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DIPLOMA EM XEQUE
O picolé do Zezinho
Se o Zezinho que vende picolé na esquina for hoje ao Ministério do Trabalho exigindo que coloquem em sua carteira que ele é jornalista, deverá ser feito, pois ele terá base legal para isso. Assim, ele passará a vender picolés e fanzines saborosos, feitos no fundo de sua casa.
Isso, na verdade, é uma falácia. A juíza diz que não é necessário diploma para ser jornalista, e sim ter uma base de conhecimento geral suficiente para o exercício da profissão. O que acontece, porém, é que ela se esqueceu de colocar em sua liminar autoritária alguma coisa que garantisse, pelo menos, que o indivíduo tenha um curso superior qualquer, como forma de manter o nível intelectual nas redações. Ou seja, deixou a profissão em um nível técnico baixíssimo.
As exigências de nível de ensino crescem cada vez mais, para qualquer atividade. Ninguém emprega mais uma secretária sem curso superior, mas qualquer primeiro grau malfeito servirá para considerar alguém um jornalista. As faculdades de Jornalismo são fracas mesmo, salvo raríssimas exceções, mas em vez de melhorá-las acaba-se com a obrigatoriedade do diploma. Aliás, a sentença da tal juíza é quase decisão em causa própria, já que o jornalismo historicamente sempre foi uma fonte de renda e reserva de mercado para advogados, pelo menos até a lei que instituiu a obrigatoriedade, em 1969.
Desregulamentar a profissão não beneficia em nada o jornalismo feito no Brasil. Se a obrigatoriedade do canudo fere a Constituição, por que ninguém viu isso antes, já que a Carta é de 1988? Em vez disso, o Congresso, o Judiciário e o Executivo deveriam cassar a concessão dada a várias faculdades caça-níqueis, que ensinam jornalismo como quem ensina um cachorro a pegar uma vareta jogada. Informação não é uma vareta. A faculdade é fraca, sim. Aprende-se muito mais na biblioteca. Ela, porém, é um instrumento para evitar que alguém entre numa redação sem saber nada e aprenda, ao longo de quatro anos (deveria ser menos até), a lidar com a informação e saber da sua responsabilidade social por isso. Está certo que nem todos conseguem aprender isso, mas é melhor que nada.
E quem ganha e perde com isso? Os donos de veículos de comunicação ganham, em um primeiro momento, pois os salários, com o fim da obrigatoriedade, devem cair bastante (a maior defensora do fim da obrigatoriedade é a Folha de S. Paulo). Quem já estiver no mercado não deve perder muito, pelo menos no início, já que a experiência ainda contará bastante, mas os novos profissionais encontrarão dificuldades de estágio e, sobretudo, de achar emprego na área. Os formados em Direito ganham, pois terão novamente a oportunidade de mais esse campo de trabalho. O jornalismo como um todo, entretanto, perde, pois a capacidade de lidar com a informação voltará a ser algo aprendido na prática, na experiência, na intuição e na vocação. Com a velocidade da informação atual, esse tempo nunca será respeitado, o que gerará jornais, revistas e programas de TV ruins.
Sugestão: já que a obrigatoriedade do diploma fere a Constituição, por que não modificar também o poder totalitário dado a um juiz de primeira instância, que pode proferir liminares válidas em todo o território nacional e decidir, sozinho, por toda uma categoria regulamentada há mais de 30 anos? Ou a juíza Carla Rister não vai querer perder essa boquinha?
Eduardo Sol, Recife
Unhas e dentes
Que grande baboseira o artigo de Angelo de Souza, jornalista em Belém. Deve ser formado e diplomado, caso contrário não defenderia com unhas e dentes a estúpida obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo. Que, ao contrário do direito, não é uma ciência. O desejo de ser juiz - prova nítida da imaturidade do jornalista – esbarra na necessidade de especialização na Ciência Jurídica. Complexa. A exigir dos abnegados que abraçam a magistratura um aprofundamento e um desprendimento, e uma abnegação, que fogem, parece, à vocação de Angelo.
Uma lista: Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende, Vinicius de Moraes, João Saldanha, Castelo, Ivan Lessa, ..., ..., por aí. Nenhum deles passou pela faculdade ou por um curso de Jornalismo. Curso que é, apenas, um galho que dá lucro às árvores que não param de crescer que são as faculdades. Tomara que julgado o mérito da ação se derrube esta estúpida exigência.
Eduardo Goldenberg
Basta ser cidadão
Creio que são muito razoáveis os comentários com relação à exigência de diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista. Para escrever habitualmente em jornais o essencial é que a cidadã ou o cidadão estejam capacitados a fazer a leitura crítica dos textos que se publiquem nos jornais ou periódicos. É quase que a mesma exigência que pode se fazer para o pleno exercício da própria cidadania.
É verdade que o fracasso do sistema educacional brasileiro gera um complicador: poucos são cidadãos que sabem ler criticamente os diversos discursos políticos publicados nos jornais. Mas esta é outra questão, também de muita relevância, mas diferente. Sabemos muito bem que nem todos os votantes são plenamente cidadãos, embora votem. Os conhecimentos gerais requeridos para que vote bem são os mesmos que se poderia exigir dos que pretendem exercer a profissão de jornalista. Desde que saibam ler criticamente, os cidadãos podem ser jornalistas sem exigência de qualquer diploma.
Luiz Felippe de Oliveira Penna
Visível diferença
Ao se ler cada um dos artigos sobre a questão do diploma, percebe-se, com clareza, a gigantesca diferença de qualidade entre os argumentos favoráveis à formação profissional e os contrários ao diploma. Bem fundamentadas, as análises feitas por diversos articulistas-jornalistas profissionais e professores – como Nilson Lage, Elias Machado, Josenildo Guerra e vários outros, são muito mais consistentes em defesa do ensino e da qualificação profissional. Já os argumentos contrários ao diploma continuam repetindo, em pleno século 21, as mesmas falácias, tergiversações e idéias ultrapassadas já expostas, debatidas e rebatidas à exaustão desde a última regulamentação profissional. Por isso, os textos contrários ao diploma, publicados na edição passada do Observatório da Imprensa, foram tão pobres em argumentação.
Francisco José Castilhos Karam, jornalista e professor do Curso de Jornalismo da UFSC
Leia também
Os 15 textos do dossiê DIPLOMA EM XEQUE, publicados na edição 146 do Observatório, têm início no artigo "Para entender o caso", de Alberto Dines. Clique aqui
As cartas sobre o tema começam na página <www.observatoriodaimprensa.com.br/caixa/cp071120011.htm>.
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