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DIPLOMA EM XEQUE
Competição, garantia de competência

Aproveitando a discussão motivada pela decisão, no meu ponto de vista acertada, em derrubar a exigência de diploma superior para o exercício da profissão de jornalista, quero estender a discussão: os próprios jornalistas que são objeto da discussão valorizam em suas matérias a competição que impõe o conceito abstrato de mercado, que sei lá como foi concretizado. Pois bem, se a competição livre é o que garante que os melhores serviços e produtos continuarão à disposição da sociedade, por que é que há reserva de liberdade de exercício de profissão?

Claro que existiu um motivador, salientado pelo Ministério Público Federal: garantia de qualificações profissionais específicas indispensáveis à proteção da coletividade. Se essa é a intenção, por que são exigidos então diploma superior para atuar como profissional da informática, administrador, executivos de negócio, pesquisadores, publicitários, dançarino, ascensorista, arquivista, sociólogo, decorador, artista de novela, ator de clipes publicitários, comentarista esportivo, locutor, noticiarista, cronista carnavalesco, colunista social, repórter e até técnicos de futebol?

O que uma faculdade pode ensinar sobre futebol ao Pelé? E de dança a Carlinhos de Jesus? E de crônicas a Mário Prata? E de informática e negócios a Bill Gates?

Não sou contra diploma, apenas acho que habilidades, aptidões e interesses individuais não são valorizados com regulamentação de profissão. Ela impede é que os formados nas universidades compitam diretamente com autodidatas ou com aqueles que escolheram formações que mais contribuiriam para sua bagagem de conhecimento, garantindo assim a exclusão social, da qual nosso país já é PhD.

Marcelo T. Marchi, uma pessoa comum

 

Escuridão no fim do canudo

Apesar de ser estudante de Jornalismo, ou melhor, de Comunicação Social com ênfase em Jornalismo, sou contra a obrigatoriedade do diploma. Acredito que, como em outras profissões, pessoas que não passaram por nenhuma formação acadêmica específica podem ser tão capacitadas quanto as que pela academia passaram. Até ai tudo bem, narrar um fato, emitir opiniões, produzir um telejornal, um artigo etc., qualquer um que tenha "formação cultural sólida e diversificada", além de prática, pode fazer – se vai ficar bom ou não são outros quinhentos. Uma empresa não precisa ser administrada por uma pessoa formada em Administração: se alguém conhecer e ou tiver pratica em gestão pode vir a ser um administrador de muito sucesso sem nunca ter pisado numa faculdade.

Até ai tudo bem repito, mas não é por isso que devemos desmerecer os cursos de formação acadêmica, como o de Administração e o de Jornalismo, que antes de tudo é de Comunicação Social. Esse curso nos da uma visão ampla do processo comunicacional, que é inerente a vida em comunidade e que certamente é um dos alicerces da sociedade contemporânea em que vivemos.`

Com essas noções um jornalista adquire dimensão do seu poder e de seu papel, e finalmente de como deve agir. Se não é essa a regra, a culpa não é da faculdade, e sim do meio corrompido em que o formando se insere. Em toda essa discussão, de concreto, temos que qualquer um pode e deve escrever, ter seus textos (desde que de qualidade) publicados e até receber salário para isso. O que não é aceitável, não tem lógica e não é certo é considerar como jornalista, regulamentar, registrar em conselhos regionais ou sindicatos, por exemplo, alguém que não passou pela faculdade. É como pegar um empresário de sucesso, um comerciante próspero e lhe dar uma carteira do CRA - Conselho Regional de Administração.

Trecho de "Luz no fim do canudo", de Luiz Weis: "Com o entusiasmado apoio dos sindicatos de jornalistas, criou-se uma reserva de mercado que, a rigor, só serviu para encher os bolsos dos donos das escolas de comunicação e despejar às portas das redações uma atônita peonada de canudo em punho, que, salvo as raras e proverbiais exceções, passou pelo menos quatro anos de vida sem aprender nem a profissão nem o bê-a-bá do vasto mundo de que ela se ocupa."

Dizer que só serviu para encher o bolso dos donos de faculdades e as portas das redações não é argumento para nada, infelizmente essa é a realidade de muitas outras profissões cujo mercado recebe muito mais formandos que a quantidade de vagas criadas. As suas raras e proverbiais exceções não são tão raras assim, e, como disse antes, existe em todos os ramos de formação acadêmica. É da nossa sociedade estudar só para ter um diploma.

Um formando em Economia, Direito, Ciências Sociais, História, Filosofia, Letras, quem sabe até em Administração Pública, está mais bem preparado para tentar a carreira de jornalista do que o infeliz egresso de uma Faculdade de Comunicação.

Não acredito que essa afirmação partiu de um jornalista, um formando de qualquer um desses cursos certamente pode ter mais embasamento teórico para escrever colunas específicas ou de opinião, principalmente a respeito de assuntos diretamente ligados a sua formação. Talvez escreva melhor até que um formando de Comunicação, principalmente se este, como foi dito, for uma pessoa infeliz (sentimento que nada tem a ver com a formação profissional), pois as pessoas infelizes nada ou praticamente nada conseguem fazer com qualidade.

Daniel Senna, Faculdades Integradas da Bahia

 

Omissão dos donos da mídia

Estou há mais de 25 anos ligado ao ensino do Jornalismo, e a questão do diploma, a despeito de uns (poucos) comentários corretos no OI, em meio a outros, de significado duvidoso, não pode ser tratada sem um exame mais profundo. As peripécias vividas pelo curso nestes anos todos não permitiram que ele tivesse adotado um formato mais consistente. Aliás, ele sempre foi muito deficiente, a partir das influências que tem sofrido inclusive, com a responsabilidade do Conselho Federal de Educação. Nem uma das três ou quatro mudanças sofridas na estrutura do curso foi feita diante da realidade deste país, em ampla discussão com a participação da sociedade e dos cidadãos mais próximos ao problema. Sempre foi uma elite - nem sempre credora de credibilidade - a líder das reformas.

Os donos da mídia jamais participaram ou se deixaram ouvir. Mantiveram-se indiferentes na questão da formação profissional.

Sem qualquer desrespeito aos profissionais, é bom levantar, por exemplo, os sobrenomes de grande parte dos atuais jornalistas para verificar sua origem familiar. O que os quatro grandes (confesso que não sei qual é o quarto) querem, neste jornalismo de negócios que se pratica hoje em dia, é facilitar o acesso das pessoas aos seus quadros, desde que em troca da satisfação de um interesse.

Juvenal Porella


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