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MÁRIO COVAS
A engenharia da verdade
Não entendi o comportamento da imprensa perante o desaparecimento do Sr. Mário Covas. No Brasil, bastou morrer para virar santo. Logo, logo, vamos começar a ler matérias sobre os milagres obtidos após acender uma vela no túmulo do Santo Mário.
Somente um detalhe: é muito fácil ser corajoso no câncer deitado no Incor com 15 médicos de plantão e sem se preocupar com o pagamento da conta no final. Difícil é enfrentar o câncer nos corredores do SUS implorando a atenção de uma simples enfermeira. Obra do governo neoliberal do PSDB do Mário Covas.
Nenhuma palavra da "imprensa" sobre a opção neoliberal do seu partido. que levou milhões de brasileiros a ter um atendimento médico péssimo, nenhuma palavra sobre a "coragem" do governador em denunciar o mar-de-lama que seu colega de partido, FHC, trouxe para o Brasil, e por aí vai. Será que a nossa imprensa só serve para fazer colunismo social, press release, matéria "que vende"?
Eu sempre acreditei que a imprensa era para "ser do contra": contra os poderosos, o governo, os ícones, os falsos mitos, enfim, fiscalizar o que é público e do público. Que o Mário Covas descanse em paz. Mas que ele nunca foi santo, isso ele não foi. Basta ver sua sociedade na Cosipa com Paulo Maluf, sua atuação no Congresso defendendo interesses bem pequenos. E isso não vi em nenhum lugar na nossa imprensa.
Peço a gentileza ao Observatório de batalhar por uma imprensa mais crítica e analítica. Aquela que mostre o Covas com seus erros e acertos, como um ser humano que ele foi. baixo o press release e as "assessorias de imprensa". Saudações democráticas.
João Bignotti
Duas classes
Concordo em que houve muita coragem do ser humano Mário Covas ao enfrentar sua doença de cabeça erguida, contudo acredito que no intuito de conseguir furos de reportagens os senhores repórteres esqueceram um ponto muito importante: o respeito humano. Atropelaram toda e qualquer sensibilidade para trazerem a público novas notícias, desrespeitaram momentos em que a doença provocou situações desagradáveis e, de forma desumana, expuseram a pessoa fragilizada que bravamente lutava contra a morte. Comportaram-se como abutres, voando ao redor da presa moribunda, fazendo daquela guerra uma história sensacionalista barata. Isso nos faz pensar em como são ministradas as aulas aos jornalistas... Como lhes são passadas as noções básicas de ética, humanismo e respeito. Cabe a eles informarem os fatos, mas nunca, sob nenhum pretexto, o direito de invadir e expor pessoas a situações vexatórias e desagradáveis. Por esta razão devemos ficar cada vez mais certos de que existem duas classes de profissionais: os jornalistas e os jornalistas.
Heloisa Andrade de Almeida Prado
Mau gosto I
Vejam a pérola de manchete que o Jornal do Estado, um chapa-branca que circula aqui em Curitiba, cometeu na quarta-feira: "Mário Covas, enfim, livre do câncer". Não é possível que jornalistas tenham feito isso. Só pode ter sido cientistas que, afinal, descobriram a cura para o câncer: a morte. Liguei para a redação para reclamar. E o que me disse a jornalista que é secretária? Que a intenção foi poética! Não sabem fazer jornalismo e se metem a fazer poesia! Só podia dar nisso, mesmo. Acessem a página do jornal <www.jornaldoestado.com.br> e confiram essa baboseira.
José Roberto Martins, jornalista, Curitiba
Mau gosto II
O Jornal do Estado, diário que circula em Curitiba, deu a seguinte chamada de capa sobre a morte de Covas no dia 7 de março de 2001: "Mário Covas, enfim, livre do câncer". O jornal tentou explicar por telefone, a alguns leitores inconformados, que a intenção foi colocar um pouco de poesia na matéria. E se o editor escrevesse assim: "Câncer, enfim, livre do Mário Covas"? Não ficaria tão feio. O Moacir Japiassú adoraria isto.
Fábio
Colírio
O texto mais comovente que li a respeito do drama de Covas foi o escrito – lindamente – pelo Dines. Obrigada pelo colírio. Abraço a todos, parabéns pela edição.
Miriam Sanger
Pressa, pressa
Fatos de grande impacto, como o recente falecimento do governador de São Paulo, parecem (não sou do ramo) levar as editorias à loucura. Fico imaginando a correria, a gritaria, as pressões, a confusão geral em que são envolvidos os profissionais desta área quando algo assim acontece de repente. Esses são os momentos em que podemos assistir a grandes e não tão grandes profissionais completamente desarmados, fazendo o possível para mostrar o quanto não estão improvisando.
Alguém ouviu o repórter César Tralli, no Bom-dia, Brasil, da Rede Globo, informando (por duas vezes) que a falência (sic) do governardor Mário Covas ocorreu por volta das 5h30? Pobre governador... além disso morreu nesta mesma hora...
No SBT, pouco antes das 6h, Hermano Henning deu a notícia. Logo depois entrou a bonita matéria especial sobre a trajetória do governador (deve ter ficado pronta antes do necrológio do UOL) e em seguida uma repórter ao vivo, da porta do hospital, lendo um boletim médico que dava conta de que o quadro do governador permanecia estável... fiquei por um tempo sem saber se a "barriga" tinha sido o falecimento ou a recuperação. Depois entendi que o governador estava, sim, definitivamente estável.
Paulo Dias, analista de sistemas
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