, relatos parciais, conclusões precipitadas em seguida repetidamente desmentidas pelos fatos, mas vá lá, "prá manter o ibope" valeu naquele momento algo como se dissessem para nós telespectadores: "É, vocês são burros, engolem qualquer coisa". É assim que vejo a situação. Na minha opinião, do jeito que a coisa vai estão prestando um desserviço à educação do povo (a não ser que coloquem uma tarja vermelha, grande, ao longo da página/tela, alertando "Cuidado, conteúdo sensacionalista, recomendamos uso tópico".

Não é isso que recomenda a boa conduta da relação com os consumidores?

Giglio Celso de Campos Pecoraro, arquiteto

 

Bem lembrado

Não é mais tempo de censurar. É preciso informar. Note que eu disse informar, e não comunicar. Acentuo a diferença: a primeira é transmitida por uma fala/escrita que tenta ser imparcial. O sensacionalismo foi um elemento ativo no seqüestro da Pat de Deus e do Sílvio. E o que os jornalistas (contrários ao pedido de sigilo de Sílvio) fizeram, nessa dramática – in memoriam aos dois policiais – pegadinha do Gugu foi comunicar. Quero dizer, eles foram parcialmente (alguns tentaram ser sutis – negar o sensacionalismo) parciais. É bom lembrar que tenho dois meses de jornalismo (caloura). Aprendi há pouco a diferença sutil entre informar e comunicar. Imagino que alguns experientes jornalistas tenham se esquecido dessa diferença. Bom, para alguma coisa servem os calouros, não é verdade? Espero que digam: "Bem lembrado!" Um beijo no calcanhar de Aquiles de cada jornalista.

Luiza Aguiar Leite



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