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FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Ditadura proletária

Confesso, acreditava que minha liberdade de imprensa nunca seria ferida em pleno Fórum Social Mundial. Alguns punks foram presos durante a manifestação contra a Alca e um grupo de jovens do Acampamento da Juventude saiu para pedir a soltura deles. Quando chegaram à delegacia, os punks já tinham sido liberados, mas, no caminho de volta, esse grupo foi cercado pela polícia, que não se conteve em seus cassetetes. Uma pessoa foi detida, e uma nova comitiva foi formada no acampamento para liberá-la.

Concluído tudo, e simplificando a situação, resolveram fazer uma plenária no acampamento para decidir o que fazer em relação ao que tinha acontecido. Lá para as 4 da manhã decidiram que fariam um protesto na PUC, às 9 da manhã, na hora e no local do encerramento do Fórum. Petistas, bolcheviques, anarquistas, punks, feministas, defensores do direito negro, todos discutiram acirradamente, mas civilizadamente, para chegar ao consenso.

Mas me proibiram de filmar a reunião com medo de que alguém gravasse ou tirasse foto deles, para depois persegui-los. Estavam certos de que havia dois agentes da polícia infiltrados lá (e não duvido disso). No dia seguinte, só umas 10 ou 15 pessoas apareceram. Os maiores entusiastas da plenária não estavam lá. Mesmo assim, decidiram fazer o protesto. Da imprensa, com eles, só eu e uma fotógrafa da organização do acampamento. Eles partiram da entrada da PUC e foram em direção ao Centro de Eventos, onde o governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, fazia seu discurso final. No caminho, segundo informações de manifestantes, várias pessoas usaram seus celulares assim que viram o grupo andando.

O fato é que, quando chegamos, formou-se rapidamente um cordão de isolamento, que não era formado por seguranças, mas com homens vestidos de camisas do Che Guevara. Representantes da CUT e do MST imploravam para que o grupo parasse a manifestação.

Na hora que esse cordão de isolamento estava sendo formado, um homem disse a outro: "Vamos fechar, vamos fechar". Eu estava filmando seu rosto nessa hora, e ele percebeu. Depois veio no meu ouvido e falou: "E você vai ser o primeiro que a gente vai fechar." Consternado com a situação, e aí foi meu erro, respondi a provocação mandando um beijo para o homem.

Pouco depois, ele se aproximou e fez um movimento brusco sobre mim, que eu entendi que fosse uma tentativa de me tirar a câmera, mas que depois fui perceber que ele tinha arrancado minha credencial de imprensa. Eu anunciei bem alto "o cara está tentando tirar a minha câmera", mas nenhum segurança se moveu. Uma das pessoas da manifestação me puxou para dentro da roda deles, onde eu não seria atacado. Mas somente aí eu dei por falta da credencial. Procurando pelo chão, achei-a sob o chinelo do homem que a havia arrancado. Tentei pegá-la de volta, mas só consegui quando uma pessoa empurrou o homem.

Os manifestantes acharam por bem sair do Centro de Eventos da PUC, por estarem em número muito pequeno. Do lado de fora, os representantes do MST e da CUT insistiram no discurso de que "aquele não era dia para protesto". À volta, circulavam pessoas, à paisana, com o claro intuito de vigiar o que aqueles "baderneiros" estavam fazendo. Vejam bem, eram o PT e seus aliados que faziam isso, não o PFL ou o exército.

A manifestação se dispersou, e ficamos poucos de nós lá. Eu, por precaução, troquei a fita que estava na câmera por outra, mais antiga. Quanto à imprensa, somente free-lancers nos acompanhavam. O jornal Zero Hora tentou entrevistar um dos punks que estavam conosco, mas obviamente não conseguiu. Os punks e a maioria dos esquerdistas não dão declarações a grandes jornais, com medo de que tenham suas falas distorcidas.

Este pequeno episódio pode nos levar a algumas conclusões: 1. Todas as manifestações que aconteceram no Fórum eram programadas e aprovadas pelos organizadores, o que pode ser provado também pela existência de papéis indicando o horário desses protestos na sala de imprensa; 2. Nenhuma manifestação contra o Fórum seria tolerada; 3. militantes do PT, claramente coordenados por alguém, podem usar a força para suprimir críticas.

Levamos tortuosos anos para garantir o direito de crítica e liberdade de expressão. É, ao menos para mim, é aterrador e decepcionante que os principais defensores dessa política sejam os primeiros a desrespeitá-la quando estão no poder. A quem eu poderia recorrer no episódio? A segurança, o público, a polícia todos estavam ao lado do discurso do Olívio Dutra. Se chamasse por alguma ajuda, o que provavelmente provocaria era uma confusão desenfreada e uma notinha nos jornais relatando a baderna que uns punks arranjaram no final do Fórum. Em quem confiar, a partir de agora?

Marcos Oliveira, estudante de Comunicação da UFRJ, participante do jornal-laboratório de telejornalismo online, o TJ ECO

 

Hora de rever conceitos

Gostaria de parabenizar a ambos os articulistas por tão claro e objetivo artigo [ver remissão abaixo], resumindo toda a "podridão" que foi a cobertura da RBS, e de todos os veículos vinculados a ela, do Fórum Social Mundial 2002. Eu estive presente em boa parte dos eventos do Fórum, inclusive no Acampamento da Juventude, e achei incrível o contraponto que se formou: de um lado a RBS, praticamente calada e se fingindo de "cega" enquanto tudo acontecia, e do outro a TVE e o Correio do Povo, entre outros, dando uma cobertura total e muito bem-estruturada de todo o evento.

Parece, realmente, que os coronéis da RBS ficaram preocupados em divulgar o Fórum para o resto do Brasil e do mundo, com medo de que essa fosse mais uma arma para desbancar Britto e Cia. Ltda. Mas eu acredito que enquanto houver veículos como o Observatório e muitos outros mais, nós, leitores esclarecidos que vão atrás da verdade, estaremos "salvos". A única coisa triste é saber que boa parte da população acaba comprando as idéias que esses ditos "jornais" vendem à população, como se fossem a mais pura e singela verdade.

Como diz aquela propaganda da Fiat: "Está na hora de você rever seus conceitos".

Guilherme Schneider, Porto Alegre

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