8/11

Envie para um amigo  Procure no arquivo

TELEJORNALISMO
Favorecimento de entrevistados

Na matéria "Fala, Brasil; Bom dia, Brasil", a psicóloga Vera Silva discutiu a editorialização de matéria mostrada naquele telejornal (no caso, entrevistas com representante sindical dos docentes federais em greve e com uma alta funcionária do MEC mostradas em 31/10). O que me surpreende é que, até onde me lembre, foi a primeira vez que alguém apontou claramente a adoção desses artifícios por parte dos telejornais da Globo. Há muitos anos tenho notado o uso freqüente desses recursos. Sempre achei que fosse uma manifestação paranóica de uma mente desocupada (no caso, a minha), mas pelo jeito mais gente tem visto algo mais nas entrelinhas desses telejornais.

Por exemplo, a forma como eram apresentadas entrevistas com Antonio Carlos Magalhães (cujas ligações com os Marinho são notórias) era sui generis. A entrevista "padrão" de ACM o mostrava do peito para cima e contra um fundo neutro, seu rosto muitas vezes destacado e quase que enchendo a tela; o enquadramento da câmera era tal que, via de regra, nem repórter nem microfone apareciam. Além disso, muitas vezes a pergunta feita não era mostrada - apenas a resposta de ACM. Somando tudo isso, ACM parecia ser muito mais um locutor ou comentarista político do que um entrevistado - e, portanto, parte neutra com relação ao assunto tratado, cujo objetivo primordial seria informar e analisar imparcialmente os fatos apresentados.

Já as entrevistas com outros personagens eram, pode-se dizer, "normais": não se notava cuidado especial com enquadramento de sujeito, microfone e repórter, e as perguntas feitas dificilmente eram integralmente cortadas na edição. Era claro para o espectador que aquilo era uma entrevista, e que portanto ele deveria avaliar as opiniões e julgamentos ali ouvidos como tal. E, obviamente, quando a "entrevista" com ACM era parte de uma seqüência, ela era a última a ser mostrada: ACM era a palavra final.

Outra "sutileza" que certa vez notei em materiais jornalísticos globais (e, dessa vez, não fui o único - pelo menos dois conhecidos perceberam isso) se deu com reportagens abordando Collor, o caçador de marajás de Alagoas, entre 86 e 87 (bem antes, portanto, de ele ser apresentado seriamente como candidato presidencial, ao menos para o público geral). Naquele tempo, reportagens mostrando os feitos de Collor eram presença certa no Jornal Nacional. O que me chamou a atenção eram os microfones que os repórteres usavam para fazer essas matérias: completamente desprovidos do logotipo da emissora local que gerou a matéria ou da própria Rede Globo (e diferentes daqueles usados em todas as outras matérias).

Em 1988, durante a campanha que levou Collor ao Planalto, muitas daquelas pseudo-reportagens foram aproveitadas quase que integralmente nos programas televisivos do candidato, e aí ficou clara a razão dos microfones "anônimos": as reportagens não foram produzidas como tal, e sim como material para uso futuro na campanha política (não seria conveniente, portanto, que elas trouxessem a chancela da Globo ou de outra emissora qualquer, por razões óbvias).

Talvez eu seja mesmo um paranóico necessitando de tratamento clínico ou um desocupado que vê conspirações em todo canto. Ou não?

Fabio Augusto, Campinas, SP

Leia também

Fala, Brasil; Bom dia, Brasil – Vera Silva

 

THE WASHINGTON POST
Vamos aceitar calados?

Sobre a notícia "Washington Post diz que mídia brasileira alimenta sentimento antiamericano": Diz a notícia que a foto de bin Laden já aparece em encontros de esquerda com os retratos de Fidel Castro e Che Guevara. Eu não vi isso acontecer em lugar algum. Tampouco as pessoas de esquerda que conheço reconhecem bin Laden como "símbolo" antiamericano.

Jogadores usam camisetas com foto de bin Laden? Somos obrigados a ouvir a versão desse Washington Post e aceitar calados? Aqueles que aceitam esse tipo de "mentirinha’ como inofensiva (quando os EUA disserem que aqui no Brasil existem terroristas e resolverem interferir de algum modo) não poderão reclamar quando for tarde demais.

Eduardo Zanete


Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe