14/05/2003 3/8

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POLÍTICA DE COTAS
Consolação mixuruca

Vejo gente de todas as tendências atacarem e defenderem a lei, resolução, sei lá o que é que determina as cotas para negros na universidade. Quando é gente boa e bem-intencionada, assim como bem-embasada, dá aquele negócio esquisito: a gente fica do lado do último que falou. A razão disso é clara como água. É que todo mundo tem razão e está todo mundo errado! Tudo que não é matemático (e talvez até o que seja matemático!) tem aspectos positivos e aspectos negativos. O nosso filtro interno é que determina se vemos mais um lado que o outro.

O grande Millôr já disse que o mal das ditaduras é que nos mostra só os dois lados da questão! Imagine se todos gostassem ou aprovassem a mesma coisa: o mundo seria uniforme. Democracia significa "governo da maioria", e não governo do que é correto. A maioria pode estar errada, como freqüentemente está. O pessoal da universidade sabe que nos casos em que a solução do problema exige a solução procurada o método a ser empregado é o de respostas incrementais, cada vez mais próximas da melhor.

Vou então botar mais um pouco de lenha na fogueira: pode até ser errado dar aos negros esta colher de chá universitária. Convenhamos, entretanto, que em vista de todas as autênticas sacanagens que eles, os negros, já sofreram e ainda sofrem em nossa sociedade falsamente igualitária é até um prêmio de consolação bem mixuruca. Mais: este pequeno prêmio de consolação pode ser o inicio de uma imensa reparação muito merecida por eles.

Humberto Crivellari

 

Mainardi e a questão racial

No Brasil, sabe-se que a Lei de Terras, de meados do século 19, precedeu o fim da escravidão, legalizando a posse das terras pelos latifúndios e bloqueando a possibilidade dos escravos que se tornavam "homens livres" de terem acesso à terra. Sabemos que a transformação da questão da escravidão na questão da terra é um dos fatores fundamentais que fazem do Brasil, até hoje, um país estruturalmente desigual e injusto.

Como a igualdade jurídica não se seguiu à igualdade nos planos econômico, social, político e cultural, os negros e os pobres continuarão "menos iguais" que os outros. Entra ano sai ano, entra governo e sai governo, com ditadura ou com democracia, com recessão ou com expansão econômica, a desigualdade social e racial persiste.

Em um debate radical sobre o Brasil, não se pode desprezar a questão racial como sugere Diogo Mainardi no artigo "Fora Zumbi!" publicado na revista Veja (edição 1.801, de 7/5/2003). Aparentemente democráticos, os argumentos do articulista escondem questões do tipo: os que contestam a política de cotas, invocando o mérito e a igualdade jurídica garantida pela Constituição, conseguiram obter resultados melhores que os que os alunos das cotas por capacidade própria ou por ter tido recursos econômicos e ter freqüentado escolas privadas e cursinhos pagos? Neste caso, é a desigualdade que os fez chegar à pontuação. E, no entanto é em nome da "igualdade" que eles querem obter vagas em detrimento dos discriminados econômica, social e racialmente.

Diogo Mainardi considera a política de cotas uma "lógica de gueto" e afirma que "o melhor jeito para acabar com o racismo no Brasil é eliminar o critério de raça". A política de cotas não resolve nem poderia resolver o problema da injustiça social no Brasil e nem sequer no meio educacional, mas somente por colocar temas essenciais em discussão já teria valido a pena. No entanto, o mais importante é que cria espaços de promoção para os que são reiteradamente postergados no acesso às universidades públicas e têm tantas vezes de se contentar com péssimas universidades privadas, pagando muito caro por um ensino de qualidade muito ruim – como todas as avaliações demonstram.

Marcos Fabrício Lopes da Silva, jornalista

 

Ministro negro no STF

Enviei a carta abaixo à Folha.

Paulo Marcos Gomes Lustoza

Senhor Editor de cartas da Folha de S.Paulo, solicito ao jornalista mandar publicar a seguinte carta:

Infelizmente, a impressão que fica lendo-se o noticiário da mídia sobre a nomeação de um descendente afro-brasileiro para ministro do STF é a de que foi designado mais por ser negro do que por seus atributos de ilibada reputação e notório saber jurídico, como tantos outros operadores do direito. Erros históricos são irreparáveis, principalmente para os atingidos, e nada justifica atribuir-se cotas para altos cargos da República, como se faz para calouros no ensino superior. Com certeza nos EUA o general Colin Powell e a Srª Condoleezza Rice não foram escolhidos para os altos cargos que ocupam por serem negros. Pensar de outra forma é que é o mais puro de todos os preconceitos. Raça nunca pode ser critério de escolha. Atenciosamente, Paulo Marcos Gomes Lustoza, Rio de Janeiro

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